Cinco noites em um território de guerra

Repórter passou a semana na cracolândia, dormindo em hotéis da região e conversando com moradores, usuários de drogas e policiais

ARTUR RODRIGUES , O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2012 | 03h02

"O doce de leite chegou", grita um traficante de crack, antes de ser rapidamente cercado por viciados. De repente, a explosão. Uma bomba é atirada do alto de um prédio, na direção dos usuários de drogas. Alguns fogem e outros, com dedos em riste, simulando um revólver, fazem ameaças aos moradores.

Essa foi uma entre várias cenas dramáticas presenciadas pelo Estado nos cinco dias em que a reportagem viveu na cracolândia, área no centro ocupada pela Polícia Militar desde o dia 3. As noites foram passadas em dois hotéis diferentes, nas Ruas Guaianases e Helvétia.

Por toda a região, percebe-se o clima de tensão e guerra. De um lado, moradores e comerciantes acuados por viciados que andam sem rumo. De outro, "noias" sendo tocados por PMs e seguranças com porretes. Atos simples como ir ao trabalho ou à padaria tornaram-se um problema para quem vive não só na Luz como em bairros próximos, como Santa Cecília e Santa Ifigênia, para onde os dependentes têm migrado. Em várias ruas, há grupos de viciados nas calçadas, intimidando quem passa a pé. "Minha filha já tem 13 anos, mas agora tive de voltar a levá-la à escola. E eu que gostava tanto de morar aqui", lamenta o garçom Elcio Dias, de 46 anos, morador da Rua Guaianases, na Santa Ifigênia.

Da janela dele, é possível ver o mercado livre da droga em que se transforma a rua todo dia, a partir das 18h. Traficantes gritam alto para vender, enquanto viciados aparecem com toda sorte de objetos, na tentativa de conseguir ao menos meia pedra. Em uma ocasião, um rapaz carregava até um enorme exaustor. Enquanto isso, viciados com mais dinheiro se refugiam da repressão policial em hotéis baratos.

Passar a pé no meio da multidão de "noias" é assustador. A todo momento, rapazes com cachimbos na mão oferecem crack. O cheiro forte provoca tosse e embrulha o estômago. Há pessoas rindo e outras chorando. Crianças, idosos e deficientes físicos acendem seus cachimbos simultaneamente. Alguns estouram isqueiros, atirando-os ao chão. Como não aceitou as ofertas dos vários traficantes, a reportagem chamou a atenção e foi seguida até o hotel onde estava hospedada. Um menino de no máximo 12 anos disse em tom de ameaça: "A gente já conhece você, seu verme".

Sujeira. A banca de jornais de Massaiti Norisada, de 63 anos, fica bem na rota das "procissões do crack", formadas por viciados seguidos por PMs, que tomam a Avenida Duque de Caxias à noite. Quando Norisada chega de manhã, o local está imundo, cheirando a urina. "Passei a fechar às 16h30", diz ele, que prefere não saber quem faz a sujeira que limpa todos os dias.

Algumas ruas do centro se tornaram lugares inóspitos - a saída achada por moradores foi fechar-se em casa. Para sair à noite, só de táxi. "O pior é que nem visitas recebemos mais", diz Deuzita Santos, de 46 anos, moradora de Santa Ifigênia.

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