Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

Cia. de Teatro de Heliópolis ganha sede

Grupo festeja 10 anos com espetáculo em velho casarão no Ipiranga, próximo da fave

Valeria França, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2010 | 00h00

O sonho de subir no palco e contar como é a vida dos meninos da maior favela de São Paulo, finalmente, ganhou um porto seguro. A Cia. de Teatro de Heliópolis, formada por jovens da comunidade, completa 10 anos e comemora a data com a abertura da primeira sede própria. Fica em um casarão cedido pela Secretaria Estadual de Cultura no Ipiranga, bairro próximo da favela, também na zona sul. O local parece uma pequena chácara perdida no meio da cidade.

O Ipiranga é conhecido por abrigar o Museu Paulista e vários palacetes de época, alguns tombados pelo patrimônio histórico. O casarão da Rua Silva Bueno, 1.533, hoje a sede da companhia de Heliópolis, estava abandonado havia mais de 20 anos.

Na década de 1950, o prédio foi endereço conhecido de músicos, artistas plásticos e atores. Ali aconteciam encontros, batizados de Sarau dos Gatos, organizados pela proprietária, Maria José de Carvalho, musicista casada com o maestro Diogo Pacheco. Ela tinha vários bichanos espalhados pelo jardim.

Seu piano ainda está no porão - com as teclas de marfim corroídas pelo tempo -, onde realizava as festas culturais. Dela restam ainda quadros e retratos empoeirados. Em uma das fotos, Maria José aparece jovem, no início do século passado.

"Maria José não teve filhos e deixou a casa para o Estado", explica Miguel Rocha, de 32 anos, fundador da Cia. de Teatro de Heliópolis. "A Secretaria de Cultura levou apenas um retrato da musicista, pintado por Di Cavalcanti, que está na Pinacoteca. Deixou os pertences pessoais."

 

Em cena. Atores apresentam a peça 'Eu quero sexo', sobre amor e relacionamento, e que reflete a realidade da favela

Cara nova. Os jovens passaram tinta amarela nas paredes. Reforçaram vigas. E, aos poucos, a casa ganha nova vida. A biblioteca tem até bancadas, que receberão computadores. No imenso quintal arborizado foi instalada a arena com capacidade para uma plateia de cem pessoas. Ainda está tudo muito improvisado. O público tem de se acomodar em cadeiras de plástico. O camarim não tem conforto.

Sob uma cobertura metálica, 13 jovens apresentam até sábado o espetáculo Eu Quero Sexo, com direção de Carlos Lira, dramaturgo de 52 anos. São histórias sobre amor e relacionamento.

"A Cia. foi montada com o objetivo de ser um espaço para reflexão da realidade de Heliópolis. Isso funciona tanto para os atores quanto para a plateia", diz Rocha. "Na peça contamos a história de uma menina que engravida na primeira relação sexual, por exemplo. Colocamos também um caso de amor homossexual. Há muito preconceito na favela, muito mais do que nas classes abastadas", acredita o fundador da companhia.

As tarefas no novo espaço são divididas entre os integrantes do grupo. "Todo mundo trabalha, na faxina, manutenção e reconstrução. É uma espécie de lição de cidadania." Na favela, diz Rocha, é diferente. "Todo mundo vive apertado e não respeita o espaço do outro. Aqui procuramos deixar os maus hábitos do lado de fora."

QUEM FOI:   MARIA JOSÉ DE CARVALHO, MUSICISTA E PROFESSORA DE TEATRO

Professora de dicção, coro falado e interpretação teatral da Escola de Arte Dramática e da Escola de Comunicações e Artes da USP, Maria José de Carvalho foi um ícone da cultura paulistana que juntou a vanguarda da poesia concreta com a de músicos e atores.

Em cartas, transmite a indignação pela falta de preservação do patrimônio público. A musicista morreu em 1995.

SERVIÇO:

CASA DE TEATRO MARIA JOSÉ DE CARVALHO

RUA SILVA BUENO, 1.533, IPIRANGA, TEL.: (11) 2060-0318.

SEXTA E SÁBADO, 21H; DOMINGO, 19H INGRESSO: R$ 5.

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