Casal morre em incêndio sob viaduto e deixa bebê de 20 dias

Gerinaldo da Silva Santos não viu quando o fogo começou na noite de anteontem sob o Viaduto Almirante Delamare, em Heliópolis, na zona sul. Também não ouviu os gritos dos seus amigos Erica e Jacaré. O casal de namorados dormia no vão estreito, fechado por grades, e não conseguiu fugir quando a fogueira acesa para espantar o frio de 7°C se alastrou corredor adentro.

Crônica: Nataly Costa, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2010 | 00h00

Os moradores do condomínio na frente do viaduto viram o clarão e desceram para tentar apagar o fogo com baldes d"água. Os bombeiros demoraram 20 minutos para chegar. Os gritos de socorro do casal ainda ecoam na cabeça dos vizinhos Marcelo Silva e Júlio César Moreira, que não conheciam Erica e Jacaré pelo nome, mas sim como um rapaz negro e uma moça que estava grávida até poucos dias antes de morrer carbonizada.

Gerinaldo conhecia os dois. Há alguns meses, vinha tentando tirar os amigos dali. Estava quase convencendo Jacaré a largar o vício em crack e ir para a igreja. Com Erica, era mais difícil: ela quase nunca estava lúcida para conversar. Tinha casa, mas preferia o viaduto. Jacaré também já teve casa - e mulher e duas filhas -, mas queria mesmo era ficar com Erica no viaduto.

Na noite de 30 de julho, Gerinaldo encontrou Erica, oito meses de gravidez, entrando em trabalho de parto na calçada de sua casa. Esses gritos, ele ouviu. Viu a mulher estendida na calçada e chamou uma ambulância, que não veio. Pegou dinheiro para o táxi, que não passou. Uma viatura da PM fazia ronda por ali e levou os dois - àquela altura, quase três - para o Hospital Ipiranga.

Moisés, que hoje completa 20 dias de vida, não é filho de Erica com Jacaré - ele, embora quisesse assumir a paternidade, não tinha documentos para registrar o menino. Com cama, berço e armário ganhos numa doação, Gerinaldo pediu para criar o filho do amigo. Não recebeu carta branca, mas Jacaré garantiu que levaria Gerinaldo para brincar com o garoto, que hoje está na casa da avó, mãe de Erica. Gerinaldo passou a tarde inteira de ontem procurando esse endereço, mas não achou. Não sabe mais onde está o bebê.

Erica e Jacaré foram registrados como desconhecidos no boletim de ocorrência do incêndio. Seus corpos ainda aguardavam ontem reconhecimento no Instituto Médico-Legal (IML).

É REPÓRTER DO "METRÓPOLE"

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