WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Um dos locais mais atingidos é o Morro do Macaco Molhado, onde aconteceram deslizamentos. A prefeitura do Guarujá decretou estado de emergência WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Temporal na Baixada Santista mata 18; chuvas no Sudeste deixam 140 mortos neste verão

Tempestade causa deslizamentos de encostas em Santos, São Vicente e Guarujá. Há ainda na região 30 desaparecidos e 200 desabrigados. SP, RJ, MG e ES registram 70% mais óbitos na estação chuvosa do que em 2019

Redação, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 22h32
Atualizado 04 de março de 2020 | 15h25

SÃO PAULO E GUARUJÁ - Um temporal forte em Santos, Guarujá e São Vicente, no litoral sul paulista, deixou pelo menos 18 mortos entre a segunda-feira, 2, e a terça-feira, 3. Houve vários deslizamentos nos três municípios e, conforme balanço da Defesa Civil do Estado, havia ainda 30 desaparecidos e cerca de 200 desabrigados na noite desta terça. Neste verão, o total de mortes por chuvas no Sudeste – São Paulo, Rio, Minas e Espírito Santo – já chegou a pelo menos 140 – 70% a mais do que no verão passado, quando houve 82 vítimas.

Após eventos extremos – como chuvas de mais de 100 milímetros em um só dia em Belo Horizonte (janeiro) e na capital paulista (fevereiro) –, o total de desabrigados e desalojados no período passa de 87 mil, segundo dados da Defesa Civil compilados pelo Estado

Vítimas

                                     2019  /   2020

  • São Paulo          41     /   42
  • Minas  Gerais   18    /   72
  • Espírito Santo   7    /    15
  • Rio de Janeiro  16  /    11

Bombeiros conduzem buscas no Morro do Macaco Molhado. Veja fotos

A combinação de efeitos de longo prazo das mudanças climáticas, temperaturas mais baixas nos oceanos e falhas urbanísticas nas cidades leva aos desastres, dizem especialistas (mais informações nesta página) “Há um tempo, chuvas de 120 milímetros no mesmo dia eram a cada 50 ou 100 anos. Agora, vemos isso se repetir em poucas semanas”, diz Ivan Carlos Maglio, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP). 

O Núcleo de Gerenciamento de Emergência da Defesa Civil do Estado indicou que a chuva acumulada nos temporais mais recentes no Guarujá foi de 282 milímetros; em Santos, no mesmo período, chegou a 218 mm. A média histórica prevista para a Baixada Santista durante todo o mês de março é de 257,3 milímetros.

Nesta terça, o Guarujá era o local com mais mortos (15) e desaparecidos (19). Um dos locais mais atingidos foi o Morro do Macaco Molhado, onde cinco morreram – incluindo dois bombeiros que tentavam encontrar uma mãe e um bebê após um desabamento, quando a terra deslizou outra vez. 

O ajudante de pedreiro Luciano Oliveira, o Aranha, de 59 anos, dormia em casa, no morro, quando houve o deslizamento, por volta de 1h30. Ele ficou soterrado até o umbigo e teve auxílio de vizinhos e bombeiros. “Achei que iria perder metade do corpo. Me ajudaram a sair pela janela.” No início da tarde, mesmo com a chuva, Oliveira estava nas proximidades da casa, preocupado em conseguir documentos. Já a casa, de madeira, em que vivia há seis anos, desmoronou. “Não tenho lugar para ir. Perdi tudo, estou só com a roupa do corpo.”

Veja fotos da chuva que atingiu São Paulo no dia 10 de fevereiro

Bombeiros estimavam 30 imóveis atingidos no local. “Como algumas (moradias) não estão cadastradas, é difícil fazer estimativa mais próxima da realidade”, disse o secretário adjunto de Defesa Civil do Guarujá, Carlos Eduardo Smicelato. A prefeitura prepara um abrigo com 200 vagas, que pode ser ampliado para até 400. O Estado prometeu aluguel social aos desabrigados e a Defesa Civil se mobiliza para tirar moradores de áreas de risco, pois há perigo de mais desabamentos. 

Em Santos, deslizamentos atingiram os Morros Santa Maria, São Bento, Vila Progresso e Monte Serrat – muitos moradores abandonaram as casas. A prefeitura distribuiu lonas plásticas a moradores e suspendeu parte das aulas, por dificuldades de acesso. Um colégio acolheu desabrigados. 

Houve ao menos quatro quedas de barreira na Rodovia Doutor Manuel Hipólito Rego, em dois pontos da Rio-Santos e mais dois da Guarujá-Bertioga. O VLT da Baixada também amanheceu paralisado, após deslizamento de terra perto do túnel que liga Santos a São Vicente.

