Cidade de Deus tem via-crúcis ''chapa quente''

Encenação da Paixão de Cristo no bairro da zona oeste do Rio mostra Jesus queimado por traficantes, drogas na mesa da Santa Ceia e outras polêmicas

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2011 | 00h00

Na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, a chapa é quente até na Semana Santa. A Via Sacra não culmina na cruz, mas no micro-ondas do tráfico, onde um Jesus negro e favelado é queimado vivo. No auto que será encenado hoje, amanhã e no Domingo de Páscoa no Ciep João Batista, na entrada da favela, ele é Messias, jovem que tenta convencer traficantes a deixar o crime e acaba assassinado.

A Cidade de Deus tem sua Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) há dois anos. Bandidos já não transitam exibindo armas, como nas sequências do filme de Fernando Meirelles. Mas em Outra Paixão, que será encenada gratuitamente para a comunidade, os fuzis - cenográficos - estão de volta. Os moradores, que passaram décadas subjugados, apoiam a iniciativa do autor e diretor da peça, Adilson Dias, o próprio se apressa em dizer.

De tanto ouvir a frase "aqui na Cidade de Deus, só Jesus salva", ele decidiu trazê-lo para o chão da favela. "Meu Jesus é mais humano, não é santo", explica, comparando o sofrimento da Via-crúcis ao dos meninos que perdem suas vidas para a violência das áreas pobres das cidades.

"Sei que é inusitado, mas minha intenção não é chocar por chocar, mas tirar Jesus da cruz e falar do genocídio que acontece nas nossas comunidades. Quando dizem "só Jesus salva", parece que não se pode fazer nada. Mas eu sinto que preciso fazer algo pelos meus."

Ex-menino de rua que escapou de ser morto na chacina da Candelária porque não estava no local no dia do massacre, Dias, de 30 anos, chegou à Cidade de Deus adulto, porque foi estudar, como bolsista, em uma faculdade no bairro. Cursa Pedagogia e dá aulas de teatro para velhinhos da favela.

O diretor já deu entrevistas para publicações da Inglaterra e da França. Ele havia montado o texto na última Semana Santa em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. D. Luciano Bergamin, bispo de Nova Iguaçu, subiu ao palco e provou do pão repartido por Messias numa Santa Ceia dividida com traficantes, que têm sobre a mesa o material com que embalam drogas.

A Arquidiocese do Rio não comentou a iniciativa.

São oito os atores em cena, todos jovens de comunidades reunidos na Companhia de Teatro Provocação. Maria é lavadeira; Pedro e Judas, criminosos que Messias tenta converter. A linguagem é a dos becos, assim como as situações de emboscada e tiroteio. A trilha sonora tem funk, música árabe e clássica. Maria Madalena aparece ao som de Baba, Baby, de Kelly Key.

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