Cheiro de batata-doce

Qual é o doce mais doce que o doce de batata-doce? Até hoje, não sei, pois a criançada do meu tempo preferia comer o doce e a batata-doce antes de pensar no assunto. Depois da comilança, a pergunta já havia sido esquecida. Mas que eram doces a batata e o doce, isso eram.

José de Souza Martins, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2011 | 00h00

Quando menino, minha mãe achou num jornal o anúncio de curso de inglês e de taquigrafia que uma senhora alemã, dona Paulina, dava em antigo e belo palacete na esquina da Rua Helvetia com a Rua Guaianases. E nele matriculou-me. Na Praça Princesa Isabel, ainda com os plátanos antigos, havia um tapume por cujas frestas eu espreitava o cavalo e o Duque de Caxias, de Brecheret, ainda desmontados, descansando.

Faltava muito para que o cavalo imponente se erguesse sobre as patas para levar o Duque, de espada desembainhada e bigode aparado, para as alturas do pedestal, onde pudesse ser visto por todos. General que, aliás, não deixou em São Paulo boas lembranças. Foi ele quem comandou um ataque do Exército às tropas rebeladas do futuro Brigadeiro Tobias e do Padre Feijó na Revolução Liberal do frio mês julho de 1842.

Foi ao pé do morro do Butantã, no que é hoje a entrada da Cidade Universitária. Deixou por ali seis ou sete mortos, segundo o historiador paulista mais eruditamente caipira e mais versado em nossa cultura popular, o Cônego Castanho, de Sorocaba, terra do levante. Fez estragos, ainda, no que é hoje Osasco.

Minhas aulas eram sempre no começo da noite, hora em que se espalhava por ali o aroma delicioso que vinha das cozinhas das casas das redondezas do Palácio dos Campos Elísios.

Eu chegava à Luz de trem, vindo de São Caetano, e só jantaria quando voltasse para casa, tarde para os horários de minha fome, o que refinava meu olfato. Melhor ainda era o aroma das batatas-doces assadas na hora nuns fogareiros improvisados em grandes latas. Eram vendidas nas carrocinhas de tabuleiro ao longo da Avenida Duque de Caxias. Cópia de costume antigo que ainda há em Portugal, na Espanha, na Itália, de vender castanhas assadas nas ruas e praças.

Como a castanha aqui era luxo reservado aos dias de Natal, a batata-doce veio fazer-lhe a vez, com vantagem, especialmente nos dias frios de junho e julho. Ao fundo, o som dodecafônico das conversas e dos murmúrios interrompidos pelo barulho dos bondes que passavam.

Mas tudo tem seu tempo e hora. Na civilizada Europa ainda se vende castanha assada em praças e esquinas, como as que comi na Piazza Navona, em Roma, ou no Chiado, em Lisboa.

Aqui, já faz tempo que não sinto o cheiro da batata-doce nas ruas de São Paulo. Provavelmente banida por normas e regulamentos que não se pode comer nem cheirar. Zelo pela higiene e pela saúde pública e desleixo e desprezo pela história, pelos costumes tradicionais do povo e pela memória coletiva.

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