Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Centros de convivência de morador de rua vivem abandono na gestão Haddad

No Parque Dom Pedro, mulheres e crianças dormem em barracos feitos de restos de madeira e lona

Artur Rodrigues,

07 Dezembro 2013 | 19h30

Há lixo por todo lado, fezes na pia e pessoas tomando banho em canos. Mulheres e crianças dormem em barracos feitos com restos de madeira e lona, enquanto homens fumam maconha e jogam dominó. O único sinal de que se trata de um equipamento municipal, voltado para moradores de rua, é um assistente social de colete azul e uma prancheta na mão.

Os centros de convivência foram criados na gestão de Gilberto Kassab (PSD) para que moradores de rua passassem o dia, tomassem banho e usassem os banheiros – ao contrário dos albergues, ali não é permitido passar a noite. Quase um ano após a posse de Fernando Haddad (PT), os espaços e seus arredores se deterioraram. A pior situação é na unidade do Parque Dom Pedro II, onde a reportagem encontrou a situação descrita acima.

"Não tem chuveiro, o banheiro está entupido, a Prefeitura não dá comida e o material de limpeza não dá para nada", diz Robson Ferreira, de 23 anos. Ele é um dos moradores retirados da Sé no dia 9 de outubro, por um aparato de 46 guardas-civis e 15 assistentes sociais, além de equipes de limpeza. Na quarta-feira, o local para onde as pessoas foram encaminhadas só tinha um funcionário.

 

 

Em uma volta pelo lugar, a reportagem é abordada por vários moradores pensando que se tratava de uma equipe da Prefeitura. Irritados, eles cobram o cumprimento de promessas que dizem ter ouvido para que saíssem da Sé. "Estou esperando o bolsa-aluguel que me prometeram", afirma Cleuza de Freitas, de 51 anos. Segundo ela, os últimos funcionários públicos que pisaram ali recolheram o lixo, colocaram em sacos e abandonaram tudo no mesmo lugar.

O local foi definido pela secretária de Assistência Social, Luciana Temer, como uma "experiência de autogestão" que não deu certo (veja a entrevista na página A26). Para o padre Júlio Lancellotti, é o "símbolo da total ausência de políticas públicas do Município". "A Prefeitura foi pressionada para tirar o povo da Praça da Sé e os escondeu, sem nenhum planejamento", diz o religioso, que é vigário do povo da rua.

Isca. A reportagem do Estado passou por outros três centros de convivência. Dois deles, o Alcântara Machado e o Bresser, ambos na zona leste, foram cercados por barracos. "Nós não permitíamos isso. Na nossa época, era combatido", afirma a ex-titular de Assistência Social e vice-prefeita de Kassab, Alda Marco Antonio, idealizadora das tendas.

"Os nossos educadores não trabalhavam só dentro, mas também no entorno (das tendas). Porque, se você tem um trabalho dentro, você não pode permitir que se faça o que quiser fora. Hoje eu vejo morador dormindo (na frente do equipamento)", afirma Alda.

Ela explica que um dos objetivos das tendas era ser uma isca para atrair os moradores de rua para os albergues. "Um dos resultados é que, de 3 mil moradores de rua que visitavam todo dia a tenda, nem todos tomavam banho todos os dias, mas usavam o banheiro. Isso significava que estavam deixando de depositar nas calçadas três toneladas de fezes todos os dias."

Crítico da gestão de Kassab, considerada por ele higienista, Anderson Lopes Miranda, do Movimento Nacional da População de Rua, também ataca a gestão Haddad. "Vivi 22 anos na rua, nunca vi uma omissão tão grande quanto a que estou vendo hoje", afirma. "Muda o prefeito, mas não muda a ação da Prefeitura."

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