''Cerco'' a moradores durou três anos

Casinhas em Pinheiros viraram objeto de desejo de empresa que queria construir edifício na área; valor dos imóveis dobrou por conta do interesse

, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2010 | 00h00

Convencimento. Processo de demolição de casinhas para construção de prédio na Rua João Moura, em Pinheiros: estratégia dos corretores para comprar os imóveis varia conforme o perfil dos proprietários

Disposto a fazer uma proposta de compra do imóvel, o corretor bateu à porta da casinha no número 919 da Rua Cristiano Viana, em Pinheiros. Foi atendido pela inquilina. Deixou um cartão e pediu que o entregasse ao proprietário. Como não obteve retorno, consultou a Prefeitura e descobriu que se tratava do empresário Klaus Ebone, sócio da bombada boate de público GLS The Week. Deixou outro cartão na boate.

"O cara me ofereceu R$ 600 mil pela casa", lembra Ebone, que tinha pago R$ 300 mil. Simples, antiga, 150m², a casa fica em um terreno de 500m².

Isoladamente, nem valeria tanto. Em conjunto com suas vizinhas de quarteirão, tornou-se objeto de desejo da construtora Zarvos, que enxergou ali uma excelente oportunidade de "formar área". Traduzindo: fazer espaço para a incorporação de um edifício.

O prédio só de escritórios terá oito andares, ou 17 lofts com tamanhos entre 73m² e 600m². De acordo com o marketing da construtora, a intenção é "reinventar a arquitetura comercial paulistana". Vão cobrar de R$ 600 mil a R$ 3 milhões pelas unidades.

Ebone ficou muito tentado, mas, nesse primeiro contato, não aconteceu nada.

O corretor deu uma sumida. Reapareceu. Mas já não era o mesmo, nem bateu apenas no número 919. Durante três anos, muitos corretores deixaram cartões naquelas redondezas. Um deles teve sorte com o vizinho de porta de Ebone, o aposentado Ricardo Loize, de 50 anos.

"Recebemos a primeira proposta mais ou menos em 2007. Minha mãe estava doente de Alzheimer, até precisava mudar dali, porque tinha muita escada, mas não teve como na época. Em 2008, ela morreu e, na sequência, meu irmão. Não via a hora de me desfazer da casa. Você não sabe a dor de cabeça que me deu o espólio", conta Loize.

Ele não revela por quanto negociou o imóvel, mas, levando-se em conta que o terreno tem 400 m² e que a Zarvos pagou em média R$ 1.200 o m² pelos terrenos da redondeza, foi algo em torno dos R$ 450 mil.

Em seu assédio, os corretores costumam dizer que "tudo depende do tipo de pessoa com quem a gente lida". Rodrigo Austin de Oliveira, da Morás Consultora Imobiliária, explica: "Se é um senhorzinho de idade, que tem raízes no bairro e conhece o açougueiro, a vizinhança, você diz que não vai ser legal ficar isolado, cercado durante 24 meses por uma obra barulhenta."

Caso a estratégia não funcione, parte-se para algo um pouco mais agressivo. Charles Nader, gerente de Desenvolvimento da Lindenberg, usa todo o seu pragmatismo de incorporador: "A pessoa que resiste - e não vende o imóvel - pode não conseguir mais nada por ele", diz.

Do ponto de vista de Nader, tudo parece muito simples. "A gente senta com as pessoas e vê quais são os anseios delas. Umas preferem ser pagas em dinheiro, a gente oferece um valor maior que o de mercado. Outras querem uma casa similar, na vizinhança. Nós procuramos. Há também a possibilidade de permuta por uma unidade no próprio empreendimento."

Em alguns casos, conta Fábio Romano, diretor de Incorporações da construtora Yuny, os proprietários assinam um contrato no qual se comprometem a desfazer o negócio e devolver o dinheiro, se a incorporadora não conseguir "formar área". "Você tem, digamos, 14 proprietários. Nem sempre é possível amarrar todos", diz.

Tempos depois de ser procurado pelo corretor, quando já tinha até esquecido da proposta, Klaus Ebone quis comprar uma cobertura em um empreendimento da... Zarvos. Preço: R$ 2,3 milhões. Alvoroço entre os corretores. Sobe o preço daqui, aumentam-se as vantagens dali e... nada. "Acabamos não chegando a um acordo", diz ele.

No final de 2009, a Zarvos tinha formado uma área de 6.240,90 m², ou seis casas. Contrariando todos os prognósticos, Ebone não parece infeliz com a perspectiva de ficar espremido. Ao contrário: "O prédio deles é bacana, vai até valorizar minha casa", diz ele, que planeja investir em uma megarreforma no imóvel para abrigar ali o novo escritório da The Week.

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