Vítimas

No Estado de São Paulo, foram 42 mortes por chuva este verão, número que pode subir diante do total de desaparecidos. No ano anterior, haviam sido 41. Minas é o Estado com mais mortos (72), quatro vezes mais do que no verão anterior. Em Belo Horizonte, temporais em janeiro deixaram 13 mortos e os estragos nas ruas custarão ao menos R$ 300 milhões. 

No Rio, um dia após culpar a população pelos estragos causados pela chuva, o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) disse nesta terça que “talvez tenha” se expressado mal e “até” pediu desculpas. Na segunda, ao visitar Realengo (zona oeste), um dos locais mais prejudicados pelo temporal de sábado, ele havia dito que “a culpa é de grande parte da população, que joga lixo nos rios frequentemente”. Ele ainda admitiu problemas na conservação da cidade e culpou a falta de dinheiro.

Já o governo fluminense promete mapear terrenos disponíveis nos municípios afetados pelas últimas chuvas para construir conjuntos habitacionais destinados à população de baixa renda em áreas de risco. No Estado, o número de óbitos por causa de temporais neste verão chegou a 11, ante 16 na mesma estação do ano passado. 

O governo federal anunciou há um mês R$ 892 milhões para Minas, Rio e Espírito Santo por causa das chuvas. O Ministério do Desenvolvimento Regional disse nesta terça que avaliará a necessidade de liberar verba para a Baixada Santista. A pasta disse ainda que vai priorizar situações mais críticas. "Em especial os pequenos municípios e os que estão em maior dificuldade econômica." Também afirmou que acompanha in loco estragos causados pela chuva na Baixada Santista. O secretário nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec), coronel Alexandre Lucas, está na região. 

O ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, prometeu à deputada federal Rosana Valle (PSB/SP), enviar recursos para ajudar as cidades atingidas pela tragédia das chuvas. Neste primeiro momento, o governo federal ajudará com recursos para obras de limpeza e desobstrução das áreas soterradas, inclusive vias públicas. Na sequência, as prefeituras podem pleitear ajuda para obras de reconstrução das áreas atingidas. Pelo Twitter, o presidente Jair Bolsonaro prestou solidariedade aos parentes das vítimas. 

'Minha filha ficou presa na madeira'

O desempregado Felipe Oliveira, de 22 anos, morava em um barraco destruído pelo temporal no Morro do Macaco Molhado, no Guarujá. Ele se mudou havia três meses, juntamente com a mulher, grávida, e a filha de 4 anos. 

Após o deslizamento, ele deixou a família com a irmã e voltou ao local do desastre. “Consegui pegar só umas roupinhas. Desmoronou, caiu tudo em cima de mim. Minha filha ficou presa debaixo da madeira. Um amigo veio e ajudou. Senão, a gente não iria conseguir sair. Depois fomos à luta ajudar todo mundo.”

O cenário no local, onde cinco morreram, era de destruição nesta terça. Barracos vieram abaixo, móveis e eletrodomésticos ficaram destruídos, além de lama e dificuldade para retirar escombros na busca por sobreviventes. O resgate era feito manualmente, pois não havia como usar máquinas. Há risco de novos deslizamentos. 

Os bombeiros faziam movimentos minuciosos e eram avisados por apitos sobre a possibilidade de algo pior acontecer. No alto do morro, voluntários, enfileirados, ajudavam a tirar a lama. Um balde passava de mão em mão até ser despejado em área isolada. Nas ruas da parte baixa, a população usava enxadas e carrinhos de mão para retirar material avermelhado.

Entre os moradores, o sentimento era de incredulidade. “Tudo tremia na casa”, lembra Bruna da Rocha, de 27 anos, que mora nas proximidades do deslizamento no Morro do Macaco Molhado, no Guarujá, cidade da Baixada Santista mais atingida pelo temporal. “Começou todo mundo a gritar, chorando, pedindo ajuda. Nunca vi algo assim na vida”, diz a dona de casa.

E mesmo quem não vivia no morro correu para ajudar. Luiz Vitor Feitosa era um dos que estavam cobertos de lama. Ele nem morava lá, mas foi logo ao saber do deslizamento, preocupado com parentes. “Acordei com meu pai me chamando para ajudar. Já encontraram um tio e uma tia minha mortos”, contou ele, ainda na expectativa de encontrar outra tia e mais três primos desaparecidos. 

