Leonardo Soares/AE
Leonardo Soares/AE

Chuva no 1º dia de festa assusta Paraitinga

Rio subiu um metro e inundou ruas no dia da abertura do primeiro carnaval após a enchente que destruiu a área histórica da cidade

Paulo Saldaña, O Estado de S.Paulo

05 Março 2011 | 00h00

O telefone do instrutor de rafting José Assis de Campos Elídio, de 26 anos, tocou às 4 horas de ontem. Do outro lado da linha, um agente da Defesa Civil de São Luiz do Paraitinga, no Vale do Paraíba, avisando que o rio que corta a cidade subira mais de um metro. "Disseram para eu ficar de sobreaviso, mas a água não subiu mais", diz ele, um dos esportistas que ajudaram no resgate de vítimas da enchente que destruiu o centro histórico da cidade, na virada de 2010.

Traumatizados com a enxurrada do ano passado, que provocou o cancelamento do carnaval, a festa mais expressiva e lucrativa da cidade, qualquer avanço do rio pelas calçadas de Paraitinga deixa todos em alerta. A água baixou ontem, o primeiro dia de folia em Paraitinga, a primeira oficial depois da enchente. Ontem, quatro blocos já atravessaram a cidade sob garoa. Até terça-feira, serão mais 37.

O susto, porém, não foi pequeno. O rio chegou ao terceiro degrau do Mercado Municipal, um dos prédios históricos atingidos no ano passado. "A gente ficou com um pouco de medo, mas aí começou a baixar", disse Elen Nara de Paula, de 26 anos, dona de um açougue no mercado. Em janeiro de 2010, ela não conseguiu salvar nenhum produto e ainda perdeu a casa, que ficava à beira do rio. Desde o começo do ano, mora em um imóvel de dois quartos, entregue pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU).

A esperança de um renascimento do carnaval é sentida em cada parede de taipa de pilão ainda exposta na praça central. Pelo menos cinco casarões do centro - ou o que restou deles - continuam interditados com tapumes. Um pequeno esqueleto que sobrou da Igreja Matriz ainda repousa sob uma estrutura metálica, à espera da reconstrução.

A um quarteirão do centro, Benito Campos, de 59 anos, poeta, artista plástico e fundador do Bloco do Juca Teles, o mais tradicional da cidade, retoca os bonecões gigantes e suas cartolas. "É duro conviver com a chuva, a gente fica traumatizado. Mas é assim. E é o carnaval que promoveu a minha cidade, ela precisa disso", diz ele, há 30 anos na linha de frente da festa local.

Em um bar instalado em um dos casarões já pintados e vistosos, o alvoroço é grande. "Compramos mais de 24 mil latas e 60 litros de bebida "quente"", diz Charles Ailton dos Santos, um dos gerentes do estabelecimento. A irmã dele, Sthephanie, de 18 anos, vai passar a folia atrás do balcão. "Está tudo certo e esperamos um grande carnaval."

AGENDA

Hoje

10h: Bloco Infantil - "Lendas Brasileiras"

11h50: Manifesto "Grito pela Reconstrução"

12h: Bloco Juca Teles

15h30: Animação com Banda Quar'' de Mata

18h: Bloco da Saúde

19h30: Bloco Bicho de Pé

20h30: Grupo Paranga

22h: Bloco do Etesão

0h: Bloco da Coruja

0h: Banda Estrambelhados

Amanhã

10h: Bloco Infantil - Tema "Pipoquinha"

12h: Bloco Maria Gasolina

14h: Bloco Bebebum

15h30: Concurso de fantasia infantil

16h30: Bloco da Maricota

19h30: Bloco do Saci

20h30: Tânia Moradei e Banda

22h: Bloco Pé na Cova

0h: Bloco do Balacobaco

0h: Baroni e Loukomotiva

Kabereka

PARA LEMBRAR

Profissionais de rafting salvaram pessoas ilhadas

Na virada para 2010, o Rio Paraitinga subiu 15 metros, criando correntezas entres os quarteirões que forçaram os prédios históricos. Mais de 90 casarões tombados foram atingidos, muitos construídos há séculos e com técnicas já abandonadas, como a taipa de pilão. Duas igrejas históricas ruíram com a força da água - a das Mercês, do século 18, e a da Matriz, do século 19.

Cerca de 600 casas foram danificadas. Graças ao trabalho de profissionais do rafting, que passaram a noite do primeiro dia do ano salvando moradores, idosos e doentes ilhados, nenhuma pessoa morreu.

Fundada em 1769, a cidade é conhecida pelas festas populares. Além do carnaval, tem em seu calendário de meio do ano a tradicional Festa do Divino. São Luiz já era tombada pelo Patrimônio Estadual e em março foi tombada pelo Patrimônio Federal, que coordena as obras de restauro.

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