WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Casal reconstrói família após morte da filha única no acidente em Congonhas

Thaís Scott, que tinha 14 anos, pedia um irmão; depois da tragédia, pais tiveram gêmeos: 'não queríamos ser uma família de dois. Seria impossível suportar'

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S. Paulo

09 Julho 2017 | 03h00

Não foram poucas as vezes em que Dario e Ana Silvia Scott, professores em São Leopoldo (RS), escutaram de Thaís, sua única filha, a mesma intimação: “Vocês não vão me dar um irmão, não? Nunca vou ser tia?”, dizia a menina de 14 anos, enfatizando que “daqui a pouco eu saio de casa, e aí?”. Os pais desconversavam, Thaís insistia: “Quando vier, eu cuido do bebê!”

A conversa familiar, levada meio a sério, meio brincando - o casal considerava, ainda sem convicção -, retornou no momento mais triste que eles já viveram. Olhando agora, Dario diz não entender como não enlouqueceu ao saber que a filha estava mesmo dentro do avião que ardia em chamas em Congonhas, como via pela TV.

Naquela mesma noite, no meio daquele inferno, falaram do pedido de Thaís. “Decidimos naquela madrugada que não queríamos ser uma família de dois. Seria impossível suportar”, relembra Dario, em uma conversa em um café na Unicamp, em Campinas, onde ele faz um doutorado. “A vida que tivemos com a Thaís foi muito boa e ela faz muita falta. Todos os dias sinto isso. Mas infelizmente acabava ali. E era uma perda muito grande para enfrentar sozinhos.”

O casal estava na faixa dos 50 e, durante um tempo, repensou. Ana entregou-se ao trabalho, e virava noites; Dario dedicou-se à criação da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Voo JJ 3054 da TAM (Afavitam), que preside até hoje. Mas o vazio continuava. “Para recuperar o sentido, só voltando a ser uma família nuclear, pai e mãe que passam aos filhos uma experiência de vida”, diz Dario. “Falamos em adoção, mas queríamos tentar de forma natural. Tivemos sorte.” Dois anos e um tratamento em Porto Alegre depois, em 2009, veio a notícia - seriam gêmeos.

“Pronto! E agora, a gente vai ter energia, depois dos 50, para tudo de novo?”, relembra Dario. Nesse momento do relato, o pai lembra da chegada de Thaís - a novidade que foi a gestação de Ana Sílvia, a vida de estudos que o casal levava na Itália, a volta ao Brasil para que a menina, primeira neta dos dois lados da família, nascesse por perto. “Vamos lá, de novo, agora!”

O temor de que o estresse da perda pudesse levar a uma gravidez difícil não se concretizou, e a gravidez foi tranquila. Em agosto de 2010 nasceram Tomás e Anna Beatriz, 6 anos hoje, ingressando no primeiro ano do fundamental. “O Tomás é bem maior que a Anna, uns 15 centímetros a mais, ninguém diz que são gêmeos! E cada um tem uma personalidade muito própria.” Dario reforça as diferenças para dizer o óbvio: um filho nunca substitui o outro. “A gente fala que tivemos três filhos, bem diferentes um do outro. Respeitamos as singularidades, cada um é um.”

Apesar da pouca idade, os gêmeos sabem do que aconteceu com a irmã. “Não queríamos criar um tabu. Já pensou o baque, aos 10, 12 anos descobrir que tinha uma irmã que morreu em um acidente de avião?”, explica Dario. A família com as crianças não deixou de viajar de avião - só não por Congonhas. “Congonhas só para fazer manifestação. Sinto culpa por ter comprado a passagem para minha filha por lá, mas quem diria que haveria risco extremo? A gente aprende que voar é seguro, e não que uma série de irresponsabilidades vai derrubar o avião com sua filha dentro.”

A ideia de criar uma associação para acompanhar a investigação e lutar por segurança aérea surgiu dias depois do desastre. Como Dario resume, “foi por um desejo desesperado de saber o que aconteceu com os nossos filhos, parentes e amigos”. Hoje, dez anos depois, ele não sente que se fez justiça. “TAM, Airbus, Anac, Infraero, por participação ou omissão, deixaram o tráfego aéreo em risco no Brasil naqueles dias, e isso culminou no acidente. Como pode ninguém ser penalizado criminalmente por isso? Depois dessa decisão de segunda instância (que absolveu três denunciados pelo acidente, em 12 de junho), a sensação que fica é de total impunidade. Um desrespeito a quem se foi e também aos que ficam.”

É uma sensação amarga para quem, durante uma década, lidou com a memória da filha dentro de casa - durante anos, a dor os levou a esvaziar todos os porta-retratos - e fora, na direção da Afavitam. “Foram tantos desgostos que a vontade agora é esquecer essas autoridades e preservar as boas lembranças com minha filha.”

Uma memória que é preservada, também, fisicamente, na chácara em Valinhos, a 15 quilômetros de Campinas, onde vivem Dario, Ana Silvia e as crianças. No corredor que liga a área da sala e cozinha ao espaço dos quartos, há o que Dario chamou de “Galeria Thaís Scott”. São 11 quadros que a menina fizera em suas aulas de pintura. Retratara duas amigas do colégio - “hoje perdemos um pouco o contato; é duro, já estudaram, se formaram, algumas se casaram...” -, pintara um dos sapinhos que tanto adorava, imaginara um castelo em que viviam três fadas. A menina queria ser designer, e os pais brincavam que ela herdara a “veia artística” de um integrante ilustre da família, o pintor Alfredo Volpi, tio-avô de Ana Sílvia.

Nos velhos hábitos dos quartos da casa, Thaís também está presente. “Ela tinha 14 anos quando morreu e ainda gostava que eu contasse histórias. Nisso eles são parecidos, a Anna Beatriz e o Tomás adoram.” Entre as duas camas dos gêmeos há um desenho da irmã mais velha, feito quando ela era muito criança - e o nome “Thaís”, em letras coloridas, a acompanhar a rotina dos novos irmãos.

 

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