Tiago Queiroz/Estadão
Paredão no Jaraguá data dos anos 30 Tiago Queiroz/Estadão

Cidade de São Paulo tem descobertas arqueológicas, mas preservação ainda é falha

Maioria dos achados é resultado de levantamentos feitos por causa de obras, o que é exigido por portaria federal; capital paulista tem cerca de 250 pesquisas em andamento

Priscila Mengue e Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Um muralha dentro de uma mata de difícil acesso, ossos de um antigo cemitério em pleno centro e trilhos de trem na obra de um shopping. Das áreas periféricas até regiões de intensa urbanização, novos artefatos arqueológicos têm sido encontrados na cidade de São Paulo. Ao mesmo tempo em que descobertas são reveladas, contudo, a gestão de peças e sítios arqueológicos enfrenta dificuldades. Dentre os casos mais conhecidos, está uma área hoje em ruínas na zona leste.

A maioria dos achados na capital provém de estudos arqueológicos realizados por causa de obras de médio e grande porte, exigidos em portaria federal desde 2002. Um levantamento do Estado no Diário Oficial da União identificou, somente no ano passado, ao menos 17 procedimentos do tipo.

"Se, por um lado, essas obras são agressivas pelo tamanho. De outro, a gente consegue o resgate arqueológico de alguns sítios que nós não teríamos ideia da existência. Em meados dos anos 2000, teve o sítio lítico do Morumbi, que data de 5, 6 mil anos. A arqueologia urbana tem essa missão de mostrar que a cidade não tem 460 anos", aponta Paula Nishida, diretora do Centro de Arqueologia de São Paulo, ligado à Prefeitura e que guarda mais de 2 milhões de peças.

"No meio urbano, essa narrativa (arqueológica) é perdida com mais rapidez. A gente vê quarteirões da cidade sendo demolidos de uma hora para outra. Enquanto no meio rural, esses processos de construção são um pouco mais lentos", compara. "É muito difícil você imaginar que tem arqueologia em São Paulo."

Na capital, a determinação de levantamento arqueológico em obras também abrange as de menor porte realizadas em regiões de potencial arqueológico, o que costuma ser apontado a partir de estudos do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH). Um desses locais é a área em torno da Capela dos Aflitos, na Liberdade, região central. Lá, no segundo semestre de 2018, foram encontradas sete ossadas do antigo Cemitério dos Aflitos.

Primeiro cemitério da cidade, o local funcionou de 1775 e 1858 e era voltado especialmente à população mais marginalizada. Junto aos ossos, arqueólogos encontraram adornos de vidro, geralmente utilizados por pessoas escravizadas. 

Agora, a origem dessas ossadas será investigada em laboratório, explica Lúcia Juliani, fundadora da A Lasca Arqueologia, responsável pelas escavações. Como todo o material foi retirado, o terreno está livre para a obra. No entorno, a especialista acredita que haja mais vestígios abaixo de outros imóveis, pelas dimensões do que foi o cemitério.

A Lasca aguarda ainda autorização federal para iniciar pesquisa em um terreno próximo ao Pátio do Colégio, também no centro, onde foram encontrados pedaços de cerâmica portuguesa. Nas quadras do entorno, há ainda outros três sítios arqueológicos do início da urbanização do centro: o Solar da Marquesa de Santos, o Beco do Pinto e a Casa Nº 1, todos transformados em espaços culturais.

Outra pesquisa no centro é feita no Brás, junto à obra do shopping Circuito das Compras SP, no antigo terreno da Feirinha da Madrugada. No local, foram encontrados trilhos, paralelepípedos e outros itens ferroviários. O Estado procurou a empresa responsável pelo levantamento, que não quis se manifestar.

Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), cerca de 12,5 mil pesquisas arqueológicas são feitas no País, das quais mais de 2 mil no Estado de São Paulo, sendo 250 na capital. Por lei, tudo o que é descoberto pertence à União. Na prática, embora parte dos artefatos seja exposta e estudada, a maioria fica guardada.

Sítio arqueológico está em ruínas na zona leste

Por causa do mato alto, o Estado não conseguiu se aproximar há três semanas das ruínas do Sítio Mirim, em Ermelino Matarazzo, na zona leste. A situação mudou após a reportagem procurar a Prefeitura, que atribuiu o problema à chuva. A vegetação aparada, contudo, não é suficiente para resolver a falta de manutenção do espaço, que traz as ruínas de uma casa de cerca de 400 anos – e que estava de pé até décadas atrás.

A última obra de recuperação ocorreu nos anos 60 e foi feita pelo Iphan. Há uma década, a gestão municipal apresentou um projeto arquitetônico para a área, enquanto um relatório de 2015 delimitou uma zona de atenção para uma ação de resgate de artefatos arqueológicos. Nos dois casos, nada foi feito. “Está completamente abandonado. A noite é perigoso”, diz o agente cultural Edson Lima, de 33 anos, fundador do Sarau Urutu, realizado no entorno das ruínas.

