CASAIS QUE NÃO TÊM MEDO DO ROMANTISMO

Histórias de gente que se conheceu no ônibus ou se reencontrou por acaso - e nunca mais se desgrudou

MARINA AZAREDO, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2013 | 02h02

Já houve quem cantasse que "não existe amor em SP". Há quem diga também que a cidade é fria, as pessoas são superficiais e que falta romantismo por aqui. Porém, em uma quinta-feira de outubro, o designer gráfico Rodrigo Alves, de 32 anos, saiu de casa às 8h30 para fazer um pedido de casamento pouco usual, um tanto hollywoodiano e capaz de abalar até os mais céticos no amor.

Ele comprou 20 quilos de cal, passou em uma floricultura, pediu ajuda a um funcionário para carregar as flores que havia acabado de comprar e foi para o estacionamento do Núcleo de Controle de Zoonoses da Rua dos Trilhos, na Mooca. Lá, despejou a cal sobre o asfalto e, num trabalho que durou uma hora, escreveu uma mensagem em letras garrafais: "Minha princesa Vanessa, quer casar comigo? Te amo".

Vanessa mora no prédio na frente do estacionamento e, ao ser levada até a sacada pelo namorado e ler a mensagem, não conseguiu dizer nada além de "sim". "Fiquei totalmente sem palavras", contou ela no dia seguinte ao pedido.

Vanessa e Alves namoraram na adolescência e, depois de 11 anos separados, alguns relacionamentos e quase nenhum contato, reencontraram-se há dois meses. "Ela curtiu uma foto minha no Instagram e começamos a conversar de novo", contou ele. O casamento está marcado para maio. "Não consigo nem pensar na ideia de perder a Vanessa de novo", disse Alves.

História parecida têm a chef Tatá Cury e artista plástico Guilherme London, ambos de 57 anos - mas, no caso deles, o tempo foi ainda mais longo.

Os dois se conheceram no Colégio Stella Maris, em Pinheiros, e namoraram na adolescência, mas seguiram rumos diferentes na vida. Tiveram outros relacionamentos, filhos e nada souberam um da vida do outro durante 28 anos. "Mas eu nunca esqueci o Guilherme, sempre me perguntava por que não tínhamos nos casado. Talvez naquela época nem tivesse dado certo, mas ele nunca saiu da minha cabeça", conta ela.

Até que, tanto tempo depois, a irmã de Tatá encontrou London em um restaurante e descobriu que ele estava separado havia seis anos. Tatá estava havia dois. Sabendo que a irmã nunca esquecera o amor da juventude, tramou com os sobrinhos um reencontro dos dois. Não deu outra: Tatá e London estão juntos há 13 anos. "Moramos separados, mas tomamos café da manhã juntos todos os dias", conta a chef, que ainda quer dar uma festa de casamento "com 700 mesas".

Neide e Vicente Pavani também têm uma longa história de amor: são 55 anos - e sem idas e vindas. O casal se conheceu na quermesse da Vila Ré, zona leste da capital, em 1958. "Eu tinha 16 e ele, 22. Ele passou carregando uma boneca. Achei tão bonitinha que pedi para ele. Depois, combinamos de ir ao cinema assistir a um filme do Mario Lanza (ator americano) no antigo Cine Júpiter, na Penha. Ele nem fazia o meu tipo, eu gostava de altos e ele é baixinho, mas ele era tão bonzinho que acabamos namorando. Sei que outro igual não encontro", diz.

Depois daquele cinema, o casal nunca mais se desgrudou: hoje são dois filhos, cinco netos e dois bisnetos.

Ônibus. A gerente de Marketing Paula Cardoso, de 29 anos, e o estudante Gregório Chiecchi, de 23, planejam o casamento para 2014 e esperam ter uma história duradoura como a de Neide e Vicente. O casal se conheceu no ônibus, na linha 669A-10, há três anos. "Ele me chamou de 'moça' e aquilo me deixou desconcertada. Percebi que não era mais uma menina e entrei em crise. Acabei um namoro de cinco anos por causa disso", afirma.

Após alguns encontros no ônibus, Paula esqueceu a diferença de idade e cedeu às investidas de Chiecchi.

Marina Gladstone, de 24 anos, e Luís Guilherme Pereira, de 30, já trocaram alianças, mas, antes disso, ela teve de ceder a uma abordagem bastante inusitada. Entrevistada pelo Estado em reportagem publicada em fevereiro do ano passado sobre estudantes de direita da Universidade de São Paulo (USP), ela atraiu a atenção do então estudante da Unicamp, que a adicionou nas redes sociais, interessado em saber mais sobre a sua posição política.

A amizade virtual foi além. "Logo começamos a namorar e, em uns dois meses, decidimos que queríamos ficar juntos e noivamos", diz Marina. Hoje vivem no Rio.

Para os céticos, o psicólogo especialista em relacionamentos Thiago de Almeida tem a resposta. "São Paulo é uma grande festa, com muita gente e inúmeras possibilidades. É claro que isso aumenta a chance de fracasso, mas também torna mais fácil a busca por um amor", diz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.