Felipe Rau/ Estadão
Imagem feita sobre a Ponte Júlio de Mesquita Neto, na zona norte da capital, de um pedestre atravessando a Marginal Pinheiros Felipe Rau/ Estadão

Temporal recorde em São Paulo causa dezenas de alagamentos e fecha marginais

Os 114 milímetros de chuva em 24 horas representam a maior quantidade para o mês de fevereiro desde 1983. Efeitos foram sentidos em toda a capital e na região metropolitana com consequências severas no deslocamento do paulistano

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 06h03
Atualizado 11 de fevereiro de 2020 | 11h16

SÃO PAULO - O temporal que atingiu São Paulo na madrugada desta segunda-feira, 10, somou 114 milímetros, o que, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), representa a maior chuva para o mês de fevereiro em 37 anos - o volume só não é maior do que o registrado em 2 de fevereiro de 1983, quando chegou a 121,8 mm. O acumulado dos dez primeiros dias do mês já equivale a 96% do previsto para todo o mês. Os efeitos foram notados em todas as partes da capital e em cidades da região metropolitana, com deslizamentos e dezenas de alagamentos. Acompanhe a situação em tempo real

Da meia-noite até 16h30, o Corpo de Bombeiros recebeu 7,6 mil chamados e as equipes se deslocaram para atender 932 ocorrências de enchentes, 166 desabamentos e 182 casos relacionados a quedas de árvore. Em Osasco, três pessoas ficaram feridas após um deslizamento atingir a casa onde moravam, o casal e um menino de oito anos foram socorridos para um pronto-socorro em Barueri. 

Os rios Tietê e Pinheiros transbordaram em diversos pontos, o que levou à interrupção do tráfego nas marginais, com consequências severas para o trânsito do centro expandido. Com alagamentos também dentro dos bairros, o deslocamento ao longo do dia ficou impraticável e a Prefeitura orientou as pessoas a não saírem de casa. Consulte aqui os pontos de alagamentos na cidade

Paulistanos ficaram ilhados e a situação fez colégios particulares cancelarem aulas. O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), afirmou que um comitê de crise está trabalhando para diminuir os estragos. "Para se ter noção, em três horas na cidade, em algumas regiões, choveu praticamente metade do esperado para todo mês de fevereiro", disse. "O desastre teria sido muito maior se não tivesse sido o trabalho preventivo que a prefeitura fez ao longo dos últimos meses", acrescentou. 

O temporal ultrapassou o recorde do nível de água do Rio Pinheiros, marcando 719.6mm. Este é o maior valor já registrado desde 2005, quando o rio chegou a 718.9mm, de acordo com a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente. A pasta afirmou que, apenas nesta madrugada, choveu 66% do total esperado para todo o mês de fevereiro. 

 

"Mudança climática não é discurso de ambientalista. Está chovendo nessa década o que não choveu no século passado”, afirma Marcos Penido, secretário de Infraestrutura e Meio Ambiente, ao Estado. De acordo com ele, os mais de 78 pontos de alagamento registrados pelo Centro de Gerenciamento de Emergências Climática (CGE) de manhã aconteceram porque o volume de chuva ultrapassou o que estava previsto na série histórica de cem anos, usada para calcular o sistema de drenagem das chuvas. “Tudo foi implantado com essa lógica.”

 

De acordo com a CPTM, as chuvas provocaram alagamentos na Linha 9 - Esmeralda e os trens deixaram de circular entre as estações Osasco e Santo Amaro. No último balanço divulgado pelo governo do Estado às 19h, a Linha 9 ainda tinha pontos de alagamento e só operava entre as estações Grajaú e Santo Amaro.  A Linha Diamante também operou parcialmente, com interrupção entre Comandante Sampaio e Itapevi, mas às 19h voltou a operar sem restrições. Ainda no início da noite, a Linha 7-Rubi operava com velocidade reduzida e maior tempo de intervalo entre as estações Jaraguá e Vila Aurora.

rodízio de carros foi suspenso para veículos leves e caminhões. No entanto, permanece a restrição para circulação de caminhões e fretados nas zonas em que já são impedidos de circularem. 

