Silvia Ballan
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Cicloativista, pesquisadora da USP morre atropelada na zona oeste de SP; motorista fugiu

A jovem Marina Kohler Harkot, de 28 anos, trafegava pela avenida Paulo VI quando foi atingida por veículo

Fabiana Cambricoli e Vagner Aquino, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2020 | 16h34
Atualizado 11 de novembro de 2020 | 12h14

SÃO PAULO - A cicloativista e pesquisadora da Universidade de São Paulo Marina Kohler Harkot, de 28 anos, morreu atropelada na madrugada de domingo, 8, quando trafegava de bicicleta pela Avenida Paulo VI, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Segundo a Polícia Civil, ela foi atingida por um carro por volta da 0h17.

O motorista fugiu sem prestar socorro. A jovem foi socorrida por uma equipe do SAMU, mas morreu no local. Segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), a equipe do 14º DP (Pinheiros), responsável por investigar o caso, conseguiu identificar e entrar em contato com o proprietário do veículo que atingiu a jovem, mas ele informou que vendeu o automóvel em 2017 e que irá apresentar o documento de transferência comprovando a venda. 

A identificação do carro foi possível graças a uma policial militar de folga que passava pelo local e presenciou o atropelamento. Ela conseguiu anotar a placa do veículo, um Hyundai Tucson, e prestou os primeiros atendimentos à vítima. A SSP informou que policiais militares constataram pelo sistema de câmeras Detecta que o automóvel passou, de fato, por diversas vias próximas ao acidente momentos antes da morte de Marina.

O delegado responsável esteve no local do atropelamento e verificou que a via possui quatro faixas e tem velocidade máxima permitida de 50km/h. De acordo com a polícia, Marina estava na última faixa, "próxima ao parapeito". O companheiro da pesquisadora contou aos policiais que ela "era ciclista há muitos anos e utilizava a bicicleta como meio de transporte". A secretaria informou que "diligências prosseguem para identificar o condutor do veículo".

Vítima estudava relações entre gênero e mobilidade

Marina era ativista feminista e de movimentos que defendiam melhores políticas de mobilidade urbana. Levou sua luta também para a vida acadêmica. Formada em Ciências Sociais pela USP, era mestra e doutoranda pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da instituição (FAU-USP), onde atuava como pesquisadora colaboradora do Laboratório Espaço Público e Direito à Cidade (LabCidade).

Em sua pesquisa de doutorado, ela vinha se aprofundando "no debate sobre segregação socioterritorial a partir de abordagens de gênero, raça e sexualidade", de acordo com informações do seu currículo Lattes. Na dissertação de mestrado, defendida em 2018, Marina já havia estudado a relação entre gênero, mobilidade e desigualdade. Ela buscou entender por que o uso de bicicletas entre mulheres era tão baixo nas grandes cidades.

Movimentos cicloativistas realizaram neste domingo, 8, um ato em homenagem à Marina no qual pediram mais segurança no trânsito e justiça para a jovem. O protesto teve concentração na na Praça do Ciclista, próximo à Avenida Paulista, na região central, e seguiu pela Rua da Consolação.

Cerca de cem pessoas, muitos deles de bicicleta, participaram. "Era uma pessoa muito ativa, alegre e cheia de ideias", disse a engenheira agrônoma Cira Malta, amiga da vítima, que conhecia Marina por causa do cicloativismo.

"Ela tinha um trabalho muito bonito, fez mestrado em urbanismo sobre essa questão da mulher na bicicleta, as desigualdades no território e a questão de gênero", acrescentou a amiga, que não vinha se encontrando com Marina nos últimos meses por causa da pandemia, mas mantinha contato pelas redes sociais. De acordo com Cira, haverá um pequeno velório no início da noite, para onde o grupo irá para prestar homenagem.

De acordo com dados do Infosiga, 24 ciclistas já morreram no trânsito da cidade de São Paulo até setembro deste ano, dado mais recente disponível. Em todo o ano de 2019, foram 36 óbitos do mesmo tipo no município. Em todo o Estado de São Paulo, o número de mortes de ciclistas em 2020 chega a 297. 

Amigos lamentam e pedem justiça

Nas redes sociais, amigos da jovem e ativistas demonstraram indignação pela morte. "O motorista que a atropelou segue foragido. Basta de mortes de ciclistas e pedestres no trânsito, isso não é normal!", publicou o movimento Mobilize Brasil no Twitter, com a hashtag #NaoFoiAcidente e convocando para o ato deste domingo.

O cicloativista Daniel Guth, diretor executivo da Aliança Bike, questionou as regras de trânsito adotadas em vias como a avenida em que Marina foi morta e cobrou responsabilização dos gestores municipais. "Passou da hora de incluir prefeitos e secretários como corresponsáveis pelas mortes no trânsito. Talvez desta forma as coisas mudem. Uma via ampla em declive, sem fiscalização e com limite de 50 km/h não é condizente com a vida. E as blitz da lei seca? Viraram lenda urbana", escreveu ele no Twitter.


A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL) lamentou a morte e cobrou justiça. "Muito triste com a notícia do falecimento da querida Marina Harkot. Jovem pesquisadora e ativista em defesa da mobilidade urbana, Marina foi vítima da violência no trânsito. Aos familiares, colegas e amigos, expresso meus sentimentos de profundo pesar. Contem comigo na luta por justiça. Marina presente!", escreveu ela, em sua conta no Facebook.

O consultor em mobilidade urbana e blogueiro do Estadão Alex Gomes descreveu Mariana como "bem humorada, inteligente e sensível", além de "uma das pesquisadoras mais dedicadas" que conheceu. "Lido com a tristeza e a incredulidade em saber que Marina Harkot, que por muitos anos colaborou com o ciclovativismo na cidade e com pesquisas sobre as condições das mulheres no ciclismo, teve sua vida ceifada por um motorista", escreveu ele, em um post no blog São Paulo na bike.

A cicloativista e candidata a vereadora Renata Falzoni exigiu investigação e punição para os responsáveis pelo atropelamento. "Estamos em CHOQUE com a violência do trânsito de SP que fez mais uma vítima: nossa amiga e colega de luta, Marina Harkot. Exigimos apuração plena do ocorrido e justiça! É inacreditável tanta violência. Nenhuma morte no trânsito é aceitável! Luto total. #NaoFoiAcidente", escreveu ela.

 

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