Cerca de 400 moradores de rua dormem no Triângulo Histórico de SP

No longo prazo e com mais investimentos, rede de proteção social poderia evitar que pessoas em situações de risco parem na rua

Carolina Spillari, estadão.com.br

29 de julho de 2010 | 15h21

SÃO PAULO - Todas as noites dormem em torno de 400 pessoas pela ruas do Triângulo Histórico (São Bento, XV de Novembro e Direita), dentro de um perímetro equivalente a 11% do Centro de São Paulo. A contagem é feita pela ONG Viva o Centro diariamente. Uma vez na rua, difícil sair dela. Para especialistas, uma rede de proteção social com "malhas mais firmes" poderia evitar o problema.

 

 

 "O melhor sistema é o que não deixa o morador chegar na rua, que tem forças muito poderosas e capturam principalmente os mais jovens", avalia a economista e professora da FEA (USP) Silvia Schor, que coordenou o Censo dos Moradores de Rua feito pela Fipe neste ano. Ela conta que quando conversou com muitos jovens sobre trocar a rua por um emprego, eles disseram que preferiam ficar lá do que trabalhar das oito às cinco e ganhar um salário mínimo.

 

Passar o dia seguinte caminhando, após passar a noite no albergue, não é um estímulo. Deitado na rua com um cobertor próximo ao "Pateo do Coleggio", o baiano e pintor Saul da Cruz, 33 anos, revelou que os albergues não são atrativos pelo controle, monitoramento e por ficarem longe de casas como o Restaura-me, no Brás onde podem passar o dia, das 8h às 17h.

 

Cruz diz que é melhor ficar na região central, mais próxima, e aguardar a chegada da Cruz Vermelha, que ajuda com cobertores, e das ONGs que distribuem alimentos durante a noite. De dia, ele relata que vai ao Restaura-me, onde toma banho, pode lavar roupa e se alimentar. O pintor conta que não é vantagem dormir em albergues como o Oficina Boracéa na Barra Funda, porque vai ficar longe da casa onde passa o dia. De manhã cedo, precisa deixar o local, segundo ele às seis horas da manhã.

 

A hora de deixar o albergue é estendida até as nove da manhã durante a "Operação Baixas Temperaturas", nos meses de frio, de acordo com a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS). Também a entrada em oito Centros de Acolhida é antecipada, começando às 16h. Na cidade, dos 43 Centros de Acolhida, cinco são para idosos, um para famílias, cinco para mulheres, 26 são mistos e seis para homens, conforme a SMADS.

 

ACOLHER NÃO BASTA

 

O ambiente dos Centros de Convivência não é atraente e convidativo. "Os albergues são espaços muito complicados. Lá você mistura todo mundo, você mistura a pessoa que está muito doente, drogado, uma pessoa que acabou de chegar na rua, traficante", diz a professora Silvia Schor. Essa mistura de todos os tipos não é suportada por todos. "Está tudo lá dentro e tem pessoas que não aguentam isso, porque é um ambiente muito complicado", afirma.

 

Para se ter algo melhor, seria necessário um filtro que diferenciasse o perfil dos acolhidos. "Na verdade a rede de atendimento deveria diferenciar um pouco os albergues. À noite, se a pessoa está dormindo, outro vem e rouba", retrata Silvia.

 

Até às 22h, a SMADS envia assistentes sociais às ruas do centro da cidade. Em uma abordagem de rotina, poucos acompanham os assistentes até os Centros de Acolhida. "Não podemos causar dependência", diz a assistente social Elisângela Nunes. Os casos são estudados e direcionados. "Tentamos fechar um círculo que sempre se repete, mas nosso trabalho não é emergencial. Encaminhamos para os albergues casos específicos como mães, filhos e grávidas", explica.

 

HOMEM, 40 ANOS

 

De acordo com o Censo da Fipe, a maior parte dos moradores de rua é homem e tem 40 anos. Wesley Francisco da Silva, 44 anos, se encaixa no perfil. Ex-trabalhador da área de limpeza, ele conta que foi "desligado" do Arsenal da Esperança onde permanecia há pouco mais de um ano, após adquirir, em seis meses de serviço, uma doença de pele. Silva é de São Paulo, está há 15 anos na rua e não pretende voltar para sua família, a qual afirma não ter nenhuma afinidade. Enquanto continua buscando emprego, vive sem endereço fixo.

