Centrifugando

Dona Alzira diz que já começou a centrifugar.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

19 de fevereiro de 2012 | 03h07

A esta altura da vida, nada do que a boa senhora diz ou faz me surpreende. Vai longe o dia em que ela me deixou de queixo caído com a história do escudo de eucatex que mandou fazer para se proteger do raio laser de um tarado que assombrava a mulherada do bairro - ela, em especial. É, dona Alzira, já bem entrada nos 70 anos de idade, sentiu-se a fêmea mais visada pelo lascivo malfeitor. Lembra? Tinha até cor o tremebundo raio laser do degenerado - e por favor se abstenha de interpretações cromático-psicanalíticas: a estrovenga do malfazejo expedia raios vermelhos. Cheguei a ver o tal escudo, encostado junto à porta de entrada para qualquer eventualidade. Com tarado não se pode bobear. Tem tempo que dona Alzira não fala nele. Sua conversa, agora, é outra: a centrifugação.

Desde então, mais algum tempo desabou sobre seu alquebrado lombo. Donde a centrifugação. Daqui a pouco você vai entender. Eu próprio demorei um pouco. Dona Alzira às vezes recorre à linguagem figurada. E às vezes envereda pela filosofia. No caso, juntou as duas coisas. Estávamos na sala de seu apartamento e ela me falava da cruel passagem do tempo (estou reproduzindo suas palavras), da nossa finitude (usou esta expressão), da inexorabilidade (idem) da morte que faz tocaia na mais pacata curva da existência.

Nesse ponto dona Alzira suspendeu a explanação, esteve por uns segundos meditabunda (ela talvez preferisse dizer meditanádega), ruminando coisas, depois acendeu um sorriso (gostaria desta imagem) - e então me convidou para passar à área de serviço, onde me tangeu até a máquina de lavar. E aí, tendo por fundo musical o chac-chac da lavadora, voltou a fiar sua filosofia.

Em síntese, o seguinte: nossa existência se compõe de ciclos que são mais ou menos os mesmos de uma máquina de lavar roupa. Prosaico, porém verdadeiro, enfatiza dona Alzira. Se bem compreendi, no fundo somos todos uma brastemp. Nos anos de formação, é como se você estivesse de molho, preparando-se para as refregas a vir. Em seguida vamos para o mundo, e ele, impiedoso, nos chacoalha de lá para cá, que nem faz a lavadora com a nossa roupa.

Depois de muito sacolejo existencial, vem a fase do enxágue, que em sentido figurado equivaleria à progressiva depuração que a vida promove em nossas pessoas, à medida que amadurecemos - se bem obrarmos, evidentemente. O importante é que aos poucos nos livremos das nódoas que trazemos de origem (o pecado original, digamos assim) e daquelas que vamos adquirindo pelo caminho.

E quando bem maduros estamos, arremata dona Alzira, maduros e limpos, eis que inelutavelmente ingressamos na fase derradeira - a centrifugação, após a qual estará completo o périplo que cumpre ao bicho homem (ela adora a expressão, aprendida numa entrevista do Sebastião Salgado) empreender na áspera superfície desse planeta em que nos é dado viver (palavras, outra vez, do famoso fotógrafo).

Engenhoso, sem dúvida - mas a coisa não está completa, ouso observar: a roupa que acaba de ser lavada ainda não está pronta para ser usada, sendo preciso, antes, pô-la para secar, seja no varal, seja numa secadora. Dona Alzira me endereça um olhar condescendente, carregado da sabedoria de quem, ao cabo de tanta peleja, se sente centrifugar: isto é irrelevante, como irrelevante é o destino dado ao nosso cadáver, que pode ser enterrado ou cremado, sem que isso altere em nada o que foi vivido.

Só me resta observar: ahnn... E concluir, um tanto apreensivo, que também eu, ai de mim, já estou centrifugando, ou quase: cheguei àquele ponto em que não terá cabimento alguém falar em morte prematura quando eu bater a pacuera. Certa está dona Alzira! E sabe Deus que lições mais a boa senhora, com sua inteligência de alta voltagem, poderá tirar dos outros eletrodomésticos que povoam sua casa - a geladeira, o grill, a torradeira, o ar-condicionado, o aquecedor de ambiente, o ventilador, a enceradeira, o ferro de passar, o mixer, o liquidificador, a batedeira de bolo, o aspirador de pó, o vaporetto, o espremedor de laranja, o secador de cabelo, quem sabe mesmo o barbeador do Walter...

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