Casas interditadas na zona sul são saqueadas

Famílias retiradas de casas em área de risco também reclamam de alta de aluguéis no bairro; segundo moradores, Prefeitura promete auxílio

BRUNO RIBEIRO, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2014 | 02h03

Moradores de parte das 208 casas interditadas pela Defesa Civil na noite de anteontem na Favela Erundina, no Jardim Ibirapuera, zona sul de São Paulo, relatam saques aos imóveis abandonados e uma explosão no valor dos alugueis ao redor da área atingida, seguindo a demanda causada pelas remoções. O coordenador da Defesa, coronel Jair Paca de Lima, afirma que mais imóveis podem ser condenados hoje.

As casas fazem parte de uma favela que vem sendo construída há 20 anos em um morro perto da Avenida Guido Caloi. Por toda parte, as casas e o piso das vielas apresentam rachaduras, algumas largas o suficiente para caber um braço. Ainda ontem, era possível ouvir estalos do concreto trincando.

As rachaduras começaram surgir no sábado passado, segundo a garçonete Raimunda dos Santos Gama, de 34 anos. "A Prefeitura veio e interditou todas as casas. Eles prometeram auxílio-aluguel mas, por enquanto, está só na promessa."

A perspectiva de que as 208 famílias passem a contar com o auxílio de até R$ 400 fez com que o preço dos aluguéis na região subisse até 250% entre a manhã e a tarde de um mesmo dia. "Vi um cômodo para alugar por R$ 200 na quarta-feira de manhã, ainda antes da desocupação. No mesmo dia, à tarde, já estava custando R$ 700", conta a dona de casa Elisabety Gomes Martins.

Saques. Se de um lado a barreira econômica imposta pelos aluguéis dificulta a saída das famílias, o medo de furtos estimula os moradores a ficar nas áreas já condenadas. Segundo eles, uma série de casas desocupadas foi invadida. Foram roubadas torneiras, chuveiros e até portas e janelas. Por isso, algumas famílias se recusam a sair.

"Não vou sair daqui. Na gestão da Marta (Suplicy, entre 2000 e 2004), consegui um papel para garantir minha permanência. Tenho construído a casa desde então, conforme consigo. Não dá para deixar esses anos de esforço para trás", afirma o vendedor ambulante Arlindo Severino da Silva, de 68 anos, que continua dormindo em sua casa, ignorando as rachaduras visíveis nas vigas do sobrado em divide com a ex-mulher.

Para os moradores, a causa das rachaduras são obras de saneamento executadas pela Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp). Eles dizem que casas com ligações clandestinas vêm sendo regularizadas desde o começo do ano, mas que as tubulações antigas não foram fechadas adequadamente, encharcando o solo. A reportagem procurou a empresa, mas ninguém atendeu os telefonemas.

A Defesa Civil diz que essa é uma hipótese que não pode ser descartada, mas afirma, entretanto, que há outros fatores na comunidade que são de alto risco. "A moradias não respeitaram nenhum cálculo de engenharia. A pessoa constrói uma casa e vende a laje para outra pessoa. Esse segundo vende a laje também. Isso resulta em construções muito pesadas. E esse solo tem muitas minas de água", afirma o coronel Lima.

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