Segundo o Estado, 12,5 toneladas de materiais de ajuda humanitária (colchões, cobertores, cestas básicas, água sanitária e água potável) foram para as cidades afetadas. As redes sociais também tiveram mobilização por doações. O Santos (time de futebol) foi um dos que coletaram donativos. / PRISCILA MENGUE, JOSÉ MARIA TOMAZELA, JOÃO KER, GILBERTO AMENDOLA, MATEUS VARGAS, MARIANNA HOLANDA e LUCAS MELO, ESPECIAL PARA O ESTADO

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Por que chuvas causam tantas tragédias no Sudeste?

Mudanças climáticas, registro de baixas temperaturas no oceano e ocupação não planejada de encostas e áreas de risco agravam problemas

Gilberto Amendola e José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2020 | 22h39

SÃO PAULO - A pergunta é: por que está chovendo tanto no Sudeste? Especialistas ouvidos pelo Estado afirmam que um conjunto de fatores é o responsável pelas chuvas extremas - basicamente o encontro de questões meteorológicas com problemas socioambientais. “Mas nada que já não fosse apontado por relatórios científicos há cinco ou dez anos”, disse André Ferretti, mestre em Ciências Florestais e gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário.

Segundo a meteorologista da Climatempo Josélia Pegorim, este é um verão em que o Oceano Pacífico está apresentando um comportamento neutro. “Não temos El Niño ou La Niña. Então, quando isso acontece, a influência do Oceano Atlântico ganha mais relevância. Como a temperatura ali tem permanecido mais fria (sem muitas alternâncias), criaram-se corredores de umidade que partem de norte para sul. Esses corredores de umidade e mais a passagem de frentes frias formam a engrenagem que tem resultado em fortes chuvas.

De acordo com o pesquisador e meteorologista Giovanni Dolif, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), trata-se ainda de uma combinação de fatores em diferentes escalas de tempo e espaço. “Na atmosfera existe a formação de grandes vórtices, que costumam se formar em períodos mais frios e nas camadas médias da atmosfera. Esse ar frio favorece a subida do ar mais quente e úmido, formando nuvens carregadas e, consequentemente, as chuvas”, disse.

Ferretti disse que o País não se preparou para isso e “está à mercê de temperaturas mais extremas, o que é também um novo padrão”. “A impermeabilização do solo das regiões metropolitanas cria ilhas de calor. Essa massa de calor que interage com a umidade acaba provocando precipitações mais fortes”, explicou. “Nós tiramos das nossas cidades a capacidade de absorção do excedente de água.”

Para a professora Cecília Herzog, pesquisadora da PUC-Rio, a saída é trazer a natureza de volta para as cidades, como “solução”. “Precisamos de um sistema com abertura de córregos - e não canalizações. E, claro, de políticas habitacionais pensadas para a população de baixa renda”, disse. 

Para o pesquisador Ivan Carlos Maglio, do programa Cidades Globais do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), os temporais no Sudeste podem estar relacionados com as mudanças climáticas. “As previsões são muito ruins nesse sentido, pois essas chuvas intensas vão se repetir. Há algum tempo, chuvas de 120 milímetros no mesmo dia aconteciam a cada 50 ou 100 anos. Agora, estamos vendo esse fenômeno se repetir em poucas semanas, como aconteceu este ano em Minas, no Espírito Santo e na Baixada Santista.”

Segundo ele, ex-coordenador de planejamento ambiental da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, as cidades não se prepararam para esses eventos extremos. “Todos sabiam que ia chover muito no litoral, mas não houve planejamento, um alerta para as pessoas em áreas de risco. Como houve ocupação das encostas, e agora fica difícil remover as habitações, é preciso pelo menos ter um plano de contingenciamento, com avisos, sirenes, planos de evacuação e atendimento a possíveis desastres.”

Em grande parte do litoral paulista, por exemplo, Maglio menciona o fenômeno de ocupação desordenada de encostas e áreas de risco e de lugares que não deveriam ter construções. “Do ponto de vista geológico, a gente sabe onde podem acontecer deslizamentos. O problema é tirar as pessoas que estão lá. A saída é elaborar planos de adaptação climática, como está acontecendo em Santos. São projetos que preparam as comunidades para o risco e para minimizar os danos, principalmente perdas de vida.”   

Ele chama o que está acontecendo com o clima de “novo normal”. “A gente sabe que isso vai acontecer de novo. É preciso adaptar inclusive obras de infraestrutura, como ruas, estradas, sistemas de drenagem, a essa nova realidade. Para as comunidades em áreas de risco, é urgente que se façam planos de gerenciamento para evacuação rápida, tendo estruturas de prontidão para remover, socorrer e abrigar. Tem de retirar antes, não esperar a tragédia acontecer.”

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