Cenas do dia a dia viram tema de show de dança

Fantasiadas, bailarinas ensaiaram pelas ruas da cidade, interferindo no[br]cotidiano das pessoas; espetáculo será apresentado na sexta, na República

Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2010 | 00h00

Um robô de plástico e papelão em plena Avenida Paulista faz sinal com a mão para o ônibus. O motorista do 669A-10 Terminal Santo Amaro até para, olha, mas não deixa subir. Enquanto isso, a dama do lixo circula impávida entre os engravatados na frente do Parque Trianon - alguns sacam o celular do bolso para fotografar. Era só mais um dos ensaios abertos do espetáculo de dança Urgência - A Cidade do Avesso, que se apresenta sexta-feira na Praça da República, no centro de São Paulo.

Idealizada pelo ...Avoa! Núcleo Artístico, a peça trata da relação do indivíduo com a multidão, que pode ser tensa - há sempre aquele que perturba a normalidade do outro - ou de completa invisibilidade. Ao vivo, dois músicos fazem a trilha sonora.

Os ensaios do grupo foram todos na rua, em locais como a Estação da Sé às 18h, a Paulista na hora do almoço e a Rua 25 de Março, na região central. No primeiro momento, as bailarinas Luciana Bortoletto, Calu Baroncelli, Larissa Pretti, Chris Cruz e Érica Moura se travestem desses personagens-caricatura que chamam a atenção tanto pela performance quanto pelos figurinos. A inspiração maior, dizem elas, foram a atitude e as vestimentas dos moradores de rua. "É curioso como até as roupas que eles vestem são da cor do chão. Eles se camuflam na rua", diz Érica.

Reações. Ensaiando ao ar livre, as cinco se depararam com todo tipo de situação - e tudo serviu de laboratório para a dança final. Logo na primeira vez que foram para a rua, viram uma mulher prestes a se jogar de uma passarela do Terminal Bandeira, no centro da cidade.

"Nossa atitude foi puxá-la de volta e ficar umas três horas conversando para tentar convencê-la a entrar no carro do resgate", conta Luciana. "Às vezes é preciso uma situação extrema como essa para colocar um anônimo em evidência." Isso, Luciana, que também é diretora do espetáculo, tentou levar para a linguagem corporal.

Apesar de estar sempre em lugares lotados, o grupo quase nunca interage com o público - mas, circulando com aquelas roupas e agindo como se vivesse cada uma seu drama particular, acabam servindo de provocação viva no meio da mesmice. "Somos interferências no percurso cotidiano das pessoas. Elas literalmente têm de desviar da gente para poder passar pelo caminho que estão acostumadas a fazer todo dia, sem interferências", diz Luciana. "O espaço que ocupamos com a dança na rua é público mas, para as pessoas, é como se fosse privado."

Calu Baroncelli, a "robô" de papelão, conta que elas já foram até ameaçadas fisicamente durante as apresentações. "Muita gente passa xingando, já tentaram jogar coisas na gente", diz. "Mas também tem quem ache engraçado, pare para assistir, dê tchauzinho da janela do ônibus."

Coreografia. No segundo momento, depois das performances individuais, as cinco deixam as fantasias para trás e se juntam para fazer uma coreografia inspirada em tudo que viram ao longo das performances: os movimentos cotidianos de pegar o metrô, empurrar o outro no ônibus, ser espremido no trem, xingar alguém na rua.

As duas partes da apresentação foram filmadas e serão compiladas em uma videodança. O projeto é um dos selecionados deste ano pelo Programa Municipal de Fomento à Dança.

SERVIÇO

URGÊNCIA - A CIDADE DO AVESSO. SEXTA-FEIRA (DIA 3), ÀS 17h30. PRAÇA DA REPÚBLICA, S/Nº, CENTRO GRÁTIS. CALENDÁRIO DE APRESENTAÇÕES NO BLOG NUCLEOAVOA-ARTES.BLOGSPOT.COM

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