Choque de ônibus e trem mata 9 pessoas

Motorista do coletivo, indiciado por homicídio e lesão corporal não intencionais, foi atingido pela composição quando cruzava os trilhos

Runo Lupion, Luiz Guilherme Gerbelli e Tiago Dantas, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2010 | 00h00

Nove pessoas morreram e 19 ficaram feridas em um acidente entre um ônibus de linha e um trem de carga, no fim da noite de anteontem, em Americana, interior de São Paulo. Atingido pela composição em uma passagem de nível, o coletivo foi arrastado por cerca de 100 metros e acabou prensado em outro trem. O motorista do ônibus foi indiciado por homicídio e lesão corporal culposos (sem intenção).

Segundo testemunhas, por volta das 23h20, o motorista do ônibus tentou cruzar os trilhos logo atrás de um carro e o coletivo foi atingido. Havia um segundo trem parado em outra linha férrea e parte do ônibus acabou esmagada entre as duas composições. O coletivo pertencia à Viação VCA e fazia a última viagem do dia da linha Mathiense - Antonio Zanaga. Já o trem de carga, da companhia América Latina Logística (ALL), tem quatro locomotivas e 77 vagões, cada um pesando 100 toneladas, e levava milho, soja e açúcar para o Porto de Santos, no litoral.

Os alertas de segurança na passagem de nível são feitos por um vigia que fica em uma guarita. Quando um trem está a cerca de 800 metros do local, o maquinista avisa por rádio o vigilante, que começa a fazer a sinalização sonora e visual para carros e pedestres. Além disso, a composição também vem apitando.

De acordo com o vigia, todos os sistemas de alerta foram acionados. "O maquinista me avisou. Liguei o alerta sonoro e luminoso. Depois, quando estava a cerca de 200 metros da passagem, o maquinista acionou o apito do trem", disse o funcionário, sem se identificar. "Ainda fiz sinal com o braço para o motorista do ônibus parar, mas acho que ele pensou que o trem que estava fazendo barulho era um que estava parado no sentido contrário."

O motorista do ônibus, Alonso de Carvalho, de 51 anos, afirmou a familiares que a sirene tocou quando o coletivo já estava no meio da travessia. Segundo ele, não havia ninguém na guarita. Com fraturas no pé esquerdo e em uma costela, Carvalho entrou em estado de choque após a batida e está internado no Hospital Municipal. "Várias vezes, ele gritou: "Tira aquele monstro (o trem) de cima de mim"", disse a dona de casa Jackeline Fernandes, de 22, enteada de Alonso.

Logo após o estrondo da batida, vizinhos da linha férrea começaram a ajudar os bombeiros no resgate das vítimas. "Ajudei a cortar a grade e começamos a retirar os passageiros", afirmou Itamar Pernomiani, de 30 anos. Eles reclamaram da retirada de uma cancela que funcionava no cruzamento há pelo menos cinco anos. A ALL afirmou que a sinalização é responsabilidade da prefeitura. A administração municipal informou que o Código de Trânsito não obriga a instalação da cancela (leia acima). Os moradores também disseram que o tráfego na linha férrea tem aumentado nos últimos anos.

Mortos. A prefeitura de Americana decretou luto oficial de três dias. Os mortos tinham idade entre 37 e 76 anos. Ontem, o velório do casal Osvaldo, de 75 anos, e Ailena Wolff, de 76, foi marcado pela comoção. "Ele criava passarinhos e era muito popular", disse o aposentado Sílvio Simonetti. O casal voltava da vizinha Cafelândia, onde Ailena fez um teste com aparelhos auditivos.

CRONOLOGIA

Último acidente foi em agosto

Fevereiro de 1995

Rio Claro (SP)

Ao atravessar uma passagem de nível clandestina, um ônibus foi atingido por um trem de passageiros. Uma pessoa morreu e 16 ficaram feridas.

Setembro de 1997

Rio

A colisão entre um trem de carga e um ônibus matou uma mulher de 75 anos. O motorista achou que daria tempo de atravessar a linha férrea, sem cancela. A batida derrubou um poste de luz sobre uma pedestre, que morreu esmagada.

Novembro de 2000

Barueri (SP)

Um trem arrastou um ônibus fretado cheio de funcionários de um banco por quase dez metros, na passagem de nível da Estação Antonio João. Grávida de gêmeos, a analista de sistemas Janaína Andréia Viana Rodrigues, de 25 anos, morreu.

Março de 2002

Espinosa (MG)

Um trem de carga bateu em um ônibus na Rodovia BR-122. Seis pessoas morreram e outras 40 ficaram feridas no acidente. O ônibus pegou fogo e três vítimas morreram carbonizadas.

Março de 2006

Sobral (CE)

Oito pessoas morreram e 32 ficaram feridas numa colisão entre um trem com carga de cimento e um ônibus escolar. O acidente foi em uma passagem de nível. O ônibus foi arrastado pelo trem e virou, prendendo passageiros nas ferragens.

Agosto de 2010

Nova Iguaçu (RJ)

Um ônibus foi atingido por um trem de carga e capotou. O acidente deixou 18 feridos.

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