Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Cinemas de rua ressurgem em São Paulo, entre projetos saudosistas e gamers

Cine Rex, Ipiranga e Bijou estão com projetos de reabertura; Art-Palácio e Marrocos seguem fechados mais de 7 anos após serem desapropriados pela Prefeitura de SP

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2019 | 16h00

“Nota de falecimento: Aqui jaz o Cine Ipiranga”, anunciava o Estado em fevereiro de 2005. O texto citava o “último suspiro” da sala de cinema e encerrava: “A esperança de reviver os anos dourados dos cinemas do centro está minguando”.

Catorze anos depois, a situação toma rumo distinto: o espaço tem reinauguração prevista para o segundo semestre, com o nome Arcade Omelete. Em paralelo, outros dois cinemas do centro expandido de São Paulo também devem reabrir, com propostas distintas: o Cine Bijou, na Praça Roosevelt, e o Cine Rex, na Bela Vista.

Além de novo nome, o Ipiranga terá um perfil mais próximo da cultura pop e gamer. “Será um novo ponto de sociabilização, como eram os cinemas no passado, só que atualizando para o público de hoje, de um jeito diferente”, explica Marcelo Forlani, sócio-fundador do grupo Omelete e um dos idealizadores do projeto, bem como Facundo Guerra (grupo Vegas).

A sala principal terá foco em games, com cerca de cem computadores e a transmissão de campeonatos profissionais. Trará ainda uma área de convivência e espaço com jogos antigos, como fliperama e tabuleiros, e promoverá torneios internos, além de receber festas. A proposta se assemelha com a da Comic Con Experience, evento realizado pelo grupo Omelete anualmente e que reuniu, em 2018, 262 mil pessoas.

Também no novo Ipiranga, a sala 2 receberá maratonas e sessões especiais de filmes e séries, assim como eventos do site de cultura pop Omelete. “A ideia não é utilizá-lo como um cinema padrão, não é bater de frente com as grandes redes”, explica Forlani. “Todo o local será voltado para convivência e socialização entre os fãs de games, cinema, séries, cosplay, enfim, cultura pop.”

De 1943, o Cine Ipiranga tem projeto do arquiteto Rino Levi e é tombado, assim como outros expoentes da antiga Cinelândia Paulista, como o Marabá, localizado do outro lado da Avenida Ipiranga e hoje parte da PlayArte Cinemas. “Tem também o lado histórico, de estar em um lugar que é tão importante para São Paulo. O foyer  já é um portal, subir aquelas escadas é diferente”, comenta Forlani.

Filmes autorais. Outro cinema do centro expandido que deve abrir em breve é o Cine Bijou, que funcionou na Praça Roosevelt entre os anos 60 e 90 e tornou-se conhecido por exibir filmes autorais, pelo porte reduzido – hoje são 88 poltronas – e por ter sido um espaço de resistência durante a ditadura militar.

O Bijou está sendo recuperado pelo Os Satyros, companhia teatral que já tem dois espaços na Roosevelt. O objetivo é reabri-lo em junho, mais próximo o possível de sua versão original. A ideia nasceu um pouco no improviso, quando uma escola de teatro deixou o local. “A gente pegou o espaço meio no susto”, conta Ivam Cabral, um dos fundadores da Satyros.

A sede principal do cinema recebe atividades teatrais há mais de 20 anos. “Agora, será um espaço de cinema, sobretudo, com filmes de arte, produções independentes, que não conseguem chegar no circuito”, conta.

Ivam também adianta que está em desenvolvimento um projeto de sessão especial chamada provisoriamente de Filme da Minha Vida, em que um cinéfilo apresenta uma obra que considera marcante. A proposta também inclui resgatar as características originais do espaço, como o letreiro da fachada. Para isso, os investimentos iniciais serão de R$ 150 mil.

Também está em desenvolvimento um projeto para o espaço do antigo Cine Rex, inaugurado em 1940 e que deu lugar ao antigo Teatro Zaccaro. Em fase inicial, cogita-se remodelar o imóvel, mantendo a edificação original, que é tombada, para receber apresentações variadas. O novo espaço cultural é idealizado pela empresa Prevent Senior, que ainda não divulgou detalhes.