 

Depois dos 40 anos, a reintegração ao mercado de trabalho é mais difícil. "A idade média de 40 anos revela por um lado que a maioria dos moradores de rua está em idade produtiva, mas por outro, o quanto a desqualificação profissional limita a inserção no mercado de trabalho e forca a uma 'aposentadoria', sem benefícios, precoce", avalia Walter Varanda, psicólogo e pesquisador de população de rua e uso de drogas.

 

A falta de alternativas alcança os mais jovens. "A partir dos 30 anos, com menos alternativas de geração de renda, o processo de desclassificação social conduz o sujeito a uma espécie de 'desistência'", acrescenta. Se a média dos moradores de rua está na casa dos 40 anos, os idosos são mais raros. "É o alto índice de mortalidade da população de rua. As pesquisas qualitativas confirmam isto", constata o professor.

 

TRIAGEM

 

Segundo especialistas, as soluções imediatas parecem não resolver esse problema social. A longo prazo, o exemplo poderia vir das redes de proteção social de outros países mais desenvolvidos, o que exigiria um maior investimento financeiro. Na triagem, os dependentes químicos vão para uma clínica de desintoxicação e os doentes, para o hospital.

 

"A diversificação da rede é encaminhar essas pessoas em situação de risco, que ainda não chegaram na rua. Por exemplo: nessas favelas que pegam fogo, as mulheres com criança que são despejadas", diz Silvia Schor. Antes de ir para a rua, elas seriam acolhidas e encaminhadas e a chance de elas morarem na rua seria menor.

 

Os programas sociais nos Estados Unidos e Inglaterra dão conta das mulheres que perdem o emprego e marido ou estão grávidas. "O risco de ela ir para a rua diminui. Isso é para um país mais rico, nós ainda não estamos lá. Precisamos de mais recursos e entender que a rede de proteção social inclui outras coisas, não somente você dar albergue para as pessoas. Rede de proteção social é dar trabalho, saúde, e em certos casos educação", detalha a coordenadora da pesquisa da Fipe.

 

DROGAS

 

A pesquisa da Fipe mostrou que a maioria dos moradores de rua bebe e usa drogas. "A questão do uso de álcool e drogas é um grande desafio da modernidade em todas as camadas sociais, e ainda não temos abertura para intervenções inovadoras", expõe o professor Walter Varanda. "O que nos faz pensar que o problema dos usuários de substâncias psicoativas que moram na rua não tem solução, intensificando o processo de estigmatização contra elas."

 

Dos entrevistados, 74% declara ser adepto do álcool, drogas ou ambos. Entre os 18 e 30 anos a proporção atinge 80%. Mais da metade já foi internado em alguma instituição - casas de detenção e clínicas de recuperação. A droga mais consumida é o crack. Mais da metade declara utilizá-lo. Já os mais velhos preferem o álcool. " A discussão sobre internação compulsória por exemplo é uma forma de criminalização dos usuários, que, diga-se de passagem, indica o retrocesso no forma de encarar o problema", opina Varanda.

 

MENOS ALBERGUES

 

Problemas estruturais motivaram o fechamento dos albergues Cirineu e Glicério, em 2008 e 2009, sob viadutos. O número de vagas que possuía cada um não é confirmado pela SMAS, que diz não ter havido fechamento de vagas, apenas remanejamento. "Todos os usuários foram transferidos para outros Centros de Acolhida da rede. Os usuários do Centro de Acolhida Pedroso, também embaixo de viaduto, serão transferidos assim que for encontrado um imóvel para recebê-los", responde a SMADS.

 

A estimativa é que no Cirineu pudessem haver 320 vagas e no Glicério entre 450 e 720 vagas. Conforme a SMADS são 9.600 vagas no total, com um acréscimo de 20% devido a "Operação Baixas Temperaturas. Em 10 anos, a população de rua na cidade de São Paulo passou de 8.706 pessoas para 13.666. O aumento foi de 57%.

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