Cerveja, futebol e pipa no ''domingão do Alemão''

Moradores passam o dia relaxados com a comunidade policiada, mas esperam presença social forte do Estado para a situação melhorar de verdade

Nicola Pamplona, O Estado de S.Paulo

13 Dezembro 2010 | 00h00

Muitas crianças nas ruas, grandes filas para comprar frango assado e homens nas biroscas, bebendo cerveja para abrir o apetite: cenas típicas de uma manhã de domingo em qualquer localidade, não fosse a presença ostensiva de policiais fortemente armados. No segundo fim de semana após a ocupação da polícia, as favelas Vila Cruzeiro e Complexo do Alemão comemoram o fim do domínio do tráfico de drogas, mas esperam políticas que garantam a paz.

As pipas riscando o céu e a disputada partida de futebol já existiam nos tempos do Comando Vermelho, mas os moradores dizem que a sensação permanente de vigília deu lugar a um clima mais tranquilo. Saíram de cena os comboios de motos carregando bandidos armados, com risco iminente de confrontos, e começam a aparecer o poder público, empresas prestadoras de serviços e os primeiros turistas.

"Você imagina essas crianças no meio da rua e, de repente, passam duas ou três motos a toda velocidade... Era muito perigoso", comenta Josivaldo Félix da Silva, dono de um bar na localidade conhecida como Alvorada. Há 40 anos no Alemão, ele admite que perdeu receita com o fim do baile funk organizado pelo tráfico na frente do seu bar. "Mas, agora, quem vem é o pessoal mais velho daqui, que raramente saía à noite. Eles bebem menos, mas são meus amigos."

"Ontem, vieram três turistas portugueses aqui. Hoje tem gente fazendo filmagem lá em cima (do morro)", gaba-se Jairo Nascimento, que vive no Alemão há 50 anos, durante bate-papo com os vizinhos no bar na frente de uma das estações do teleférico construído com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A população aposta que o fluxo turístico crescerá quando a obra ficar pronta, ligando o bairro de Bonsucesso a três estações no conjunto de favelas.

Enquanto esperam os turistas, a população recebe muitas equipes de reportagem e empresas que pretendem substituir serviços que eram prestados de forma criminosa pelo tráfico, como fornecimento de TV por assinatura, cigarros e gás de cozinha. "Em apenas uma semana aqui na Vila Cruzeiro, vendemos 190 pacotes. Está todo mundo batendo suas metas", comemora Mirian Carvalho, vendedora da NET, que montou pontos de venda nas subidas das favelas.

Mais lento, o poder público chega aos poucos, primeiro com obras de revitalização da região - como o teleférico e os novos trajetos do plano elevado da Igreja da Penha, anunciados ontem pelo prefeito Eduardo Paes (PMDB). A atuação dos governos na manutenção do clima de paz é uma grande preocupação entre os moradores. "Não adianta só entrar polícia. Tem de trazer o social", diz Nascimento.

As crianças parecem aprovar as mudanças. "A polícia só briga (quando alguém faz algo errado); os bandidos batiam", compara o pequeno Márcio, de 9 anos, que brincava com os amigos ao lado de carcaças de motos queimadas pelos traficantes durante a invasão da Vila Cruzeiro, no dia 26 de novembro.

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