Os ônibus da EMTU têm circulação restrita e atrasos ainda às 19h. Há problemas nos municípios de São Paulo, Taboão da Serra, Osasco, Itapevi, Barueri e Santana de Parnaíba. As linhas operam com atrasos de aproximadamente uma hora devido a alagamentos. O Terminal Taboão, em Guarulhos, está alagado e com operação suspensa. São 80 linhas prejudicadas de Guarulhos para o Metrô Armênia e Terminal Tietê e 120 linhas prejudicadas na região de Osasco. 

Em cidades da Grande São Paulo, segundo a Defesa Civil, diversas famílias ficaram desabrigadas e desalojadas. Em Tabõao da Serra, 500 pessoas foram desalojadas por causa da enchente no centro do município. Em Osasco, 81 famílias foram desalojadas e três estão desabrigadas por causa dos deslizamentos que ocorreram na região. Também há desalojados em Pirapora de Bom Jesus - o número não foi informado. 

No interior do Estado, em Botucatu, foi registrada uma morte. Um caminhão caiu em uma cratera que se abriu na rodovia Marechal Rondon (SP-300) e o corpo do motorista foi encontrado às margens de um córrego, em local de difícil acesso. 

Cidade deve esperar mais chuva, aponta meteorologia

Áreas de instabilidade permanecem sobre o Estado de São Paulo e provocam mais chuva, de moderada a forte intensidade, no decorrer desta segunda-feira, 10, e também nos próximos dias. Segundo o Governo do Estado, a forte chuva que caiu em alguns pontos da capital atingiu 100 milímetros em três horas - praticamente a metade da média prevista para todo o mês de fevereiro.

Segundo a meteorologista da Climatempo, Ana Clara Marques, a frente fria que se formou no sul da América do Sul e subiu para costa paulista, segue em direção ao Rio de Janeiro podendo chegar ao Espírito Santo entre terça e quarta-feira, 12. "A chuva pode voltar forte várias vezes ao longo desta segunda-feira e também nesta terça-feira. A partir de quarta-feira diminui a intensidade mas ainda tem previsão de chuva forte para São Paulo", disse Ana Clara. 

Medidas indicadas pelo CGE para amenizar os efeitos dos alagamentos

  • Evite transitar em ruas alagadas;
  • Se a chuva causou inundações, não se aventure a enfrentar correntezas;
  • Fique em lugar seguro. Se precisar, peça ajuda;
  • Mantenha-se longe da rede elétrica e não pare debaixo de árvores. Abrigue-se em casas e prédios;
  • Planeje suas viagens, para que haja menor possibilidade de enfrentar engarrafamentos causados por ruas bloqueadas;
  • Em caso de dúvida sobre vias bloqueadas, ligue para a central de atendimento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) através do número 156 ou entre no site da CET para saber como está o trânsito nas principais vias.

/JOÃO KER, ANA PAULA NIEDERAUER, ISABELA PALHARES, GIOVANA GIRARDI, MARCO ANTÔNIO CARVALHO, GILBERTO AMENDOLA, PAULA FELIX, PALOMA COTES, RENATA OKUMURA, DANIEL SILVEIRA

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'Chuva de hoje deveria ser como incêndios nos edifícios Joelma e Andraus para São Paulo'

Especialistas indicam políticas públicas e série de erros que levaram à destruição provocada pelo temporal desta segunda, 10

Isabela Palhares, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 14h18

Para engenheiros especialistas em mobilidade e urbanismo, o temporal desta segunda-feira, 10, e as consequências que ele trouxe para a cidade de São Paulo devem servir como alerta para alterações na legislação do município, priorização de obras e mudança de cultura da população. Eles explicam que o caos enfrentado na capital paulista é resultado de uma série de erros.

"Nós estamos matando a cidade com essa verticalização absurda, com obras que só pensam no visual, com o lixo sendo descartado de forma errada. Essa chuva de hoje deveria ser tratada como os incêndios nos edifícios Joelma e Andraus foram para São Paulo, como um evento que serve como lição para mudarmos tudo o que está sendo feito", diz Horácio Figueira, engenheiro especialista em trânsito. 

