Cidade nova sofre com violência e uso de drogas

A Pizzaria do Codó, a única da cidade, estava cheia numa noite de setembro quando uma moto parou perto de uma das mesas. O homem sentado na garupa, sem capacete, disse um nome a um rapaz sentado, perguntando se era ele. O rapaz respondeu que sim. O homem sacou uma arma e o matou com tiros na cabeça. O piloto da moto, de capacete, seria morador da cidade; o da garupa era desconhecido. A vítima consumia drogas, como muitos jovens na nova Jaguaribara. Foi apenas uma de várias execuções, aparentemente por dívidas. Há também roubos de motos e cobrança de "resgate" para devolvê-las.

O Estado de S.Paulo

05 Maio 2013 | 02h03

Na antiga Jaguaribara, disseram moradores, não se ouvia falar em drogas. Muitos acreditam que o problema esteja relacionado à falta de lazer e de pertencimento à cidade. "Notei muita depredação no patrimônio público", diz Matuziany Maia, que fez seu trabalho de conclusão no curso de Sociologia da Universidade de Fortaleza sobre a mudança da cidade. "Os jovens não sentem que a cidade é deles." Na única praça da antiga Jaguaribara, todos se reuniam para conversar, ouvir música, dançar e brincar, lembram os moradores. Na nova, as ruas ficam desertas.

"Eu não me conformo com essa mudança", afirma Natália Maia, de 27 anos. "Lá era aconchegante. As pessoas que trago de Fortaleza para conhecer Jaguaribara dizem todas a mesma coisa: parece um cemitério." Fisioterapeuta no hospital municipal, Natália tenta incentivar seus pacientes idosos a sair de casa e caminhar. "Eles dizem que têm medo", conta a fisioterapeuta.

Além de grande e um pouco escura, a nova Jaguaribara é vista como violenta pelos moradores. Eles atribuem o problema ao fato de haver "muita gente de fora" morando ou de passagem. A velha Jaguaribara não era passagem para nenhum lugar: quem estava lá havia ido para lá e todos percebiam quando havia alguém de fora. Agora, muita gente não se conhece.

"Aqui entra ano e sai ano e não estou satisfeito", diz Ubiramar Pereira, ajudante de pedreiro de 38 anos. "Lá eu pescava e caçava preá, avoante e tatu." O vereador Mathusalem Maia (PSL), de 61, diz que saía para pescar às 10h e às 11h30 estava de volta com peixe para o almoço. "Achei ruim sair de lá. Após viver muitos anos, você se apega ao lugar."

O fato de não poder voltar é o que mais atormenta os moradores. "Se não tivessem demolido a cidade, poderíamos ao menos mergulhar e vê-la", lamenta Natália. / L.S.

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