Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Chaguinhas, o 'santo' da Liberdade

Morto em 1821, soldado ficou com fama de milagreiro

Gustavo Zucchi, O Estado de S. Paulo

19 Outubro 2015 | 21h36

Não reconhecido como santo pela Igreja Católica, Francisco José das Chagas tem fama de milagreiro e com ela atrai fiéis para o bairro da Liberdade. Duas das igrejas da região, a Capela dos Aflitos e a Igreja Nossa Senhora dos Enforcados, estão ligadas à história do ex-tenente do exército brasileiro, morto no século XIX. Ao entrar nos edifícios, não é difícil ver placas de agradecimento a Chaguinhas, como ficou conhecido, por uma graça alcançada. 

Conta-se que, em 1821, ele e outro militar se insurgiram contra o comando do batalhão por causa de salários atrasados. Sufocada a rebelião, Chaguinhas teria assumido a culpa e livrado outros companheiros da forca – naquela época, existia pena de morte por enforcamento em praça pública na cidade. No dia da execução, a corda que deveria tirar a vida do soldado rompeu três vezes. A multidão interpretou o ocorrido como sendo uma "mensagem divina" e começou a pedir por sua liberdade. Conta-se mais de um desfecho para o que veio depois. Em um deles, Chaguinhas teria sido estrangulado pelo carrasco com uma tira de couro. Em outro, foi espancado até a morte. 

Na Capela dos Aflitos (que ficava no cemitério com o mesmo nome, desativado em 1858), existe uma porta que daria para o quarto em que o soldado teria ficado preso antes da execução. Há o costume de bater três vezes nela, chamar por Chaguinhas e fazer um pedido. No mesmo lugar, flores são depositadas com frequência em homenagem ao "santo".

"Pelo que ele sofreu, como foi tratado, tem índole boa", diz Rosa Maria Jaques. Ao lado do marido, João Tocchetto, ela é “investigadora paranormal”, uma espécie de "caça-fantasmas". Eles estudaram a capela e confiam nos milagres atribuídos a Chaguinhas. 

Outros nomes. O santo popular da Liberdade faz parte de uma longa lista de nomes não reconhecidos pela Igreja Católica, mas venerados no Brasil. Estão entre os mais famosos o Padre Cícero, que reúne uma grande quantidade de fiéis na região nordeste, e as chamadas treze almas de vítimas do incêndio ocorrido em 1974 no edifício Joelma. 

O processo de canonização do Vaticano é rigoroso e tem várias etapas. Em uma delas, o milagre, sem explicação científica, precisa ser analisado por juntas médicas e tem de ser confirmado. Na relação de santos brasileiros que passaram pelo processo estão o Frei Galvão e a Santa Paulina, ambos em São Paulo. "A Igreja Católica dá o nome de santo, mas o que o faz santo é tudo o que ele passou e sua índole. Ele [Chaguinhas] se tornou um santo, um de verdade", defende Rosa. 

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