Ele explica que nos últimos anos a cidade eliminou praticamente todas as áreas permeáveis, canalizou rios, sem que as obras levassem em consideração para onde as águas da chuva vão escoar. "A cidade foi sufocada, onde se olha está tudo alagado", diz. Para ele, é preciso que o poder público faça urgentemente uma série de obras, desde o desassoreamento de rios e córregos até a construção de galerias pluviais em todos os bairros.

"O Tucuruvi que é um bairro antigo não tem até hoje galeria pluvial nas suas principais vias. Isso é negligência, irresponsabilidade  do poder publico. A avenida Tucuruvi não tem essas galerias e a água escorre pelas ruas e vielas paralelas, formando rios que alagam as casas", diz o especialista.

Sérgio Ejzenberg, consultor de trânsito, diz que os alagamentos nas marginais Tietê e Pinheiros também são consequências já esperadas, uma vez que os rios estão sem obras necessárias para o seu desassoreamento. "Estão fazendo uma licitação bilionária para essas obras, mas elas deveriam ter ocorrido muito antes. A situação de hoje deixa isso evidente". Ele se refere às obras de R$ 2,5 bilhões anunciadas no ano passado pelo governador João Doria (PSDB).

Incentivos. Além das obras públicas, como piscinões, desassoreamento dos rios, os especialistas também defendem que o poder público deve mudar a legislação para exigir que construçoes privadas tenham áreas permeáveis ou criar incentivos para que imóveis já construídos invistam em obras desse tipo. 

"A prefeitura poderia, por exemplo, dar desconto no IPTU para quem trocar a área cimentada do quintal de casa por uma área verde e piso permeável, ou para prédios que tenham reservatório para chuva. São ações que não resolvem o problema, mas o minimizam e que, em conjunto com outras intervenções, podem mudar esse quadro que vivemos hoje", diz Figueira.

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Análise: Culpamos a chuva pelos problemas que os humanos criaram

Precisamos definir outras saídas e rever o modelo de cidade de uma forma mais profunda

José Bueno, especial para o Estado*, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 16h03

Quando retificaram os Rios Pinheiros e Tietê décadas atrás, se pensava que aquela água de São Paulo tinha ido embora, que não iria mais ter cheia ou transbordamento. Assim como foi com a canalização dos córregos do Leitão e do Arruda em Belo Horizonte, na década de 1960, apresentada como solução para “domar” as águas e a cidade poder crescer sem perturbação. A cidade e a sociedade da época aplaudiram, as pessoas quiseram isso. Mas a solução prometida não se cumpriu, ela é o problema de hoje.

Não é uma exclusividade de Belo Horizonte ou de São Paulo, isso vai acontecer em qualquer outro lugar se seguir esse modelo, de canalização dos cursos d’água, de impermeabilização, de enterrar cada vez mais os rios. Se fala em rio no passado em São Paulo, que a cidade tinha rios, mas eles ainda estão aqui.

Convido o leitor a ir até a janela e ver: o que tem de solo permeável? A gente aceitou o conforto, a limpeza, a ausência de barro. A solução é complexa porque é uma metrópole enorme, mas precisamos cobrar soluções mais inteligentes. Estamos culpando a chuva, que é a resposta mais bizarra: atribuir à chuva os problemas que os humanos criaram. Estamos lidando com as consequências do que a gente escolheu, precisamos repensar as nossas escolhas. Somos sapos dentro de uma panela que está esquentando.

A gente precisa definir outras saídas. É esperada essa resposta dos órgãos públicos: de que a culpa é das mudanças climáticas, do volume de chuva, dos bueiros entupidos. Achar que obras de engenharia vão resolver é reproduzir a lógica da memória velha. A gente não pode acreditar que a solução será a prefeitura enterrar mais fundo os rios, criar mais piscinões. Não caiam nessa cilada, é uma resposta fácil para um problema maior.

Precisamos rever o modelo de cidade  de uma forma mais profunda. A chuva levanta um grande espelho para a gente poder se ver melhor, perceber que tomamos decisões erradas, que impactam do cara da periferia que vive em área de manancial até o rico do condomínio que não consegue tirar o carro da garagem.