Em nota, a Prefeitura alega a manutenção da praça onde está o sítio é feita pela subprefeitura de São Miguel, que "realiza a capinação periodicamente".  "Sobre apoio ao patrimônio arqueológico da cidade, o DPH realizou estudos de tombamento em conjunto com o Centro de Arqueologia do DPH, no qual foram definidos perímetros de proteção arqueológica. Esses levantamentos com definições sobre lugares de interesse arqueológico permitem planejar ações e pensar em uma política no campo da arqueologia. A previsão é de que esses estudos sejam disponibilizados no segundo semestre de 2019."

Paredão no Jaraguá revela história pouco conhecida da mineração em SP

Caminhando por uma trilha fechada dentro da aldeia indígena guarani Tekoa Itakupe, nas encostas do Pico do Jaraguá, passando por nascentes e árvores centenárias, nos deparamos com um impressionante paredão de pedra. Produzido com blocos de quartzo extraídos do próprio local, a primeira impressão é de uma obra de uma antiga civilização na zona norte da capital paulista.  

Os arqueólogos no entanto, têm uma versão diferente: é uma estrutura de uma mineradora do século 20, dos anos 1930. "Trata-se da ponta de um iceberg, dentro da história da mineração paulista", explica o arqueólogo Paulo Zanettini, lembrando que os primeiros registros de exploração de ouro no Brasil foram feitos nos ribeirões que corriam pelas encostas do Jaraguá. Zanettini foi chamado, em 2015, para conhecer o local por ambientalistas, que trabalham voluntariamente com os indígenas da região. Antes, havia participado das escavações do Rodoanel, no trecho oeste.

Zanettini sustenta que existem evidências de que toda região no século 16 era constituída de pequenos arraiais de mineração. Povoados que funcionavam como minúsculas cidades. Nesses locais, a economia girava em volta do metal precioso. "O ouro que foi encontrado em São Paulo motivou expedições para se adentrar no que era chamado de "sertão". Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, foram Estados vasculhados pelos exploradores, após as descobertas na zona norte paulistana.

Além do paredão, outra referência histórica que remete ao período da "corrida do ouro paulistano" é a casa do século 16 do bandeirante e minerador, Afonso Sardinha, presente ainda hoje dentro do Parque Estadual do Jaraguá.

A busca do ouro em São Paulo é uma história pouco estudada e divulgada. Escassos registros foram deixados, mas as pistas continuam pela cidade. "Acredita-se que muito do que era explorado, era de forma ilegal, fugindo das pesadas taxas da Coroa Portuguesa", sustenta Zanettini. O ribeirão que banha uma aldeia indígena próxima à Itakupe, são seis aldeias no total, chama-se Ribeirão das Lavras, nome que remete à mineração. Um pequeno muro onde era lavado o minério encontra-se em más condições de conservação no local. 

Em 2016 foi aberto processo no Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) pelos arqueólogos de Centro de Arqueologia de São Paulo, Paula Barbosa e Francisco Adrião, solicitando o tombamento da área do paredão da mineradora. Segundo o documento, são vinte e dois mil metros quadrados que merecem ser preservados devido à sua importância histórica e paisagística. O tombamento está pautado para ser votado em reunião no dia 29 de abril.

"Esse paredão representa uma jornada inteira da região. De 1580 até os dias de hoje existe algum tipo de mineração, seja de metais preciosos, seja de areia e pedra. A primeira fábrica de cimento do Brasil, está localizada em Perus", explica Paula.

O quartzo retirado do local era utilizado na construção civil da cidade. "Acredita-se que boa parte da pedraria era utilizada na fabricação do "sapólio", antigo produto de limpeza. O muro possui cerca de seis a sete metros de altura, em um traçado em forma de U, recoberto com musgos, também chama a atenção uma pequena casinha de pedra, onde provavelmente era armazenada a pólvora para a detonação na pedreira. Acredita-se que a estrutura maior abrigava um britador para quebrar as pedras extraídas. 

"Chama a atenção a monumentalidade da obra. Ela estar isolada em meio à mata. A antiga técnica de "cantaria" para fazer a estrutura, tudo isso impressiona", cita Lucas de Paula Troncoso, arqueólogo que trabalha com Zanettini e a pedido da reportagem do Estado visitou pela primeira vez o sítio arqueológico. 

"É importante preservar esses testemunhos de atividade de mineração, extração de areia e pedras. A São Paulo dos anos 30 passava por uma grande crescimento, impulsionada pelo ciclo de industrialização. A preservação do que restou dessa antiga mineradora, que segundo Paula e Francisco, funcionou durante duas décadas, dos anos 30 aos anos 50, ajuda a contar essa história tão pouco conhecida para os atuais paulistanos. 

Três locais para conhecer a arqueologia paulistana

Centro de Arqueologia de São Paulo - Sítio Morrinhos

Rua Santo Anselmo, 102 - Jardim São Bento;

Visitas de terça-feira a domingo, das 9h às 17h;

Entrada franca.

Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE/USP)

Av. Prof. Almeida Prado, 1.466 - Cidade Universitária;

Visita às segundas-feiras e de quarta a sexta, das 9h às 17h; e aos sábado, das 10h às 16h;

Entrada franca.

Solar da Marquesa de Santos

Rua Roberto Simonsen, 136 - Sé;

Visita de terça-feira a domingo, das 9h às 17h;

Entrada franca.

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Museu de arqueologia está fechado há 5 anos na Grande São Paulo

Espaço em Carapicuíba deveria receber peças descobertas durante obras do Rodoanel, mas não tem previsão de abertura

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2019 | 03h00

SÃO PAULO - Alguns milhares de artefatos arqueológicos foram encontrados durante as obras de trechos do Rodoanel na capital e na região metropolitana de São Paulo. Em princípio, parte desse acervo deveria ser exposto em um novo museu na Aldeia de Carapicuíba, na Grande São Paulo. O imóvel chegou a ser erguido há cinco anos, mas nunca abriu. Hoje, nenhuma instituição se responsabiliza pela situação.

Além da indefinição sobre a abertura, também não são divulgadas mais informações sobre os objetos que seriam expostos no local. O que foi informado, em 2009, é que dentre eles, estão itens do século 18 encontrados no trecho sul do Rodoanel, como cerâmicas, telhas e louças

Questionada pelo Estado, a prefeitura de Carapicuíba se restringe a dizer que as peças que seriam expostas estão guardadas na Universidade de São Paulo (USP), "entre outros locais". 

Responsável pela obra, a Dersa diz que já concluiu a participação no projeto, com custo de R$ 2,3 milhões. A empresa diz que "a implantação e abertura são de responsabilidade da Prefeitura de Carapicuíba".

Já o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) diz que o acordo com a Dersa prevê ainda a instalação do projeto museográfico. "Até o momento, o instituto não recebeu para avaliação e aprovação o projeto museográfico", informou em nota.

A prefeitura de Carapicuíba declara, por sua vez, que reabriria o local por meio de um convênio com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para a implantação de um centro de estudos arqueológicos. A Unifesp diz, no entanto, ter encerrado as negociações.

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Análise: Potencial arqueológico da cidade de São Paulo é enorme

Encontra-se de tudo, desde sítios pré-históricos até vestígios de ocupações humanas mais recentes, cuja importância para se entender o passado é indispensável

Astolfo Gomes de Mello Araujo*, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2019 | 03h00

O ambiente urbanizado foi por muito tempo considerado um caso perdido em arqueologia. Argumentava-se que o subsolo estava muito “remexido” e não havia mais nada a fazer. Com o passar do tempo, isso se verificou falso: encontra-se de tudo, desde sítios pré-históricos até vestígios de ocupações humanas mais recentes, cuja importância para se entender o passado é indispensável. 

No Brasil, a arqueologia em área urbana é pouco explorada se comparada a países como Inglaterra, França e Japão. Há, contudo, uma tendência de haver mais pesquisas, em especial em São Paulo, por uma questão de amadurecimento acadêmico, administrativo e de gestão. Além disso, órgãos de preservação estão cada vez mais cientes da importância de trabalhos de cunho arqueológico.

A maior parte dos estudos hoje é relacionada a algum tipo de exigência legal. Não é 100% suficiente, mas é um ganho enorme. Basta lembrar que foram escavados, sem acompanhamento arqueológico, alguns dos pontos historicamente mais importantes da cidade para obras do Metrô nos anos 70. Isso na Praça da Sé, na Liberdade, na frente do Mosteiro São Bento. O caso mais emblemático é do Pátio do Colégio, que só não teve o subsolo totalmente arrasado porque um arqueólogo amador, Anthero Pereira Junior, fez escavações da melhor maneira que pôde.

O potencial arqueológico de São Paulo é enorme. É uma cidade entre dois rios caudalosos – navegáveis, cheios de peixe e que permitiam o contato com o interior –, perto do litoral e com biomas coexistindo. Imagine a quantidade de gente que morava nesse lugar na pré-história. Depois teve a ocupação europeia, com casas rurais e sedes de fazenda por todo lado, e, nos séculos 18 e 19, o aumento da urbanização.

Hoje, a maior parte dos bairros ainda é composta por casas e sobrados, cujas fundações são relativamente rasas, sem exigir grandes escavações. Um caso é a Penha, onde existia uma aldeia tupi e fragmentos de vasos indígenas aparecem nas valetas da rede elétrica. Outro exemplo são os terrenos embaixo das linhas de transmissão, cuja topografia está praticamente intacta: são enormes corredores sem construção e que poderiam ser explorados arqueologicamente. 

* PROFESSOR DO MUSEU DE ARQUEOLOGIA E ETNOLOGIA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (MAE/USP)

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