Leo Martins/Estadão
Leo Martins/Estadão

Casarão que pertenceu a Rodrigues Alves e sediou o Dops vai a leilão em SP

Fechado há 15 anos, o imóvel é uma das 25 propriedades do INSS que serão leiloadas nesta quarta-feira, 19; espaço foi carceragem do mafioso italiano Francesco Toscanino e do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - O quinto presidente do Brasil, um mafioso napolitano e um juiz condenado estão entre aqueles que já viveram na Rua Piauí, 527, em Higienópolis. Hoje fora dos holofotes, o casarão centenário enfrenta umidade e falta de restauro, mas mantém indícios do período em que foi residência de classes abastadas e endereço da Polícia Federal na região central da cidade de São Paulo.

Fechado há 15 anos, o imóvel de art nouveau é uma das 26 propriedades do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) que foram leiloadas nesta quarta-feira, 19. Ele foi arrematado por R$ 26 milhões.

Embora tenha sido casa do ex-presidente Rodrigues Alves, passou a maior parte do tempo ocupada pela Polícia Federal, entre 1965 e 2003, abrigando atividades da Divisão de Ordem Política e Social (Dops). Ali recebeu opositores da ditadura militar. Anos depois, foi a carceragem de um dos líderes da Camorra, Francesco Toscanino, e, também, do ex-juiz Nicolau dos Santos Neto – acusado de desvios da Justiça Trabalhista. 

Teve o destino discutido várias vezes. Em 1990, foi vendido para uma construtora, o que acabou barrado na Justiça. Depois, chegou a ser especulado como museu e atraiu interesse da Polícia Militar. Em 2015, foi publicada uma lei que o incluiu em lista de imóveis repassados à Prefeitura para abater dívidas – que seriam destinados à moradia popular. Com a mudança do Plano Diretor no ano seguinte, contudo, nada foi adiante.

Um laudo técnico da empresa BBC Engenharia, de junho, aponta que o casarão precisa de “reparos simples e importantes”. Ele é tombado desde 2012 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) por ser um “exemplar de moradia abastada do início do século 20”.

Para Nadia Somekh, o imóvel precisa, sobretudo, voltar a ter uso e ter suas características originais restauradas. “Se for público é melhor porque é um bem histórico”, diz a professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e ex-presidente do Conpresp. “Mas o mais importante é não ficar vazio. O vazio não tem restauração.”

O uso comercial foi indicado pelo padrão de casarões da região atualmente, segundo Lucio Gomes Machado, professor da Universidade de São Paulo (USP). Há também a possibilidade de ser utilizado como área de uso comum de um condomínio, por exemplo, como ocorre em um caso no entorno. “Na época que foi construído só tinha casa, Higienópolis era um loteamento residencial de casas”, diz. “O que é triste é que o INSS deixou muito tempo em degradação”, lamenta.

Por nota, o instituto alega fazer “periodicamente” a limpeza do casarão e que seus imóveis não operacionais são destinados à venda para custear o pagamento de benefícios previdenciários. Afirma, ainda, que já publicou aviso para manifestação de interesse de qualquer órgão público, mas que não houve interesse.

Casarão na Rua Marquês de Paranaguá também será leiloado

Também nesta quarta-feira, 19, o INSS leilou o casarão da Rua Marquês de Paranaguá, 124, na Consolação, região central. Tombado desde 1995, teve a situação de abandono denunciada pelo Estado em 1994. Laudo técnico, de maio de 2018, aponta que está com a “conservação ruim, necessitando de reformas importantes”. O lance inicial era de R$ 3,1 milhões. Está desocupado desde 2004 e foi comprado pelo Grupo Protege.

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