Epitácio Pessoa/AE
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'Chegava a passar 48 horas dentro de um bingo', diz ex-jogador compulsivo

Há mais de oito anos afastado das apostas, L.C conta sua trajetória nos jogos de azar

Gabriel Vituri, Estadão.com.br

14 Dezembro 2010 | 22h47

SÃO PAULO - "Desde garoto, sempre achei que tinha compulsão por jogo, fosse baralho, dominó ou bingo. Mas jamais imaginei que isso pudesse se tornar incontrolável", diz L.C., de 56 anos, ferroviário aposentado e ex-jogador compulsivo.

 

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Há mais de 8 anos, L. evita a primeira aposta do dia. É assim que os Jogadores Anônimos (J.A) fazem para se manter longe das casas de bingo - hoje clandestinas - e de outras mesas onde altas apostas são feitas. Para a entidade, a compulsão pelos jogos de azar é tratada como uma doença incurável, que deve ser trabalhada todos os dias. "O que aconteceu ontem não tem como mudar, e o amanhã ainda está por vir. Pensamos sempre no dia de hoje", explica o ferroviário.

 

L. não sabe dizer exatamente quando a doença começou, mas diz que foi entre 2000 e 2001 que se rendeu à tentação do jogo. Ele conta que para "passar o tempo" entre uma tarefa e outra, resolveu entrar em um bingo qualquer no centro da capital paulista. Começou a jogar às 14h e só foi embora do estabelecimento à meia-noite. Perdeu o compromisso agendado. No dia seguinte, retornou ao local.

 

Aos poucos, a rotina do jogo se tornou mais intensa. Antes e depois do trabalho, L. fazia questão de passar algumas horas em casas de bingo. "Como no meu emprego eu tinha horários irregulares e viajava bastante, era fácil justificar a ausência para minha mulher", explica. No ápice de sua compulsão, L. permanecia por até 48 horas dentro de um único bingo, "sem saber se era dia ou noite, se chovia ou fazia sol."

 

Prejuízo. Com as apostas - e perdas - cada vez mais frequentes, L. começou a sentir o peso dos problemas financeiros. "Eu gastava tudo o que tinha". Para continuar jogando, L. diz que adquiriu cinco novos cartões de crédito, "pelo conforto na hora do jogo", e fez empréstimos em várias instituições financeiras. Além disso, resgatou todo o dinheiro de sua previdência privada e da poupança para gastar nos bingos.

 

Ao perceber que estava afundado em dívidas, L. tomou uma atitude drástica para resolver o rombo na conta bancária: vendeu o carro que tinha na tentativa de quitar as dívidas e abandonar a jogatina. "Acabei com a mesma dívida, sem dinheiro e sem o carro", lembra.

 

Recuperação. Com tantas movimentações financeiras, chegou um momento em que não havia mais pra onde correr. L. sentiu necessidade de compartilhar o problema com a esposa e a filha e disse que não conseguia mais parar de jogar.

 

Junto com a família, resolveu procurar ajuda. No entanto, mesmo com o apoio de um psicólogo, o problema persistia. Nesse momento, descobriu a Irmandade de Jogadores Anônimos (J.A.). "Encontrei várias pessoas com os mesmos problemas que eu, tentando se recuperar da doença". Depois de muita insistência, L. continua na entidade e hoje se diz "livre do inferno do jogo."

 

Algumas dívidas antigas, segundo ele, puderam ser negociadas. Outras, pela alta taxa de juros, se tornaram impagáveis em curto prazo e estão sendo quitadas de pouco em pouco.

 

L. diz que não é tarefa dos jogadores opinar sobre a proibição dos bingos e ressalta que a associação não se posiciona com relação ao assunto, porém, reforça o papel do J.A., de "evitar a primeira aposta só por hoje".

 

Quem são? A Irmandade de Jogadores Anônimos foi fundada por dois homens em Los Angeles, nos Estados Unidos, em 1957. Atualmente, conta com unidades em diversos países, inclusive no Brasil, onde está há 17 anos. Para saber mais, acesse o site (www.jogadoresanonimos.com) ou entre em contato pelo telefone (11) 3229-1023.

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