Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Cidade demolida volta ao mapa

Inundada em 1941, São João Marcos (RJ) vira parque arqueológico e ambiental na quinta

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2011 | 00h00

Uma cidade desaparecida há 70 anos será devolvida ao mapa fluminense na quinta-feira. Trata-se de São João Marcos, cidade colonial do Vale do Paraíba, demolida para a ampliação de uma barragem, que nos últimos dois anos teve as ruínas resgatadas por arqueólogos. O local - uma área de 930 mil m² - foi transformado em parque arqueológico e ambiental, com trilha para visitantes, centro de memória e cafeteria.

O passeio pela região histórica começa por uma trilha de dois quilômetros com calçamento de pedra. É um trecho da Estrada Imperial, uma das primeiras vias de rodagem do País, por onde se escoava a produção de café.

Ao fim da via surge a primeira ruína: vestígios de uma padaria de beira de estrada. A partir dali, em 40 minutos cumpre-se o roteiro que inclui o calçamento pé de moleque, a estrutura do casario colonial, incluindo a casa do capitão-mor, que mais tarde daria lugar a duas escolas e ao clube frequentado pelas famílias mais abastadas.

Também estão bem marcadas as torres da igreja de São João Marcos - que resistiu às marretadas e só veio abaixo depois de ser dinamitada. Os arqueólogos também conseguiram descobrir o ossuário, local em antigas igrejas em que os mais ricos eram enterrados.

Grande produtora de café, São João Marcos teve importância na economia nacional. Em 1880, tinha 20 mil moradores e perdia apenas para a capital em número de habitantes.

A pujança econômica se refletia na vida cultural efervescente: a cidade tinha dois clubes, escolas e até o Teatro Tibiriçá, onde se apresentavam companhias mambembes - e teve a fundação resgatada no trabalho de arqueologia. O carnaval era animado, com carros enfeitados e cortejos fantasiados pelas ruas (como mostram fotografias de época expostas no Centro de Memória).

O reconhecimento veio no aniversário do segundo centenário, em 1939 - tornou-se a primeira cidade tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. O título não garantiu a proteção. Um ano depois, o presidente Getúlio Vargas assinaria o decreto de "destombamento".

"O alteamento da barragem de Ribeirão das Lajes provocou uma mágoa na população. Mas não foi uma decisão da Light, que queria gerar mais energia. A empresa foi chamada pelo governo, que determinou a ampliação da barragem para garantir o fornecimento de água para a capital. A intenção era desviar o curso da água", explica o coordenador do projeto do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, Luís Felipe Younes. A concessionária de energia elétrica investiu R$ 5,8 milhões (entre verba de incentivo fiscal e recursos próprios) para a recuperação e criação do parque, sob administração do Instituto Light.

O desvio de água nunca ocorreu. Mas o destino de São João Marcos estava selado: em dois anos, a população foi indenizada e mudou-se para a vizinha Rio Claro. A ampliação da barragem provocou o alagamento de 72 fazendas e de parte do centro histórico, que ainda fica sob as águas, dependendo da época do ano. Por 65 anos, a área foi arrendada para a criação de gado.

Mulundu. Depois do abandono da cidade, surgiram sobre as ruínas dezenas de exemplares de mulundu, árvore alta, que se cobre de flores vermelhas na primavera. Reza a lenda que foram plantadas para representar o "sangue" dos antigos moradores. A árvore acabou se tornando o símbolo do parque.

Mais informações sobre o parque arqueológico ainda podem ser consultadas no endereço eletrônico www.saojoaomarcos.com.br, que começa a funcionar na quinta-feira.

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