Cine Belas Artes corre, de novo, risco de fechar

Sem patrocínio do HSBC desde março, histórico cinema da Consolação procura outra empresa para conseguir manter-se

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2010 | 00h00

"A luz vermelha está acesa. Se não conseguirmos novo patrocínio, será inviável mantê-lo aberto." O prognóstico, nada animador para os cinéfilos paulistanos, é do cineasta André Sturm, sócio-proprietário do Cine Belas Artes. E é consequência da saída do Banco HSBC, que desde 2004 investia no tradicional cinema da Rua da Consolação e, como contrapartida, tinha seu nome no letreiro da casa.

Em 31 de março, a parceria foi rompida. Por meio de lacônica nota, o banco informou que a "estratégia de utilizar o nome em empreendimentos culturais continua" em outros estabelecimentos - em São Paulo, há a casa de shows HSBC Brasil; no Rio, a HSBC Arena. "Foi uma decisão deles, de reposicionamento", conforma-se Sturm. "Fizemos um acerto e eles foram muito corretos conosco."

Com um aluguel mensal de cerca de R$ 60 mil, alta taxa de IPTU e 30 funcionários fixos, o cinema não consegue sobreviver só com a renda dos ingressos. "Seria inviável", admite Sturm. "Manobrávamos as receitas e, com o patrocínio, tínhamos um colchão no orçamento do cinema."

Resultado: pires na mão novamente. "Nós (a administração do cinema é dividida entre a Pandora Filmes, de Sturm, e a 02, do cineasta Fernando Meirelles) já estamos sondando algumas empresas. Mas por enquanto são só indícios de interesse, não surgiu nada concreto", conta.

História. O Cine Belas Artes nasceu em 1967, após reforma do antigo Cine Trianon. A programação era definida pela Sociedade Amigos da Cinemateca. Além das três salas de projeção, o cinema realizava pequenos espetáculos de teatro, música e dança, em um palco equipado com refletores e sistema de som. Havia ainda uma galeria para exposições e um estande para venda de livros e discos.

Em 1980, após nova reforma, o espaço passou a contar com seis salas, cada uma batizada com o nome de um artista brasileiro: Heitor Villa-Lobos, Cândido Portinari, Oscar Niemeyer, Aleijadinho, Mario de Andrade e Carmen Miranda. "Passei minha juventude lá", diz o cineasta Sturm, saudoso, sobre essa época. A decadência veio 20 anos depois. Quando a distribuidora francesa Gaumont - responsável pelo espaço - deixou o Brasil, o fechamento era iminente. "Então procurei o proprietário com uma proposta", lembra Sturm, que sempre sonhara ter o próprio cinema.

Reforma. Em 2003 sua Pandora assumiu o ponto. Meses depois, ganhou a sociedade da O2. O gás mesmo veio em 2004, com o patrocínio do HSBC - o cinema passou por grande reforma e foi reaberto em maio daquele ano, com superlotação das seis salas que projetavam simultaneamente o filme O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein, estrelado por Fernanda Montenegro e Raul Cortez. Para os cinéfilos paulistanos apaixonados pelo cinema, era o fim do pesadelo. Com o encerramento do patrocínio, o terror está em cartaz novamente. Se o Cine Belas Artes terá ou não seu final feliz, dependerá da vontade dos investidores.

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