Chacoalhando a árvore genealógica

Nunca se sabe o que vai cair quando se dá uma boa chacoalhada na árvore genealógica, seja ela imponente baobá ou modesto assa-peixe. Você espera uma penca de barões assinalados e vê pingar algum marquês de rabicó. Ou, mais raramente, o contrário.

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2011 | 00h00

De minha parte, jamais depositei expectativas nobiliárquicas nesse chacoalhar. Limito-me a supor que em meu hipotético brasão familiar há um cifrão provido de asas, a indicar que por aqui não ficou resquício de fortuna. Talvez por isso, sempre estive mais interessado no que haja de menos convencional na galeria dos antepassados e colaterais. Gente fora dos padrões costuma ser mais interessante. Ou gente comum com histórias bizarras. Como certa dona Carola, vejo aqui nos alfarrábios, cuja causa mortis, século e meio atrás, foi bicho-do-pé. Ou o tio Paulo, que não cheguei a conhecer, morto aos 21 anos de uma espinha no nariz. Em Belo Horizonte, sua memória virou espantalho para dissuadir a meninada de futucar as narinas.

Minhas sacudidelas genealógicas nunca me decepcionaram. Andei escrevendo sobre meu bisavô Francisco, que, prefeito do Rio de Janeiro nos começos da República, se notabilizou por proibir o jogo do bicho, então restrito ao antigo Jardim Zoológico carioca. A gente sabe o bicho que deu: reprimida lá dentro, a jogatina cruzou o portão e se disseminou pela cidade, pelo Estado, pelo Brasil inteiro.

Falei também da Maria Francisca das Chagas Werneck, que viveu no século 19 e entre nós se imortalizou como "a prima barbada de Maçambará". Não me refiro a buço; tratava-se de uma frondosa, inequívoca, assumida, estupefaciente barba-colar. Um dia compareceu um pintor para retratar a família. A Maria Francisca pediu um tempo. Não para passar a navalha - ao contrário, fazia questão de exibir seu adorno capilar, mas só quando estivesse no ponto. Assim foi feito. Já pensou? Uma prima que, além de bordar e se abanar com leques, como as senhoras e senhoritas de antanho, cofiava a barba, que nem marmanjo. Estou inventando? Posso publicar aqui, se o editor permitir, o retrato em cores da prima barbada de Maçambará, dama até formosa e possuidora, ao que consta, de insuspeita feminilidade.

Menos bizarra, mas não destituída de interesse, era a tia-avó Sílvia, que conheci velhinha. Solteirona, viveu em Petrópolis, mas sempre com um pé na estrada, até bem perto de o pôr na cova. A fé religiosa era mais pretexto para peregrinar. Um dos sobrinhos, irreverente, contava que em visita à Terra Santa ela torrou seus dólares na compra de uma ferradura que teria calçado o burrinho em cujo lombo Jesus Cristo fez sua triunfal entrada em Jerusalém no Domingo de Ramos. A tia não estava nem aí para o dinheiro. Tinha um monte de ações do Banco do Brasil, herdadas do pai, e poderia tê-las multiplicado várias vezes, sem meter a mão nas algibeiras, sob a forma de "filhotes", num desses momentos em que a bolsa de valores corcoveia. A sobrinhada de olho gordo foi bater à sua porta, mas a tia resistiu, indiferente à perspectiva de engordar sua pecúnia sem nenhum esforço: queria lá saber de chateação? Quem sabe não nasceu aí, como retaliação, a potoca da ferradura do burrinho santo?

A certa altura a tia se encantou por Ouro Preto, onde passava temporadas. Em seu sobe e desce nas ladeiras, causava espécie entre os nativos. Não chegou a suplantar em bizarria a folclórica Dona Olímpia, cuja vestimenta era uma colagem de coisas apanhadas no lixo - mas andou perto. Aonde fosse, sob sol ou chuva, a tia, com seu vestidão preto e sua boina, carregava uma sombrinha francesa em cuja ponta atou uma tesourinha, acionável por meio de um barbante. A estrovenga lhe permitia colher flores e pequenas frutas na vegetação que dos quintais se derramava sobre as calçadas. Não surpreende que tenha virado tipo popular em Ouro Preto. No carnaval, durante anos, havia sempre alguém fantasiado de "Dona Sílvia", não lhe faltando, claro, um arremedo da tal sombrinha.

Admita: não é qualquer família que tem uma Dona Sílvia.

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