O Joaquin Phoenix falou ontem, no Oscar, que estamos nos desconectando com a natureza. Precisamos incluir a natureza como elemento da cidade, não como algo a ser controlado, soterrado, enterrado, como é a lógica em São Paulo. Quando vamos recuperar os rios soterrados, ter jardins de chuva (jardins rebaixados que captam a água da chuva), calçadas menos impermeabilizadas?

É como uma pessoa que tem um infarto e começa a pensar em mudar os hábitos alimentares, a fazer esporte, a trabalhar menos. O brasileiro gosta de pensar e mudar em um momento extremo de crise, e a gente está nesse extremo. Os órgãos públicos precisam ser humildes e escutarem soluções que não estão dentro dos governos, trazer especialistas que estão lidando com redesenho da cidade, falar com biólogos, permacultores, técnicos especializados.

Precisamos analisar caso a caso, grande obras não são a solução. Dá para abrir um rio, dá. Mas, quando abrir, vai estar limpo? E os pequenos rios que jogam águas nele? Por que não tratar pequenos trechos, explorar tecnologias e fazer planejamento em pequenas áreas? Deu certo? Vamos fazer de novo. O que não pode é deixar a chuva passar, recuperar os prejuízos do que for estragado e voltar à vida normal, sem tomar novas soluções.

*Urbanista, arquiteto social e cocriador do projeto Rios e Ruas

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Em vídeo, Covas afirma que comitê de crise está trabalhando para diminuir estragos na cidade de SP

Prefeito disse que a equipe está controlando e monitorando a situação em hospitais, escolas e trânsito para que 'a cidade possa voltar a trabalhar o mais rápido possível' 

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 16h23

Em um vídeo divulgado há pouco, o prefeito Bruno Covas (PSDB), junto com secretários, afirmou que o comitê de crise está trabalhando para diminuir os estragos. "Para se ter noção, em três horas na cidade, em algumas regiões, choveu praticamente metade do esperado para todo mês de fevereiro", disse. "O desastre teria sido muito maior se não tivesse sido o trabalho preventivo que a prefeitura fez ao longo dos últimos meses", disse Covas. 

Ao lado de diversos secretários, o prefeito disse que a gestão municipal "limpou vários córregos da cidade, limpamos todos os piscinões, aliás, nenhum piscinão transbordou na cidade". 

Covas, no entanto, destacou que "os rios para onde vão essas águas não aguentaram essa quantidade imensa de água que choveu nas últimas horas".  Disse que o gabinete de crise está controlando e monitorando a situação em hospitais, escolas e trânsito para que "a cidade possa voltar a trabalhar o mais rápido possível". 

Destacou que tem mais equipes de limpeza nas ruas e também mais equipes da CET. Reforçou que o rodízio está suspenso. E que a atenção especial agora é com deslizamentos e desabamentos. "Graças a Deus, até agora, nenhuma vítima fatal na cidade de São Paulo, por conta do trabalho preventivo que foi feito", afirmou o prefeito.

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Chuvas extremas em SP serão cada vez mais comuns, diz cientista

Pesquisador pondera, no entanto, que a falta de planejamento urbano e aumento de pessoas em situação de risco são fator principal do desastre

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2020 | 15h07

SÃO PAULO - As intensas chuvas que atingiram a Região Metropolitana de São Paulo na madrugada e na manhã desta segunda-feira, 10, são exemplo de um fenômeno que tem se tornado cada vez mais comum na região, causado em parte pelas mudanças climáticas e pelo processo de urbanização desorganizada da cidade.

Uma revisão dos registros de chuvas ao longo das últimas sete décadas aponta que houve um aumento significativo no volume total de precipitação nas temporadas de chuva ao longo do período. Enquanto na década de 1950 praticamente não havia dias com chuvas fortes – expressão usada para designar precipitações com mais de 50 mm –, hoje elas têm ocorrido de duas a cinco vezes por ano nos últimos dez anos.

