Chacina de Acari faz 20 anos sem punição

Polícia e MP não acharam culpados pelos 11 assassinatos na Baixada Fluminense e crime prescreveu; promotora relata dificuldade em encontrar os corpos

Gabriela Moreira, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2010 | 00h00

 

Vinte anos após o sequestro e morte da filha Rosana de Souza Santos, aos 18 anos, a fiscal de fábrica licenciada Marilene Lima de Souza, de 58, sofre como se a jovem tivesse desaparecido novamente. Ontem, às 23h30, a pena da Chacina de Acari - na qual foram mortas Rosana e outras dez pessoas, em Magé, na Baixada Fluminense - prescreveu sem que Polícia Civil nem Ministério Público Estadual encontrassem os culpados.

"O tempo, que não trouxe minha filha de volta, acabou beneficiando os assassinos. É lamentável", disse Marilene, que junto com as demais Mães de Acari enviará um pedido de ajuda à Anistia Internacional. Elas vão pedir para que o depoimento de uma testemunha no processo que apura a responsabilidade pela morte de uma das mães, Edméa da Silva Euzébio - morta em 1993, durante as investigações da chacina -, seja anexado ao processo que prescreveu.

"Nós nos dedicamos tanto a colher provas e o Ministério Público não deu a devida atenção. Disse que precisavam de mais dados e nada foi feito", reclamou Marilene. A promotora Graça Mattos de Oliveira Portocarrero, coordenadora da 3.ª Central de Inquéritos do Ministério Público, não quis falar com o Estado. Em nota, relatou os passos do processo e apontou a dificuldade em encontrar os corpos dos 11 desaparecidos.

Após a realização de um culto e uma caminhada pelas ruas de Acari e Vigário Geral, na zona norte, parentes de vítimas de violência acusaram o governo de ser conivente com os suspeitos. "Vamos levar os detalhes da investigação à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) para mostrar que o caso não foi adiante por conivência das autoridades e não por falta de provas", avisou Maurício Campos, um dos coordenadores da Rede Contra a Violência.

Negligência. Segundo o Procurador da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) Ronaldo Cramer, a instituição vai pedir cópia do processo para analisar se houve negligência por parte das autoridades judiciárias. "A OAB não pode ser indiferente a esse e a qualquer outro crime que prescreva sem que os acusados sejam punidos." Cramer explica que, caso seja comprovada a negligência, a OAB pode pedir a punição dos responsáveis nos órgãos de controle externo do Judiciário e do Ministério Público.

PARA LEMBRAR

No dia 26 de julho de 1990, 11 pessoas - oito menores de 18 anos - foram sequestradas de um sítio em Magé por seis homens e nunca mais foram encontradas. Antes do crime, testemunhas teriam visto PMs pedindo dinheiro às vítimas. Duas pessoas morreram durante as investigações: Edméa da Silva Euzébio, mãe de uma vítima, e um policial que seria líder do grupo de extermínio da região.

 

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