Mariela Guimarães - Agência I7/AE
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Caso Bruno: no 1º dia de júri, goleiro chora e testemunhas são dispensadas

Ex-atleta do Flamengo é acusado de mandar sequestrar e matar ex-amante Eliza Samudio; defesa tenta - sem sucesso - adiar julgamento

MARCELO PORTELA E ALINE RESKALLA, O Estado de S.Paulo

05 Março 2013 | 02h06

CONTAGEM - No primeiro dia do julgamento dos acusados pela morte de Eliza Samudio, o ex-goleiro do Flamengo Bruno Fernandes chegou cabisbaixo ao Fórum de Contagem. E assim ficou enquanto via a juíza Marixa Rodrigues negar as tentativas dos advogados de adiar o júri ou retirar dos autos o atestado de óbito da ex-amante - e quando todas as testemunhas de defesa foram dispensadas. No fim da manhã, chorou, depois de ter um trecho da Bíblia que tinha nas mãos apontado por um de seus advogados.

Para o assistente de acusação, José Arteiro, "só um milagre" faria Bruno, o "chefe de um esquema criminoso", ser inocentado. Já o advogado Tiago Lenoir, defensor do goleiro, procurou ressaltar que não há nem provas de que o crime tenha ocorrido e destacou o depoimento da única testemunha do dia, a delegada Ana Maria dos Santos. "Em cinco horas, ela não citou Bruno nenhuma vez. Isso mostra que não há provas (de sua participação), que há dúvidas, o que foi muito bom para o réu."

Já o ex-atleta adotou postura bem diferente da altivez vista em novembro, quando, após uma série de manobras bem-sucedidas da defesa, o júri foi desmembrado. Dessa maneira, ontem só o goleiro e a ex-mulher, Dayanne Rodrigues do Carmo, processada pelo sequestro e cárcere privado do bebê que o jogador teve com a vítima, foram ao banco dos réus.

Em novembro, foram julgados - e condenados - o ex-braço direito do atleta, Luiz Henrique Ferreira Romão, o Macarrão, e outra ex-amante, Fernanda Gomes de Castro. O ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, será julgado em 22 de abril pela acusação de execução e ocultação do cadáver de Eliza.

Ontem, apesar de o julgamento estar marcado para começar às 9 horas, uma série de discussões e questões preliminares atrasou o início da sessão. Apenas no fim da manhã, foi definido o júri que vai julgar Bruno e Dayanne, com cinco mulheres e dois homens, aparentando média de idade em torno de 30 anos. Antes mesmo do sorteio dos jurados, a defesa de Bruno tentou adiar o julgamento.

Em uma das questões preliminares, o assistente de acusação Lúcio Adolfo pediu novo adiamento dos trabalhos com o argumento de que há um recurso ainda a ser analisado, pedindo que seja retirado dos autos o atestado de óbito de Eliza. O documento foi emitido em janeiro, por determinação de Marixa, afirmando que a vítima foi morta por asfixia. "Com esse atestado, três quesitos (sobre a morte, a serem analisados pelos jurados) já estão respondidos", observou o advogado Tiago Lenoir. Além do adiamento, os advogados também pediram à magistrada que determinasse a retirada do atestado do processo, mas as solicitações foram negadas.

Enquanto ocorria essa discussão, Bruno permanecia todo o tempo ao lado da ex-mulher. Ficaram separados apenas por uma cadeira, mas não trocaram nenhuma palavra. A postura de Bruno era bem diferente da de Dayanne (de cabeça erguida). Ela acompanhou o depoimento da delegada Ana Maria, por exemplo, olhando-a fixamente.

Uma das responsáveis pelas investigações, a policial foi a única testemunha ouvida. A maior parte das perguntas feitas pelo promotor foi para confirmar as declarações e as circunstâncias de declarações prestadas no inquérito oficial por um primo de Bruno, Jorge Luiz Rosa. Primeiro a assumir que Eliza foi assassinada em 2010, o rapaz estava com 17 anos. Hoje com 19, foi arrolado como testemunha por acusação e defesa, mas não apareceu.

Já a defesa de Bruno tentou principalmente mostrar contradições nas declarações da delegada e falhas na apuração do caso, como o fato de o ex-policial civil José de Assis Filho, o Zezé, ter sido investigado e deixado de lado na conclusão do inquérito. Por determinação do MPE e da Corregedoria-Geral da Polícia Civil, uma "investigação suplementar" está em curso para apurar a possibilidade de participação de Zezé e de outro ex-policial, Gilson Costa, no crime. Costa já é réu ao lado de Bola em outro processo, no qual são acusados de matar e sumir com os corpos de dois homens.

Recurso. A defesa de Bruno havia arrolado cinco testemunhas, mas como duas não compareceram optou por dispensar as demais e se fixar "nas contradições" dos depoimentos de acusação. No caso do primo de Bruno, não é possível nem mesmo pedir que a polícia busque o rapaz, pois ele mora em outra cidade e, mesmo intimado, não é obrigado a comparecer ao julgamento.

A defesa ainda deve ouvir uma testemunha de Dayanne e vai insistir na tese de que Eliza não morreu. "Por isso, pedimos a retirada do atestado de óbito. E possivelmente vamos recorrer depois", observou Lenoir.

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