É o que mostra um trabalho recém-publicado por vários pesquisadores brasileiros liderados pelo climatologista José Marengo, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). “Os eventos extremos estão cada vez mais frequentes, ao mesmo tempo em que a vulnerabilidade da população também. Por isso desastres como enchentes, enxurradas e deslizamentos de terra afetam cada vez mais pessoas”, disse Marengo ao Estado.

Nesta segunda, ao falar sobre como o governo está lidando com o problema, tanto o governador João Doria (PSDB) quanto o secretário estadual de Infraestrutura e Meio Ambiente, Marcos Penido, argumentaram que as chuvas têm aumentado por causa das mudanças climáticas. Doria chegou a afirmar que “evitar por completo” os estragos com investimentos em infraestrutura não será possível em razão disso.

“Evitar por completo não será, evidentemente, algo possível, já que a incidência de chuvas ao longo dos anos, a mudança climática, está impondo um volume de chuvas maior”, disse Doria, logo após um evento de inauguração de um escritório da agência de investimentos estadual, a Investe SP, em Dubai. 

“Mudança climática não é discurso de ambientalista. Está chovendo nessa década o que não choveu no século passado”, disse Penido. Segundo a pasta, apenas nesta madrugada, choveu 66% do total esperado para todo o mês de fevereiro. De acordo com Penido, os mais de 78 pontos de alagamento registrado pelo Centro de Gerenciamento de Emergências Climática (CGE) aconteceram porque o volume de chuva ultrapassou o que estava previsto na série histórica de 100 anos, usada para calcular o sistema de drenagem das chuvas. “Tudo foi implantado com essa lógica.” 

De fato, análises feitas sobre as séries históricas de registro de chuva feitas pelo Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), no Mirante de Santana, apontam que, entre os meses do verão, houve um aumento neste século da incidência de dias com fortes chuvas e na frequência de eventos extremos de chuva na Região Metropolitana de São Paulo.

“O número de dias secos consecutivos também aumentou gradualmente, sugerindo que os eventos de chuva intensa concentram-se em menos dias, com longos períodos mais secos entre eles. Com menos noites frias e mais dias quentes, aumentam as chances de ocorrência de chuvas convectivas, trazendo aumento da frequência e intensidade de chuvas extremas, que podem causar desastres naturais, inundações e deslizamentos de terra, afetando pessoas vulneráveis em regiões expostas”, escrevem os autores em artigo nos Anais da Academia de Ciências de Nova York.

Marengo afirma que as mudanças climáticas podem ter relação com esse aumento de frequência, mas também com o processo de urbanização. “É uma tendência que se observa em todo mundo de que os extremos de chuva estão aumentando. A chuva está caindo de forma mais violenta. Isso pode estar ligado ao clima, mas também pode ser atribuído à cidade. Em São Paulo, onde antes era a Mata Atlântica, hoje é uma cidade. O ambiente mudou. Isso cria um microclima que de certa forma ajuda a chuva a ficar mais violenta”, explica.

Ele pondera também que atribuir o problema somente às mudanças climáticas é esquecer que a forma como as cidades estão construídas, com córregos subdimensionados, vias impermeabilizadas e ocupações irregulares, trazem um ingrediente fundamental para o desastre. “O que ocorre não é só a chuva forte, mas uma combinação com populações morando em área de risco. As pessoas não morrem pela chuva, mas pela enxurrada, pelo deslizamento de terra, que são amplificados por essas condições”, diz. 

“Não é segredo que as chuvas estão aumentando, mas as cidades continuam não preparadas. Não é a primeira vez que acontece isso e não será a última. Pelo contrário, esse tipo de evento como o de hoje tende a ficar cada vez mais frequente.”

Os autores ressaltam que as mudanças climáticas vão ampliar os riscos sociais e ambientais existentes e criar novos riscos para as cidades. “Compreender e antecipar essas mudanças ajudará as cidades a se prepararem para um futuro mais sustentável. Isso significa tornar as cidades mais resistentes a desastres relacionados ao clima e gerenciar riscos climáticos de longo prazo de maneira a proteger as pessoas e incentivar a prosperidade”, escrevem.

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