Marcio Fernandes/AE
Marcio Fernandes/AE

Censura da OAB foi boa propaganda, diz artista

ENTREVISTA

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2010 | 00h00

Gil Vicente,artista plástico

A 29.ª Bienal de São Paulo vai ser inaugurada hoje à noite para convidados - e apenas no sábado pela manhã para o público -, mas ontem, na apresentação da exposição para a imprensa, foi o artista Gil Vicente quem já surgiu como "popstar" do evento. Isso porque na sexta-feira o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo (OAB-SP), Luiz Flávio D"Urso, divulgou nota pública pedindo que desenhos do artista fossem retirados da mostra "por fazer apologia ao crime".

Em sua série, registrada na primeira página do Estado na sexta, o pernambucano se retrata matando o atual presidente da República e seu predecessor, além de outros oito líderes políticos, sociais e religiosos. Mas as obras não foram retiradas da mostra e a Fundação Bienal de São Paulo reitera que não vai exercer nenhuma censura.

Os desenhos de Gil Vicente estão expostos no terceiro piso do Pavilhão da Bienal, fazendo parte do coro da grande mostra, com participação de 159 artistas nacionais e estrangeiros, que ficará em cartaz, gratuitamente, até 12 de dezembro no Parque do Ibirapuera. "Parece que voltamos à ditadura", disse Gil ontem ao Estado, sobre a polêmica em torno de sua obra, já exposta no Recife (cidade do artista), em Natal, Campina Grande e Porto Alegre.

Como recebeu a nota da OAB?

Não tive tempo de ler a nota toda ainda, mas o Agnaldo (Farias, curador) me passou o teor. Fiquei surpreso. Parece que voltamos à ditadura. Ele (o presidente da OAB-SP) alega que minha série incita o crime e pergunto: Qual o crime maior: eu fazer essa ficção ou o roubo de nossos dirigentes, que a OAB sempre soube? Em vez de ficar pedindo que retirem minhas obras da exposição, deveriam trabalhar para colocar, pelo menos, em prisão perpétua esses dirigentes políticos que vivem roubando. Na menor prefeitura do País se rouba. Não voto há muito tempo, desde 2005.

Justamente quando fez Inimigos. Por que não vota e qual a relação dos desenhos com essa atitude?

Eleição é uma coisa completamente pífia. Não voto e faço campanha para as pessoas não votarem. A última esperança que tive foi o Lula, mas que idiotice a minha, eu era ingênuo. Votar para mim é ir a uma urna e, como num tribunal, autorizar que determinadas pessoas roubem por oito anos. A intenção, nos desenhos, era a de me retratar eliminando esses líderes. Estou matando-os - e só não quis representar a cena com sangue e cabeças explodindo porque não queria o registro de um espetáculo de filme americano. Logo após o registro, os mato (ele ri). Todas essas vítimas são fáceis de escolher, porque todos são escrotos.

Nos outros lugares em que exibiu esses desenhos ocorreu alguma polêmica como esta?

Nos outros lugares não houve nenhum problema. Apenas alguns leitores de jornal disseram que seus filhos não eram obrigados a ver aquelas coisas, mas eles veem mortes no noticiário todos os dias. A OAB só fez propaganda para mim.

Você fica chateado com isso?

Essa série contém um teor crítico o bastante para as pessoas entenderem. Foi uma bobeira da OAB fazer esse pedido, foi um desserviço a ela mesmo, como entidade. Lamento muito e lamentarei se minhas obras forem retiradas da mostra. Mas as pessoas vão lutar para que isso não aconteça.

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