Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Cemitério da Consolação tem furtos e funcionário fantasma

Tombada pelo patrimônio histórico, necrópole da região central de São Paulo enfrenta falta de guaritas, câmeras e vigias; famílias se queixam de gestão

Adriana Ferraz, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - Jazigos violados, troca de caixões, ausência de urnas para armazenamento de cinzas, ossadas expostas. A lista de denúncias contra o Serviço Funerário Municipal inclui até funcionário fantasma nomeado pela chefia. Tombado pelos órgãos do patrimônio histórico, o Cemitério da Consolação é o principal exemplo do descaso. Sem guaritas, câmeras ou vigias, a primeira necrópole da capital virou alvo fácil de ladrões.

Na quinta-feira passada, o Estado contou mais de 50 túmulos saqueados. O vandalismo pode ser visto logo na entrada principal, projetada por Ramos de Azevedo. Há uma sequência de túmulos sem porta (ou emparedados por tijolos improvisados), sem placas de identificação e até sem adornos, como anjos de mármore, bronze ou cobre. Parte dessas imagens pesa mais de cem quilos e desaparece do dia para a noite.

Nas três horas em que a reportagem esteve no local, nenhum vigia ou guarda-civil foi visto. Nem mesmo os chamados agentes de segurança faziam ronda. Marcelo Ferreira da Silva, nomeado pela superintendente do Serviço Funerário Municipal, Lúcia Salles França Pinto, é oficialmente um deles. Contratado em outubro de 2015, ele poderia trabalhar na Consolação ou em outro cemitério municipal, mas passou 16 dias de julho na Europa, com a namorada e irmã de Lúcia, a chef de cozinha Daniela França Pinto.

Fotógrafo, Silva não é conhecido entre os funcionários da autarquia. No local onde deveria trabalhar, uma servidora afirmou à reportagem que nunca havia ouvido falar dele. Seu salário base é de R$ 1,4 mil, segundo o portal da Prefeitura.

Para quem teve o jazigo da família depredado, a falta de segurança é problema de gestão. “Como ninguém vê três estátuas de mármore sendo roubadas de um túmulo? Eram obras de arte: um anjo, uma imagem de Nossa Senhora e outra de São José. Além disso, roubaram a placa em bronze com o nome da minha mãe”, diz o advogado José Roberto Bernardez.

A mulher em bronze que “descansava” sobre o túmulo da família de Regina Acras também foi levada do cemitério, em 28 de abril. “Foram cinco furtos. Começou com a porta em bronze, depois as placas e, agora, a estátua. O cemitério era lindo, cheio de obras de arte, e está feio, tamanho o descaso. É de chorar”, diz a fonoaudióloga.

Em razão da onda de saques, parte dos túmulos está sem proteção. É possível ver ossadas expostas e estátuas depredadas, como anjos sem cabeça ou crucifixos partidos ao meio.

Caixão. Também vítima da baixa qualidade do serviço, Wanglil Ribeiro dos Santos, morto aos 27 anos, foi enterrado no Cemitério Municipal São Luis em um caixote improvisado, em 1.º de julho. O rapaz pesava 250 quilos e não teve uma urna adequada, segundo a família. “Colocaram ele num caixão quadrado. O funcionário até tentou achar um modelo maior, mas disse que não tinha”, conta o irmão, Wagner Ribeiro, de 34 anos.

Funcionários do Serviço Funerário contam que as agências têm caixões para obesos, mas que o custo é alto, e a família de Santos alegou não ter como pagar o enterro. A gestão Fernando Haddad (PT) disse que forneceu “embalagem de padrão internacional e específica para casos acima de 200 quilos”.

Outro munícipe, que não quis ser identificado, conta que comprou um caixão de luxo para a filha e recebeu outro, de qualidade inferior, em 29 de maio. A Prefeitura reconheceu o erro e disse que ressarcirá a família.

Em nota, o Serviço Funerário informou que neste ano “fez mais de 74 mil enterros, quase em sua totalidade bem-sucedidos”. Mas, em junho, o Estado mostrou que o órgão entregou cinzas de restos mortais cremados na Vila Alpina em sacos plásticos por falha no estoque. 

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Promotora visita cemitério e pede lista de bens tombados à Prefeitura

Inquérito reaberto neste ano apura as responsabilidades dos furtos, assim como da omissão das autoridades públicas na defesa do patrimônio histórico

Adriana Ferraz, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - A promotora de Justiça Lilian Fruet visitou o Cemitério da Consolação na sexta-feira, 22, para verificar denúncias de falta de segurança no local. Inquérito reaberto neste ano apura as responsabilidades dos furtos, assim como da omissão das autoridades públicas na defesa do patrimônio histórico presente ali. São mais de 200 obras de arte catalogadas, esculpidas por artistas como Victor Brecheret e Nicola Rollo.

Inaugurada em 15 de agosto de 1858, a primeira necrópole de São Paulo reúne jazigos de artistas, políticos e intelectuais que fizeram a história da cidade e do Brasil, como Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral e os ex-presidentes Campos Salles e Washington Luís. “É a nossa memória que está ali. Temos de protegê-la”, diz o diretor do Movimento de Defesa do Cemitério da Consolação, Francisco Machado.

“Só neste ano mais de nove estátuas foram levadas pelos ladrões. Alguém precisa tomar uma providência. Por que a administração não instala guaritas, câmeras e contrata vigias? É pedir muito? Estamos perdendo nosso patrimônio”, reclama Machado.

Para o vereador Nelo Rodolfo (PMDB), que enviou, na semana passada, representação ao procurador-geral de Justiça, Gianpaolo Smanio, pedido a intervenção do Ministério Público, a situação merece investigação detalhada, tendo em vista o orçamento anual do Serviço Funerário, de R$ 150 milhões. O parlamentar pede providências no sentido de investigar “má gestão e possíveis atos de improbidade administrativa” dos responsáveis pelos cemitérios da capital.

“É preciso verificar todos os contratos firmados nos últimos cinco anos, para apuração das despesas, preços praticados e serviços efetivamente realizados”, solicita Rodolfo, que estuda ainda pedir a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), na Câmara Municipal, para apurar as denúncias recebidas.

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Adriana Ferraz, O Estado de S. Paulo

25 Julho 2016 | 03h00

SÃO PAULO - O Serviço Funerário Municipal afirma que Marcelo Ferreira da Silva não é funcionário fantasma e que seu contrato não exige dedicação exclusiva. Desde outubro, Silva, que é contratado como agente de segurança, teria entregue mais de 250 gigabytes em fotos de cobertura de eventos da autarquia.

A assessoria de imprensa de Lúcia França Pinto ressalta que o servidor não tem parentesco com a superintendente e, portanto, não se configura nepotismo. Afirma ainda que Silva informou que ficaria 16 dias na Europa e que o período será descontado de seu salário.

Procurado, o fotógrafo diz que foi nomeado pelo trabalho, que faz há mais de dez anos.

“Não fui contratado porque namoro a irmã da Lúcia, mas porque tenho nome na área. Minhas fotos são de alto nível. Faria até de graça.” Segundo ele, muitos não o conhecem porque trabalha na rua.

A segurança do Cemitério da Consolação é da Guarda Civil Metropolitana (GCM). Segundo a gestão, o patrulhamento é feito por três guardas de dia e seis, à noite. Há duas câmeras e o sistema será ampliado, afirma.

“Medidas adotadas, como iluminação e a solicitação de manter a GCM 24 horas no local, além da experiência piloto de cães de guarda (já encerrada), entre outras, resultaram em mais segurança para a necrópole”, acrescenta. 

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