Transformação. Para Lúcio Gomes Machado, professor aposentado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP), o cinema de rua tem o potencial de transformar o entorno. “Ele retoma a função da rua, que é ter gente. E o fato de atrair pessoas para a rua faz com que o entorno se revitalize de maneira importante. Tendo mais coisas na rua, há uma força de sinergia. Um empreendimento atrai outro, o que ajuda a remontar a cena cultural na cidade.”

Machado ressalta que os cinemas que serão reabertos estão ligados à história da capital. “O Cine Ipiranga é uma das obras de arquitetura mais importantes da cidade. Já o Cine Bijou é emblemático porque fez parte da formação de cinéfilos, projetando filmes que não estavam no circuito.”

Marrocos e Art-Palácio continuam fechados após desapropriação

É preciso utilizar uma lanterna para entrar no Cine Marrocos, hoje coberto de poeira e com infiltrações e goteiras. A fiação não fornece mais eletricidade, enquanto pichações e roupas indicam o período em que foi ocupado por sem-teto. No chão, buracos em espirais e outras formas indicam a retirada de ornamentos. Na parte de projeção, apenas o segundo mezanino mantém as antigas poltronas vermelhas, também danificadas.

Da rua, os tapumes, os portões e uma parede de tijolos escondem o que já foi um dos mais luxuosos cinemas de São Paulo. No auge, mantinha porteiros de luvas brancas para receber as celebridades e os nomes da alta sociedade que atravessavam o salão de cor carmim e decoração mourisca. Hoje, passa por um processo de emparedamento para evitar novas invasões. 

Remanescente da antiga Cinelândia Paulista, o Marrocos voltou a ser alvo de discussões sobre uma possível reabertura após ser desapropriado em 2010, ao custo de R$ 46,4 milhões, segundo a Prefeitura. Ao longo dos anos, foi alvo de planos – de virar posto de saúde a teatro –, mas nada andou.

“O Marrocos era um luxo, a sala de espera tinha uma poltrona onde se colocava o cigarro na vertical”, lembra Máximo Barro, montador cinematográfico e diretor da cinemateca da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Hoje, a gestão Bruno Covas (PSDB) tem o objetivo de utilizar o espaço, que inclui um prédio de 12 andares, como sede da Secretaria Municipal da Educação (SME). Está em estudo a possibilidade de uma parceria público-privada para viabilizar a reforma do edifício e a transferência da administração, diz a SME.

Além do Marrocos, a Prefeitura também tem a posse do Art-Palácio, localizado na Avenida São João, em frente ao Largo do Paiçandu, datado de 1936. O valor da desapropriação, de 2012, foi de R$ 7,1 milhões, de acordo com a Secretaria Municipal de Cultura, que mantém um contrato de vigilância do local ao custo mensal de R$ 24,6 mil.

O cinema originalmente tinha 3 mil poltronas e era um dos mais populares da Cinelândia Paulista, onde os filmes de Amácio Mazzaropi eram lançados. Assim como o Cine Ipiranga, tem projeto do Rino Levi e, nos anos derradeiros, chegou a exibir produções pornográficas. “Foi o primeiro cinema moderno de São Paulo. De qualquer lugar, você via a tela e ouvia o som. Naquela época, os cinemas tinham mais de 2 mil lugares e viviam lotados”, conta Máximo Barro, que trabalhou em produções de Mazzaropi.

O Estado procurou a Prefeitura de São Paulo e solicitou entrevistas para discutir os planos para os dois cinemas – ambos tombados em nível municipal desde 1992. Sobre o Art Palácio, a nota oficial ressalta que o imóvel funcionou até 2012, ano em que ocorreu a desapropriação. Na gestão João Doria (PSDB) estava incluído no Plano de Metas para virar uma escola de grafite. “Futuramente, o espaço deverá ter uso multidisciplinar, com várias atividades relacionadas à cultura, tais como teatro, literatura e cursos. A SMC busca parceiros para restaurar o prédio.” 

Antigos cinemas do centro já reabertos na região central:

Cine Marabá

Cinema do Grupo PlayArte; exibe filmes do circuito comercial

Avenida Ipiranga, 757 - República

Cine Olido

Sala integra o circuito Spcine, da Prefeitura, com ingressos a preços populares

Avenida São João, 473 - Centro

Cine Belas Artes

Espaço exibe filmes do circuito comercial; perdeu patrocínio da Caixa neste ano

Rua da Consolação, 2.423 - Consolação

Cine Joia

Cinema transformado em casa de shows

Praça Carlos Gomes, 82 - Liberdade/ COLABOROU PAULA FELIX

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