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Chamou por quê?

Seu celular toca: "Bom dia!". Sua primeira reação: "Aconteceu alguma coisa?".

JAIRO BOUER, O Estado de S.Paulo

15 Dezembro 2013 | 02h01

As novas tecnologias operam mudanças espantosas, e o diálogo acima pode ser um dos efeitos colaterais dessas transformações. As pessoas parecem ter cada vez menos tempo (na verdade, talvez muito menos paciência) para falar ao telefone. Está acabando a época das chamadas espontâneas.

"Deu uma saudade e resolvi ligar para saber como você anda" está sendo substituído, ou pelo menos antecedido, por um SMS ou mensagem no WhatsApp do tipo "Td bem com vc? Posso dar uma ligada?"

É curioso perceber como muitas pessoas consideram "intrusiva" (uma invasão de privacidade) receber uma chamada inesperada no meio da tarde. "Como foi que me ligou sem ter avisado?". Artigo da escritora Caeli Wolfson Widger, publicado no New York Times, em outubro, comentava a tendência, também percebida nos EUA.

Curioso a gente pensar que, quando os celulares ganharam o mundo, na década de 1980, a autonomia de falar com alguém em deslocamento (fora de uma base fixa) foi um grande avanço, recebido com entusiasmo. Cerca de 30 anos depois, as chamadas são inoportunas, indesejáveis e até invasivas.

Em tempo de conectividade máxima, o bacana é você poder se comunicar (não necessariamente "falar") com muitas pessoas ao mesmo tempo, sempre em plataformas digitais, e podendo executar outras tarefas simultaneamente. Em um mundo em constante correria, falar 10 ou 15 minutos com alguém ao telefone pode ser entendido como perda de tempo.

Entre os mais jovens, o fenômeno é ainda mais evidente. Além do custo das chamadas (limitante e até proibitivo para muitas faixas da população), falar ao telefone está se tornando hábito cada vez menos comum. Chamadas dos pais são eventualmente toleradas (mais por imposição deles do que por desejo dos filhos), mas a iniciativa de conversar com amigos, colegas e parceiros é fato mais raro.

Quem tem filhos adolescentes deve estar até acostumado com as respostas curtas, evasivas e, às vezes, até grosseiras. "Tá, pai! Aham. Pode deixar! Deu, né?" Entre universitários, as chamadas parecem mais vinculadas a questões urgentes de trabalho ou de estudo do que a papos amenos.

No adolescente, a conversa (mesmo ao telefone) pode ser um problema. Às vezes mais tímidos e envergonhados no contato verbal ou físico com o outro, atrás da tela de um computador ou do teclado de um celular eles se soltam muito mais. No papo, eles podem se sentir peixes fora d'água. No texto, eles incorporam tubarões, dizendo coisas inimagináveis!

Mas a tendência não é exclusiva dos jovens. Na medida em que as novas tecnologias de comunicação ganham as gerações mais velhas, a voz vai cedendo espaço ao texto breve, sucinto, típico de relações mais diretas. "Vamos ao que interessa, sem rodeios!" Nesse sentido, há quase uma apropriação dos códigos de comunicação do mundo corporativo na vida pessoal.

Não sei quanto a vocês, mas sinto cada vez mais dificuldade de alcançar amigos pelo telefone. As pessoas simplesmente não atendem, ou fico sem graça de ligar, penso dez vezes antes de chamar, peço até autorização prévia por mensagem de texto. Em média, ligo para meus contatos muito menos do que há poucos anos. A mudança foi rápida!

O mais duro é perceber que também não sou exceção. Há anos, meu celular só fica no modo "vibracall", ou seja, faz tempo que ele não "chama" de verdade. Em casa, quando o fixo toca, me incomodo. É quase como alguém bater à porta sem avisar. No trabalho é diferente, mas cada vez mais prefiro interagir pelas plataformas digitais, sejam elas no computador ou nos dispositivos móveis. Será que vamos todos ficar cada vez mais calados, enquanto os dedos e os olhos não param?

É PSIQUIATRA

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