Cinquentões, peso e aspirina

Dois estudos importantes divulgados na semana passada, no Reino Unido, podem levar a uma reavaliação do que homens e mulheres na faixa dos 50 anos devem fazer para cuidar melhor da saúde física e emocional.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2014 | 02h02

O primeiro deles, realizado pela University College of London (UCL), do Reino Unido, publicado na revista científica PLOS ONE e no jornal Daily Mail, mostrou que perder peso pode ser muito bom para a saúde, mas não vai deixar a pessoa necessariamente mais feliz. Na verdade, a pesquisa achou uma forte associação entre perda de peso e sintomas depressivos como tristeza, solidão e letargia.

Quase 2 mil britânicos obesos ou com sobrepeso, na faixa dos 50 anos, foram acompanhados durante quatro anos. Aqueles que conseguiram perder 5% ou mais do seu peso corporal (em média, 7 quilos) apresentaram um risco quase duas vezes maior de ter sintomas depressivos do que aqueles que não haviam perdido peso.

Para os pesquisadores, o estudo não mostra que perder peso causa infelicidade, mas que as duas questões (obesidade e depressão) podem ter, algumas vezes, uma origem comum. Além disso, o acompanhamento emocional pode ser tão importante quanto o suporte médico e nutricional para quem busca um programa de emagrecimento.

Para muitas pessoas, abrir mão de comportamentos prazerosos, como ingerir comidas calóricas ou sair para jantar com os amigos, por exemplo, nem sempre é fácil. Algumas privações impostas pelas tentativas de perda de peso também podem ter um impacto nos sintomas depressivos.

Outro ponto é a frustração em perceber que, mesmo tendo perdido o peso desejado, as dificuldades da vida continuam. Não é só porque a pessoa emagrece que seus problemas vão desaparecer - um pensamento quase mágico, "vendido" por muitos tratamentos para obesidade.

Mas a pesquisa não descarta, de forma alguma, a importância de se controlar o peso para evitar problemas de saúde como, por exemplo, hipertensão, doenças cardíacas e diversos tipos de câncer. Aliás, esse é exatamente o tema do segundo estudo.

Pesquisadores da Queen Mary University, de Londres, publicaram um trabalho na última semana, divulgado pela maior parte das agências de notícias e jornais do mundo todo, que mostra que tomar um comprimido de aspirina por dia, durante 10 anos, na faixa de idade dos 50 aos 65, pode diminuir consideravelmente o risco de câncer, principalmente do aparelho digestivo.

A pesquisa, que avaliou cerca de 200 estudos anteriores sobre o tema e foi publicada na revista médica Annals of Oncology, sugere que, do ponto de vista da prevenção do câncer, além das estratégias já conhecidas de parar de fumar e de combater a obesidade, tomar uma aspirina por dia pode ser um dos recursos mais importantes.

Bom lembrar que o uso diário desse comprimido já é prescrito pelos médicos há muito tempo para pessoas com risco de enfarte e de AVCs (derrames).

Não se conhece exatamente o mecanismo que poderia explicar como a aspirina evitaria um câncer, embora se conheça seu efeito de inibir a formação de pequenos trombos sanguíneos e de diminuir a agregação de plaquetas. Se supõe que plaquetas também possam ter um efeito na proteção das células tumorais, efeito esse que seria bloqueado pela ação da aspirina.

Comprimido. Segundo o estudo inglês, a aspirina diminuiria em 40% as mortes por câncer de intestino, em 50% por câncer de esôfago e em 35% por câncer de estômago, além de ter efeito protetor em casos de câncer de próstata, pulmão e mamas. O pior revés do uso do remédio, porém, está no efeito colateral já conhecido de maior risco de provocar úlceras e sangramentos no estômago.

Os especialistas sugerem que se discuta, caso a caso, com o médico, os benefícios e eventuais riscos do uso diário da aspirina.

Outro ponto fundamental é que o medicamento não deve interferir na busca por um estilo de vida e hábitos mais saudáveis. Substituir exercícios físicos, controle de peso e alimentação adequada por um comprimido por dia não é a decisão mais inteligente e pode fazer o tiro sair pela culatra!

JAIRO BOUER É PSIQUIATRA

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