Gabriela Biló / Estadão
Gabriela Biló / Estadão

Cinco mil protestam contra o machismo e o estupro na Paulista

Protesto na região central de São Paulo foi convocado após o ataque a uma adolescente no Rio, que também tem manifestação

Fabiana Cambricoli e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

01 Junho 2016 | 19h16

SÃO PAULO - Munidas de cartazes contra o machismo e a violência sexual, cerca de cinco mil pessoas, segundo os organizadores, protestaram na tarde e noite desta quarta-feira, 1, na Avenida Paulista, região central de São Paulo. O ato foi convocado após o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro na semana passada. A capital carioca também teve manifestações. A Polícia Militar não quis divulgar estimativa de público. 

Logo na linha de frente do ato, manifestantes fizeram um cordão de isolamento para mulheres com bebês e crianças, presentes em grande número no evento. "Fui vítima de abuso sexual na infância e na idade adulta e quero que meu filho veja a mãe lutar contra esse abuso. Acho que essa participação dele desde cedo vai fazer com que ele crie empatia pelo que passamos", diz a educadora Natasha Orestes, de 30 anos, que foi ao ato com o filho Théo, de 3 anos.

"Mexeu com uma, mexeu com todas" e "pelo fim da cultura do estupro" eram algumas das frases defendidas pelas mulheres em cartazes e gritos durante o ato. O grupo saiu do vão livre do Masp às 17h40 e seguiu em passeata para a Praça Roosevelt. 

A estimativa inicial era de que o percurso fosse feito pela Rua da Consolação,  mas com o confronto ocorrido mais cedo entre PMs e integrantes do movimento sem-teto na região, o trajeto foi transferido para a Rua Augusta.

O presidente em exercício, Michel Temer, também foi alvo do protesto com cartazes que o chamam de "golpista, machista e fascista". Recebe crítica ainda a nomeação de Fátima Pelaes para a Secretaria das Mulheres da gestão PMDB. Religiosa, ela se declarou contrária ao aborto até em casos de estupro. 

"É no mínimo contraditório o governo nomear para um órgão tão importante uma pessoa que não considera todas as opiniões sobre o tema, já se mostra fechada ao diálogo ao omitir essa posição e fecha os olhos também para um problema que é de saúde pública", diz a relações públicas Carolina Araújo, de 25 anos.

Satirizando reportagem que ressaltou a primeira dama Marcela Temer como "bela, recatada e do lar", as mulheres presentes cantavam ainda "nem recatada e nem do lar, a mulherada tá na rua pra lutar". Autor de projeto que dificulta o aborto em casos de violência sexual, o deputado Eduardo Cunha também foi lembrado no protesto.

Mesmo com a presença majoritária de crianças e mulheres no ato, a PM levou policiais munidos de escudo e bombas de gás. Questionado pela reportagem, o aspirante a oficial responsável pela operação, que não se identificou, disse que não pretendia usar os artefatos.

Durante o protesto, as manifestantes contaram, em coro, até 33, para lembrar o número de homens que abusaram da adolescente carioca e, em solidariedade à vítima, repetiram palavras da jovem, como "não dói o útero, dói a alma".

O grupo ainda defendeu a liberdade sexual feminina e que isso não seja usado como argumento para justificar casos de abuso. "A culpa nunca é da vítima", diziam vários cartazes.

Machismo ao lado. Comentários e olhares vindos de homens que observavam o protesto de fora reforçavam, durante o próprio ato, as reivindicações femininas. Não foi incomum ao longo do ato casos de homens fotografando manifestantes que protestavam sem blusa ou de sutiã ou fazendo comentários sobre seus corpos.

"Como já quebrei esse tabu com o corpo, não me importo com olhares, me importo com o que essa atitude representa na sociedade machista. Esse comportamento reforça ainda mais a necessidade dessa luta de hoje", diz a arte educadora Daiane Cristina, de 23 anos.

Havia ainda observadores que criticavam o protesto e insistiam em culpar a mulher em casos de abuso. "Isso aqui é só para criar tumulto. A maioria aqui é estudante universitária, vai em festinha, bebe e depois os caras se aproveitam. Quando elas vão nesses lugares já sabem que estão propícias", disse o encarregado Welington Ferreira, de 37 anos, que não tem filhas mulheres. Questionado sobre o que conversa com os três filhos homens sobre o tema, afirmou que prega "respeito total às mulheres". 

Por volta das 19h50, a passeata chegou à Praça Roosevelt, onde as mulheres fizeram juntas um jogral lembrando os números da violência contra a mulher no País e pedindo punição aos estupradores. "Machismo mata, feminismo liberta", gritaram em coro as mulheres no encerramento do ato.

Rio. Cerca de mil pessoas - mulheres, em sua maioria - se reúnem ao redor da igreja da Candelária, no centro do Rio de Janeiro, desde as 16h30 desta quarta-feira, 1, para denunciar a violência contra a mulher no Brasil e cobrar providências do poder público. 

O ato também reagiu a escolha de Fátima Pelaes para a Secretária das Mulheres. “Essa escolha indica mais um retrocesso do governo federal. Dilma já encaminhava muito pouca verba para essa secretaria, e agora a situação deve piorar”, avalia a universitária Mariana Nolte, de 24 anos. Líder do coletivo “Juventude Vamos à Luta”, ela é uma das organizadoras do ato.

Ao longo do ato, representantes de entidades da sociedade civil fizeram discursos contra o machismo e a falta de programas de combate à violência contra a mulher. O grupo planejava seguir em passeata pela Avenida Presidente Vargas rumo à Central do Brasil.

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