Casa Tody, a mais antiga da Augusta

Tradicional sapataria, que completa 60 anos, é um retrato da velha rua que não existe mais

EDISON VEIGA, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2013 | 02h05

A rua mudou muito. Já teve bondes, já teve paralelepípedos, já teve altos e baixos, já foi reduto de playboys. O que não mudou é a Casa Tody. Sem jamais sair da Rua Augusta, mantendo o mesmo estilo de sempre - funcionários engravatados, caixas empilhadas, tão vintage, alheia ao corre-corre do lado de fora -, a loja completa neste mês 60 anos. É a mais antiga em funcionamento na Augusta.

Tudo começou com a família húngara Frank, cujos primeiros representantes vieram ao Brasil no início do século 20. Em 1947, depois do pesadelo da 2.ª Guerra Mundial, Elizabeth veio de Budapeste para São Paulo, para visitar a irmã. Encantou-se pelas possibilidades de reconstruir a vida aqui. Dois anos depois, se mudou em definitivo com o marido Miklos, o filho André, a nora Marianna e a neta Katy - que depois passou a assinar Katy Borger.

"Tentaram continuar aqui o que faziam na Hungria: produzir vinhos", diz Katy. "Traziam uvas do Sul e faziam a bebida em São Paulo." Mas a Frank Ind. de Bebidas Ltda. não deu muito certo.

Em 1953, tiveram a ideia de abrir uma sapataria. "Eram minha avó e minha mãe no caixa, meu pai e meu avô lá em cima, cuidando do estoque", recorda-se Katy, que, como ela mesmo diz, foi "criada" no meio daqueles sapatos. "No começo, era só sapato de criança", afirma. Em um tempo em que o uniforme escolar obrigava sapatos pretos de couro, não demorou para a Tody arrebanhar a clientela cativa dos familiares de estudantes de colégios tradicionais.

"Naquela época, a Augusta não tinha esse comércio todo. Era um centro que estava nascendo", relembra Katy, hoje com 66 anos, que administra a loja desde março - o pai, André, morreu sexta-feira, aos 92 anos.

Outro tipo de vandalismo. Ali, diante do número 2.709, ela e a família viram transformações. Katy recorda-se de algumas passagens com nostalgia. Em 1973, por exemplo, por iniciativa dos comerciantes, a Rua Augusta foi coberta com carpetes. "Os lojistas queriam fazer uma coisa chique, para combinar com o auge que a Augusta vivia", explica. "Qual o quê... A primeira chuva foi aquela catástrofe. Por um bom tempo, pedaços do carpete podiam ser vistos ao longo da rua." Ela também se recorda da euforia que foi quando a novidade dos ônibus elétricos chegou à região, então habituada aos bondes. "Passavam o 51 e o 50. Um ia para a Vila Buarque e centro; o outro para a região do Shopping Iguatemi", diz.

"E os trilhos de bonde ficaram na rua muito tempo depois de eles terem sido extintos", cita. "Aí, nos anos 60, os playboys jogavam gasolina lá de cima e depois tocavam fogo, à noite. Ficava até bonito. Era um outro tipo de vandalismo."

Mais antigo dos oito funcionários da Casa Tody, Israel Pereira Lessa, de 56 anos, viveu todas essas transformações. Começou na loja aos 20 anos, como vendedor. Hoje é gerente, homem de confiança da família Frank. "Foi meu segundo emprego. Antes, havia trabalhado com faxineiro no (clube) Paulistano", lembra. Ele foi um dos que se mostraram resistentes quando, anos atrás, em uma tentativa de "modernizar" o visual, os proprietários cogitaram abolir as gravatas dos funcionários. "Eles falaram: 'não tem jeito, a gente é de gravata'", recorda-se Katy.

Israel só não gosta muito de lembrar o período entre o fim dos anos 80 e o começo dos anos 90. "Foi uma fase muito difícil para a Augusta. As calçadas andavam todas ruins, e muitas lojas acabaram fechando. Depois, felizmente, deu uma recuperada", diz.

A Casa Tody - ninguém sabe explicar o motivo do nome - é assim: uma ilha congelada no tempo, um tempo em que os sapatos tinham de ser de couro, em que tênis era só o velho conga, em que não tinha isso de comprar pela internet. "Mas agora a gente até vende pela internet", gaba-se Israel. "As pessoas mandam e-mail ou ligam até de outros Estados. Aí um funcionário sobe lá no estoque e a gente manda pelo correio", comenta Katy.

Entre as relíquias, há um "medidor de pé" - uma régua de madeira onde basta apoiar o pé para saber qual número a pessoa calça. "Invenção do 'seu' André", diz Israel.

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