Catástrofes evitáveis causam perplexidade e cobrança na nação

Por sua dimensão, a tragédia na região serrana do Rio atrairia a atenção internacional independentemente de quaisquer outros fatores. Com mais de 540 mortos contados até ontem, trata-se do terceiro maior desastre natural da história do País e um dos piores do mundo em mais de um século. Provocado por uma combinação letal de excesso de chuva e falta de respeito aos códigos de construção de moradias em área de montanha, a catástrofe ganhou destaque especial na imprensa internacional, porque os olhos do mundo estão postos no Brasil desde que a antiga capital da República foi escolhida para hospedar as Olimpíadas de 2016. Não importa que a tragédia tenha se dado a 70 quilômetros da cidade do Rio, onde ocorrerá a maioria dos jogos, ou longe dos estádios do Mundial de 2014. importa sim, e muito, que episódios dolorosos como o desta semana ainda ocorram numa nação que vem emergindo na cena global, em boa parte porque tem demonstrado capacidade de enfrentar seus problemas e desafios.

Análise: Paulo Sotero, O Estado de S.Paulo

15 Janeiro 2011 | 00h00

A perplexidade da consultora das Nações Unidas Bebarati Guha-Sapir diante da catástrofe deu o tom de reação e cobrança a que os brasileiros devem habituar-se, agora que o País se habilitou a jogar na liga dos grandes. "O Brasil não é Bangladesh e não tem nenhuma desculpa para permitir, no século 21, que pessoas morram em deslizamentos de terras causados por chuva", disse ela ao correspondente do Estado em Genebra, Jamil Chade.

As declarações francas que a presidente Dilma Rousseff fez depois de sobrevoar a região sinistrada, na quarta-feira, não foram muito diferente das de Guha-Sapir e provavelmente acrescentaram um dado novo na percepção dos brasileiros e não brasileiros sobre o episódio e as óbvias lições que ele traz. Em contraste com o que costumam fazer os políticos nessas horas, a presidente não escamoteou a verdade. Em lugar de culpar o excesso de chuva - e não a falta de limpeza de bueiros e das calhas de rios e córregos, como fez o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, para justificar os alagamentos que se repetem pontualmente na cidade a cada mês de janeiro - Dilma disse que a tragédia que transfigurou a serra fluminense resultou da antiga prática nacional de construir moradias em área de risco, que, como ela disse e todos sabemos, "é regra e não exceção". A presidente deixou subentendido assim que as perdas de vidas e bens resultaram da incompetência coletiva embutida em nossa cultura de ilegalidade, dentro da qual tudo se ajeita, até que a casa cai ou desliza morro abaixo, deixando em seu rastro de devastação dúvidas sobre nossa vontade coletiva de resolver problemas que se repetem há anos diante de todos.

Jornalista, é diretor do Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars, em Washington

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