Hélvio Romero/AE
Hélvio Romero/AE

Chefes e funcionários trocam de meio de transporte por um dia

Só 4 de 30 convidados pelo "Estado" aceitaram o desafio de substituir carro por ônibus, trem ou metrô

Valéria França, de O Estado de S.Paulo,

02 Abril 2009 | 23h38

SÃO PAULO - Trocar o carro pelo transporte coletivo e vice-versa. Essa foi a proposta feita pelo Estado a pelo menos 30 paulistanos. Mas apenas quatro aceitaram o desafio. A maior resistência partiu dos que estão muito acostumados ao carro. Alegaram que um desafio desse tipo não poderia ser feito assim, de um dia para o outro. Seria necessário um tempo maior de planejamento. “Se você tivesse me ligado uma semana antes, eu toparia ir para a casa de metrô ou de ônibus”, disse, por exemplo, o estilista Amir Slama, dono da Rosa Chá, que fica no Bom Retiro.

 

A explicação do estilista Marcelo Sommer foi parecida. “Hoje tenho uma série de reuniões e não posso perder tempo. Se algum desses lugares a que vou ficasse do lado do metrô até daria para aceitar o convite”, disse simpaticamente. Daniela Torres, uma das sócias da Thorrè, butique do Shopping Cidade Jardim, zona sul, também adiantou que, apesar de morar perto do trabalho, tinha várias reuniões com clientes em locais que ficavam “fora de mão”. “Não posso perder dinheiro. Se fosse outro dia...”

 

CORAJOSOS

 

Trocar o meio de transporte numa cidade como São Paulo é, sim, uma grande mudança no ritmo de vida. Mesmo assim, o conhecido chef francês Erick Jacquin, de 44 anos, proprietário do La Brasserie, e o gerente de seu restaurante, o paulistano Eurico Carvalho, de 32 anos, aceitaram a proposta do Estado. Jacquin vai trabalhar todos os dias de carro. Em São Paulo, o francês só havia andado de ônibus duas vezes. Uma delas foi num domingo, com o filho de 12 anos. “Passeamos de ônibus e tomamos o metrô. Queria mostrar para ele como era.” A outra, foi também num fim de semana, quando Jacquin foi passear na Praça da Sé, no centro.

 

Anteontem, o chef subiu num ônibus paulistano pela terceira vez. Pouco afeito ao transporte público, ele nem sequer sabia se da sua casa - que fica nas cercanias da Avenida Paulista, região central - até o restaurante havia uma linha de ônibus que fosse direta. “Tem certeza de que não preciso pegar dois ônibus?”, perguntou à repórter. Ficou aliviado diante da afirmativa.

 

Às 11 horas da manhã, com o nome do ônibus escrito num papel, ele foi para um ponto da Avenida Paulista “Quando estava quase lá, vi o ônibus vindo, mas achei besteira correr. Esperei o próximo.” O ônibus seguinte passou 20 minutos depois. “Foi aí que descobri por que as pessoas correm atrás do ônibus. Não imaginei que demorasse tanto.”

 

Jacquin nasceu numa cidade pequena da França, próximo ao Vale do Loire, e passou boa parte da sua vida em Paris, onde o sistema de transporte público funciona. Lá, os pontos oferecem informações importantes como as linhas de ônibus, com os respectivos destinos, além de um mapa com a região que elas abrangem. Fora isso, um painel eletrônico mostra o tempo aproximado que o ônibus vai demorar para chegar ao ponto. “Se não tivesse levado o nome do ônibus escrito num papel, ficaria perdido. Não havia nenhuma informação.”

 

Por causa do horário, Jacquin encontrou lugar para sentar e foi bem instalado. “Mas estava muito abafado lá dentro. Outra coisa chata é que o ônibus parou muito no caminho.” Mesmo assim, ele conseguiu chegar a Higienópolis 20 minutos depois. Caminhou mais 15 minutos até o restaurante. “Ao todo, levei 45 minutos até o restaurante.” Se fosse contar apenas o tempo do trajeto do ônibus, Jacquin teria levado o mesmo tempo que gasta de carro.

 

Para o gerente Carvalho, trocar o metrô pelo táxi não foi uma grande vantagem, principalmente porque ele tinha de sair da zona sul para a oeste às 8 horas da manhã, ou seja, quando o trânsito estava bem carregado. “Foram 45 minutos até a porta do restaurante. Normalmente, de metrô, levo meia hora da Estação Vila Mariana até a da Consolação. Depois caminho mais 15 minutos para chegar ao restaurante.”

 

Mas não houve nenhuma vantagem nesse troca-troca? “De carro, a viagem foi mais cômoda e não tive de passar pelo empurra-empurra para entrar no trem, que sempre está cheio nesse horário. E não fiquei prensado como numa latinha de sardinha”, disse Carvalho. “Você participa mais da vida da cidade quando anda de ônibus. Sente a agitação das pessoas. Senti até o cheiro da comida que vinha de um dos botecos numa das paradas”, contou Jacquin.

 

PASSEIO

 

Diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, o infectologista Marcos Boulos achou ótimo deixar ontem o carro em casa, no bairro de Perdizes, zona oeste. Às 7h30 da manhã, ele tomou o ônibus em direção à Avenida Doutor Arnaldo, onde fica o prédio da instituição em que trabalha. Por muito pouco não encontrou sua secretária, Rosana Gonçalves, que costuma embarcar no mesmo ônibus. Isso porque, ontem, ela foi para o trabalho de carro.

 

“Demorei 15 minutos a mais do que de automóvel”, diz Boulos. “Foi por causa da caminhada que fiz de casa ao ponto e, depois, do ponto até a porta da faculdade.” Boulos embarcou no ponto final do ônibus. Foi sentado durante os três quilômetros de trajeto. “Achei bem agradável. É um passeio. Já fiz isso outras vezes”, conta. “Mas, quando estou carregado, com a mala da ginástica ou tenho de ir a outro lugar depois, vou mesmo de carro.”

 

A secretária Rosana chegou à faculdade em 15 minutos. De ônibus, normalmente, leva o dobro do tempo. Ela mora na Água Branca, zona oeste. “Tem lugares em que ir de ônibus é muito complicado”, diz. “Minha filha estuda a menos de um quilômetro de casa. Dá para ver o colégio dela da janela do meu apartamento. Para chegar lá, é necessário pegar duas conduções. Então, é melhor levá-la de carro.”

 

Para o trabalho, no entanto, Rosana tem condução direta. Quatro linhas diferentes de ônibus, que passam próximo a sua casa, servem seu destino. “Espero no máximo oito minutos no ponto.”Apesar de ter estacionamento gratuito no trabalho, ela acha mais tranquilo ir de ônibus. “Quando tenho tempo de sobra, na volta para casa, que é só descida, vou até a pé. São cinco quilômetros. Então, aproveito para pensar na vida e fazer um exercício.”

 

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