Cena de sangue à frente da Sé

Foram chocantes as imagens de violência divulgadas na tarde de 4 de setembro passado. Um homem de 49 anos e uma mulher de 25 estão na igreja, aparentemente para rezar. Mas conversam e seu diálogo vai ficando tenso, a ponto de chamar a atenção dos vigilantes do templo. Logo depois, os dois saem e a polícia é avisada.

Dom Odilo P. Scherer, O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2015 | 02h00

À frente da escadaria da igreja começa a agressão física à mulher; a cena de violência chama a atenção dos passantes, que começam a se aproximar; a polícia acorre e isola a área; o homem está armado. Os filminhos pelo celular se espalham rapidamente pela internet. Repórteres de uma emissora de TV encontram-se no local e transmitem tudo ao vivo: é furo de reportagem! 

O homem é valentão; arma em punho, ele ameaça matar a mulher, mas ela resiste e tenta segurar a mão dele, para evitar que atire. A polícia procura controlar a situação e desarmar o agressor, que parece tomado por um surto de violência.

Um passante fura o cerco e se introduz furtivamente na cena. Lança-se sobre o homem enfurecido e livra a mulher, que foge aterrorizada; mas ele leva dois tiros à queima-roupa do homem descontrolado. O herói ainda tem forças para ficar em pé e observar como a polícia alveja e mata o agressor; em seguida, ele se recosta no canto da porta da igreja e desaba, morto. 

Final da cena de sangue. Imagens e interrogações logo enchem as mídias sociais.

Parecia um filme de ficção, mas foi tudo real, ao vivo e em cores! Qual foi o motivo para tanta violência, com dois mortos estirados no chão?! Não aconteceu na calada da noite, nem foi “num bar da avenida São João”: foi em pleno dia, nas escadarias da Catedral da Sé, cartão-postal da cidade de São Paulo, palco de tantas manifestações em favor da dignidade humana, da liberdade e da paz! 

Episódios como esse acontecem, geralmente, com menos visibilidade, mas com certa frequência na Pauliceia desvairada. Ainda não passou a perplexidade diante das recentes chacinas em Osasco e Barueri; e a cena da Praça da Sé deixou na sombra um fato igualmente horrível, descoberto no dia seguinte, no bairro central da Bela Vista: um menino, filho de imigrados africanos, foi encontrado morto dentro de um freezer. Como explicar isso?

Cenas de violência contra o próximo acontecem desde que Caim matou Abel. E não ouso afirmar que agora sejam mais abundantes do que no passado. Mas, hoje, existe a possibilidade de dar grande visibilidade aos acontecimentos mais terríveis. Um dos efeitos dessa exposição cruenta de cenas de violência pode ser o horror e o medo da população, que se entrincheira dentro de casa; mas a violência também pode tornar-se um espetáculo para curiosos, ou uma obsessão para caçadores de furos de reportagem. Na banalização de cenas reais de horror, mal se faz a diferença entre ficção e realidade!

Claro está que o problema principal são os próprios fatos de violência, e não a sua divulgação. Mesmo assim, é indiscutível que a espetacularização dos episódios de violência deixa efeitos que precisariam ser mais bem analisados.

O mínimo que se pode afirmar é que não educa para sentimentos bons, nem para a virtude. Como interpretar tanta explosão de violência? Penso nos mistérios da alma humana, nas tensões crescentes do convívio social e na perda dos valores básicos da conduta.

É difícil saber o que se passa na alma humana. Quem conhece as suas intenções e as motivações do seu agir? Como administrar positivamente o precioso bem da liberdade? É preciso cuidar mais e melhor das pessoas. Cuida-se das florestas, das águas e dos animais, e isso é bom; cada pequena variação da inflação é acompanhada com interesse e preocupação... Não deveriam receber cuidados ainda maiores o ser humano e cada pessoa individualmente? Não é ela a razão de ser de todas as políticas econômicas, da estrutura do Estado e das organizações da sociedade?

Os noticiários dão conta de que o homem morto por policiais na escadaria da Catedral da Sé tinha uma ficha policial bem nutrida; para muitos, seu lugar talvez não fosse a praça, mas a prisão. E se estivesse em alguma das prisões brasileiras, quais poderiam ter sido suas chances de recuperação para o convívio social? Como ajudar indivíduos associais a conviverem melhor com os outros e a mudarem hábitos antissociais? Colocá-los atrás das grades pode ser um alívio para a sociedade, mas isso ainda não resolve o problema de quem está preso. Que fazer? Construir mais cadeias, para recolher nelas todos os malfeitores e nos sentirmos em paz?

Crescem as tensões sociais, o nível de agressividade. E aparecem cada vez mais evidentes as polarizações ideológicas, às vezes fundamentalistas. Multiplicam-se acusações infundadas, os ataques gratuitos e as incitações ao ódio, apenas por preconceito. A discussão política e o confronto de ideias são é necessários e não se pretende que todos tenham as mesmas convicções. No entanto, nunca deveriam ser deixados de lado um objetivo bom a alcançar e o respeito às pessoas, nunca. Os sonhos de vida melhor frustrados e a insatisfação crescente da população com os rumos da política e da economia acumulam uma carga explosiva.

Em matéria de valores comportamentais, vivemos numa espécie de reino da anarquia. Precisam ser preservadas e comunicadas as referências comuns do convívio social, como a dignidade de cada pessoa, o respeito pelos direitos alheios, a tolerância, a solidariedade, a justiça e a honestidade. Sem esses valores compartilhados, o convívio social mergulha no reino do arbítrio e da prepotência. 

Será que esses valores ainda estão sendo prezados na educação sistemática e informal? O sangue derramado na escadaria da Sé continua a nos questionar.

*Dom Odilo P. Scherer é cardeal-arcebispo de São Paulo

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