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Cheiro de presidente no ar

Já escolheu seu candidato a presidente da República? Está em dúvida? Que tal dar uma "cheirada" nas pessoas que você acha bonitas e perguntar em quem elas vão votar? Não entendeu a ligação? Pois é, um novo trabalho divulgado na semana passada sugere que quem tem posições políticas similares às nossas nos atrai muito mais.

Jairo Bouer, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2014 | 02h00

Pesquisa realizada pela prestigiada Brown University, nos Estados Unidos, publicada no American Journal of Political Science e divulgada pelo site Huffington Post, mostra que as pessoas sentem maior atração pelos odores corporais de quem tem a mesma ideologia política e há uma espécie de repulsão pelo cheiro de quem escolhe outro partido.

Segundo os pesquisadores, não daria para adivinhar quem as pessoas vão escolher para presidente só pelo seu cheiro, mas haveria, sim, uma maior atração e afinidade por quem vota de maneira semelhante. A causa deve passar por algum registro inconsciente e subliminar como a ação dos feromônios - substâncias químicas eliminadas pelos nossos odores que provocam reações instintivas, como a atração sexual.

Parcerias sexuais e afetivas tenderiam a ser estabelecidas com pessoas que pensam de forma política semelhante quase no mesmo nível de importância que a religião tem para a vida dos casais, superando uma grande gama de outras formas de afinidade.

No experimento, as pessoas cheiravam amostras de odores corporais de outras que tinham posições políticas opostas, similares ou neutras, sem saber de quem se tratava. Os cheiros, então, ganhavam notas de 1 a 5 em uma escala que vai do repulsivo ao extremamente agradável. Ao comparar resultados, houve uma correlação clara entre posição política e atração.

Apesar do resultado, os pesquisadores deixam claro que o complexo processo de escolha dos parceiros vai muito além do desejo "invisível" pelas afinidades políticas. Há escolhas racionais e conscientes, que podem deixar de lado ou relativizar essa atração.

Outros cheiros. A questão da orientação política parece não ser a única informação que as pessoas conseguem "decifrar" de forma inconsciente pelos cheiros. A reportagem traz também trabalhos anteriores que mostram que, ao buscar, de forma racional, certa compatibilidade social, os odores trariam informações valiosas sobre diferenças genéticas, que seriam importantes para gerar diversidade e garantir uma maior chance de sobrevivência para os descendentes. A pesquisa original foi desenvolvida pela Universidade do Paraná há alguns anos.

Em 2012, um estudo da Universidade da Califórnia (UCLA) revelou que os homens ficavam mais atraídos pelos odores femininos no período da ovulação. Outro curioso trabalho mostrou que as mulheres tendem a atribuir notas maiores à beleza e ao poder de atração de fotos de homens quando, sem elas saberem, feromônios presentes no suor masculino são introduzidos pelo sistema de ar condicionado.

Até "festas de feromônios" andaram na moda, recentemente, nos Estados Unidos. As pessoas dormem com camisetas por três noites seguidas, guardam as peças em sacos plásticos fechados e as levam para a balada. Na entrada, uma pilha de saquinhos numerados com a "roupa suja" (azuis para meninos e rosa para as meninas) convida os interessados a acharem um odor que causa atração. Aí é só identificar o dono ou dona e bingo! Casal formado!

Eleições 2014. Será que no Brasil a pesquisa dos odores políticos seria validada? Nos Estados Unidos, com uma divisão histórica muito mais clara entre conservadores e liberais, talvez o trabalho faça mais sentido. Aqui, com a profusão de partidos, mudanças de sigla, coligações e grupos com posições semelhantes tentando se perpetuar no poder, tenho a impressão de que o nariz teria de ser quase biônico para identificar quem tem postura política clara e definida. Com tanto cheiro ruim de coisa errada na política, esse nariz teria de ser mesmo campeão!

*Jairo Bouer é psiquiatra 

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