Cidade proíbe coveiro de trabalhar aos finais de semana

Medida foi tomada pois prefeitura de Lagoinha, no interior de SP, não pagava hora extra ao trabalhador

Simone Menocchi, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2008 | 20h37

Os cidadãos de Lagoinha, pequena cidade a 165 quilômetros de São Paulo, que morrerem aos finais de semana terão que esperar até segunda-feira para ser enterrados. Em um comunicado oficial, a prefeitura proibiu, desde 21 de agosto, que o único coveiro da cidade, Francisco de Assis Soares, faça horas extras e trabalhe aos sábados, domingos e feriados.   "Está suspenso os plantões aos finais de semana no cemitério devido ao baixo índice de mortalidade em nosso município. Desobrigando vossa senhoria de permanecer à disposição dessa municipalidade aos finais de semana", diz o comunicado assinado pelo encarregado do Departamento Pessoal da prefeitura, Valter Luiz Ribeiro.   A medida provocou a revolta do coveiro, que há quase três anos trabalha no cemitério e também da população de cerca de 6 mil habitantes, que agora tem medo de morrer aos finais de semana.   De acordo com o Sindicato dos Servidores Públicos do município, a prefeitura suspendeu os plantões do coveiro e do assistente dele para não pagar horas extras. Indignado, o coveiro concursado, que ganha um salário mínimo por mês, fez um levantamento e constatou que as mortes ocorrem sim aos sábados e domingos. "Não tem como prever isso. E se alguém morrer, como fazemos? Não é qualquer um que pode enterrar. Prestei concurso pra isso, tem técnica, não é assim que funciona".   Ontem o coveiro estava triste porque havia perdido dois primos em um acidente na estrada entre Lagoinha e São Luiz do Paraitinga. "E se hoje fosse sábado, como ia fazer? Isso não pode continuar assim, estou revoltado".   Segundo Daniel Ramos, presidente do sindicato, a falta de pagamento de horas extras por parte da administração municipal obrigou a entidade a mover uma ação contra a prefeitura. A Justiça do Trabalho então obrigou a prefeitura a fazer o pagamento. "Foi depois disso que eles mandaram o comunicado. Um absurdo".    O prefeito José Galvão da Rocha confirmou a ordem, mas negou ter impedido que as pessoas morram aos finais de semana. "Posso garantir que se houver alguma morte as pessoas serão enterradas sim, e que se for preciso até eu faço o enterro" comentou.   Mesmo com a promessa do prefeito, ninguém na cidade quer morrer de sábado ou domingo. "Agora pra morrer aqui, só em dia útil e só até quinta-feira. Não se fala em outra coisa", disse a faxineira Célia da Conceição.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.