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Chipanzés podem jogar futebol?

A habilidade individual de cada jogador e a cooperação entre jogadores são as razões que me levam a apreciar o futebol.

Fernando Reinach, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2014 | 02h05

A primeira é o resultado da interação entre a capacidade preditiva do córtex cerebral de cada indivíduo e seu sofisticado, e bem treinado, sistema locomotor. Usando os sinais vindos do sistema visual, o cérebro de um atacante prevê onde um passe longo vai aterrissar, se dirige para o local, mata a bola no peito e chuta, com precisão, no canto do gol.

A segunda é ainda mais impressionante. Enquanto a habilidade individual é um feito de partes de um único indivíduo, que se comunicam entre si através do sistema nervoso, a cooperação envolve indivíduos cujos sistemas nervosos não possuem conexões diretas. Os indivíduos são capazes de agir em conjunto ligados somente pelo conhecimento que possuem do comportamento dos outros, e das informações visuais e auditivas que seus cérebros recebem durante o jogo. Um passe de calcanhar direciona a bola para o local em que o parceiro estará no próximo segundo. E o parceiro estará lá porque imagina que o passe pode vir, seu cérebro sabe como funciona o cérebro do colega de time. Cabe ao goleiro imaginar qual vai chutar no gol.

Se existe um ser vivo capaz de chegar perto desse nível de cooperação, ele se chama chipanzé. Na reserva de Kibale, em Uganda, pesquisadores observam regularmente grupos de chipanzés colaborando com o objetivo de cercar e matar suas prezas. A eficiência da atividade em grupo aumenta com o tamanho do grupo até que ele atinja o número de 6 indivíduos. Atividades coordenadas que envolvem mais de 6 seres humanos, como exércitos ou fábricas, só são possíveis com sistemas sofisticados de comando e controle.

Veja agora a atividade cooperativa mais sofisticada que os cientistas conseguiram convencer um grupo de chipanzés a se engajar. Um grupo de 11 chipanzés que viviam juntos por mais de 30 anos em um área cercada de 711 metros quadrados foram desafiados com um jogo que envolve a cooperação entre 2 ou 3 indivíduos. O objetivo é conquistar um dos seguintes prêmios para cada participante: uma uva, duas passas, uma rodela de banana ou um pedaço de batata doce. Como os animais tinham alimentos abundantes todo o tempo, o "prêmio" era simbólico. Uma primeira versão do jogo envolvia dois jogadores. Um precisava puxar uma alavanca que liberava uma barreira enquanto o outro precisava puxar outra alavanca que liberava os prêmios. Em caso de sucesso, ambos recebiam frutas. Na versão mais complexa era necessário o esforço conjunto de 3 animais. Era necessário que 3 alavancas fossem acionadas, por três animais distintos, para marcar o gol. As alavancas estavam distantes o suficiente para que um animal não conseguisse acionar duas alavancas. Para ter sucesso, ele precisava se aproximar de uma alavanca e "convencer" os outros a ajudarem. O jogo foi apresentado em uma das cercas do campo por 1 hora, 3 vezes por semana, entre maio de 2011 e fevereiro de 2012. Os animais não eram coagidos de nenhuma forma a participar. As partidas foram filmadas.

Um total de 3.565 gols (liberação de furtas) foram analisados. Dez dos 11 animais se envolveram no jogo. Um nunca se interessou. Dos 10 que se envolveram, 1 se destacou. Katie estava presente em quase 2.500 dos gols. Outros quatro participaram de aproximadamente 1.000 gols cada. O pior atacante foi Rita que participou em somente 80 gols. Como a relação de dominância na colônia de chipanzés era bem conhecida, analisando os times os pesquisadores descobriram que os times vencedores eram aqueles em que os animais tinham o mesmo status no grupo. Em outras palavras, um chipanzé tinha dificuldade em atrair seu superior ou seu subordinado para colaborar. Os times de iguais eram claramente a maioria.

A eficiência dos times também melhorou ao longo do tempo. Se no início os times precisavam em média de três tentativas para conseguir coordenar suas ações, no final este número foi reduzido pela metade, 1,5 puxada de alavanca. Nos primeiros jogos o primeiro animal que chegava à alavanca ficava puxando repetidamente até a chegada dos outros, mas ao longo do tempo eles aprenderam que era melhor começar a puxar a alavanca somente quando todos estivessem presentes.

Estes resultados mostram que chipanzés se engajam em atividades colaborativas para obter um prêmio. Mas veja quão simples tem de ser a atividade para que os chipanzés consigam cooperar e se divertir. Muito, muito longe da complexidade de um jogo de futebol. Dificilmente você verá um chipanzé jogando futebol. É pena que os cientistas não relatem o que faziam os outros 7 chipanzés enquanto 3 deles estavam jogando. Será que torciam?

Fernando Reinach é biólogo

MAIS INFORMAÇÕES: APE DUOS AND TRIOS: SPONTANEOUS COOPERATION WITH FREE PARTNER CHOICE IN CHIPANZÉS. PEER J. VOL.2 PAG. E417 2014

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