TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO

Cidade de São Paulo registra o mês de fevereiro menos chuvoso dos últimos 38 anos

Apesar do período de estiagem e altas temperaturas, Sabesp descarta risco de desabastecimento de água. Março começa com dias chuvosos

Júnior Moreira Bordalo, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2022 | 05h00

A cidade de São Paulo registrou o fevereiro menos chuvoso dos últimos 38 anos, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Foram apenas 69,2 milímetros de precipitação ao longo do mês, volume só inferior aos 32,5 milímetros de fevereiro de 1984, o menor de toda a série histórica iniciada em 1943. A capital paulista, no entanto, tem observado um início de março com dias chuvosos. O Sistema da Cantareira, o principal para fornecimento de água na região, está com 43% de ocupação dos seus reservatórios. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) descarta risco de desabastecimento.

Com 69,2 mm de precipitação acumulada na estação automática do Inmet no Mirante de Santana, a capital paulista marcou 177 mm abaixo da referência da Normal Climatológica (1981-2010). Isso significa menos 70% de chuva nos dias avaliados. No mês, o maior volume de precipitação em 24 horas foi de 13 mm, na manhã do dia 23. Cada 1 mm equivale a 1 litro por metro quadrado.

Ao Estadão, o Inmet explicou que a falta de chuva pode ser explicada por três pontos. Primeiro, a Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS) - canal de nebulosidade que se estende da Amazônia até o sudoeste do Oceano Atlântico - ficou mais posicionada ao norte do estado de São Paulo.

Esse fenômeno fez com que regiões das serras do Rio de Janeiro, Minas Gerais, sul da Bahia, Goiás, Mato Grosso, Tocantins e até parte da Amazônia, tivessem episódios de chuvas mais expressivos, como o temporal registrado em Petrópolis que deixou, pelo menos, 229 óbitos na última semana. 

Outro ponto foi a ligação da precipitação com a temperatura da superfície do mar nos últimos 40 anos nos meses de fevereiro que indicou um esfriamento no Pacífico Leste. Há ainda os efeitos da La Niña, fenômeno que deixa o tempo mais seco e influencia no volume de chuvas abaixo da média na capital. 

Além disso, fatores adicionais de água ligeiramente mais fria do Atlântico junto à costa de São Paulo e na faixa tropical do Nordeste, bem como águas mais aquecidas no Atlântico Sul até a Bacia do rio da Prata, também colaboraram para este cenário. "É importante deixar claro que não dá para falar em mudança de padrão climatológico. O que estamos vendo é uma diferença ocorrida em fevereiro; um desvio; uma flutuação. Para mudar um padrão é preciso de décadas com repetição", atentou Franco Villela, meteorologista do Inmet.

O Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) também verificou déficit de chuvas na região. Segundo o órgão da Prefeitura, o acumulado médio de precipitação foi de 75,1mm, o que corresponde a apenas 34% dos 220,8mm, média do mês. Em fevereiro, o CGE registrou 18 dias com chuva, ante os 21 dias chuvosos esperados. Com isso, a cidade teve o segundo fevereiro mais seco da série histórica do CGE desde 1995, quando a precipitação registrada foi de 64,0mm.

Especialistas alertam também que as mudanças climáticas, cujos efeitos têm se acelerado nos últimos anos, devem mudar o regime de chuvas no Brasil. As previsões são de eventos climáticos - como chuvas, secas e ondas de calor - mais frequentes e intensas,. como mostrou o IPCC, painel sobre mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU). O aquecimento global deve transformar todo País, sendo o Nordeste e a Amazônia duas das áreas mais vulneráveis. 

Professor vê nível do Cantareira abaixo do ideal, mas sem alerta

Maior produtor de água da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), responsável por abastecer 46% da população, o Sistema da Cantareira está atualmente com 43% de ocupação dos seus reservatórios, índice mais baixo dos mananciais da região - Alto Tietê (56%), Guarapiranga (82,1%), Cotia (78,2%), Rio Grande (99,2%), Rio Claro (45,4%) e São Lourenço (81,3%). 

Em nota, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) informou que a baixa na capital não traz risco de desabastecimento à RMSP neste momento. “As chuvas do início do ano, principalmente as de janeiro, contribuíram com os mananciais e as projeções são que haja aumento no nível dos reservatórios ainda em março, mês com boa média histórica de chuvas."

Ocupação do reservatório Cantareira nos últimos anos

  • 4 de março de 2022 - 43%
  • 4 de março de 2021 - 48,6%
  • 4 de março de 2020 - 61,3%   
  • 4 de março de 2019 - 49,5%
  • 4 de março de 2018 - 53,3%    
  • 4 de março de 2017 - 63,3%
  • 4 de março de 2016 - 26,7%
  • 4 de março de 2015 - -17,6%
  • 4 de março de 2014 - 16,2%
  • 4 de março de 2013 - 57,1%

Professor da área de hidrologia e gestão de recursos hídricos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Antonio Carlos Zuffo diz que o índice não está no nível ideal, mas acredita na segurança do sistema. “A média de todo o sistema de São Paulo está em 55,5%. É confortável. O ideal seria acima de 60%, mas não acredito que irá acontecer grandes problemas."  

Ele explica que, desde o início dos temporais em novembro, que durou até janeiro, o sistema teve um reestabelecimento de 17 pontos percentuais. “Ainda esperamos chuva para esse mês de março e quem sabe uma recuperação melhor. Outro ponto é que, no período de seca, o consumo da população da RMSP é de 30%. Ou seja, não chega a ser um risco”. 

Em fevereiro, as temperaturas da capital tiveram média de 29,2º C, com as máximas fechando o mês acima da Normal Climatológica, que é de 28,8º C. A máxima foi de 32,9º C, registrada na tarde do dia 28. Já as mínimas encerram o período com média de 19,5ºC, valor igual ao da Normal Climatológica. O menor índice registrado foi de 16,5ºC no dia 10.

 Zuffo destacou ainda que os ciclos são “decadais”. “Há períodos em que se chove mais e outros menos. É normal. Talvez, a gente só não perceba a diferença, pois é um espaço de muitos anos. Começou a ficar mais seco em 2012 e deve ir até 2050. Acredito que teremos uma crise mesmo entre 2025 e 2027, já que a média é a cada 11 anos”, alerta. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.