Casa modernista de 80 anos é restaurada e reabre para exposição

Projetada pelo ucraniano Gregori Warchavchik, reunirá fotografias, desenhos, plantas arquitetônicas e 25 móveis e objetos desenhados pelo arquiteto

Ana Bizzotto, especial para estadão.com.br

25 Março 2010 | 20h08

 

 

SÃO PAULO - Em 1930, época em que as ruas do bairro Pacaembu eram feitas de terra e quase desabitadas, a inauguração de uma casa de linhas retas, fachada branca e concreto armado na rua Itápolis atraiu a atenção do público. Projetada pelo arquiteto ucraniano Gregori Warchavchik, a casa foi aberta com uma exposição de móveis, objetos e obras de modernistas como Tarsila do Amaral e Victor Brecheret. Restaurada pela família Warchavchik, ela reabre para visitação nesta sexta-feira, 26, quando se comemoram 80 anos da mostra original.

 

Além da casa e do jardim restaurados, a exposição Modernista 80 anos reúne fotografias, desenhos, plantas arquitetônicas e 25 móveis e objetos desenhados pelo arquiteto, alguns presentes na mostra de 1930, nomeada Exposição de uma Casa Modernista. Intelectuais e artistas que participaram da Semana de Arte Moderna de 1922, marco da inauguração do movimento no Brasil, estiveram presentes à inauguração da mostra, que recebeu cerca de 20 mil visitantes em 21 dias.

 

"A coisa mais importante desta casa é o pioneirismo. Meu avô trouxe na bagagem uma arquitetura que não se fazia no Brasil, foi o primeiro a usar concreto armado. Queríamos chamar a atenção para os ideais dessa arquitetura em que se pensa na funcionalidade, no despojamento, no morar bem", explica o arquiteto e curador da exposição Carlos Warchavchik, neto de Gregory. "Ele tinha a pretensão de que fosse uma arquitetura universal", conta o neto.

 

A edícola da casa foi escolhida para uma exposição de fotos de autoria do arquiteto. Mas em vez de imagens das casas que ele projetou, a mostra reúne retratos em preto e branco de anônimos e famosos, como Lina Bo Bardi e Lasar Segall. "Tenho um acervo digitalizado com mais de seis mil imagens feitas por ele. A maioria são casas, mas há muitas desses ensaios."

 

Na foto, Carlos Eduardo Warchavchik, neto de Gregori Warchavchik, arquiteto da casa

 

Em 1925, Warchavchik escreveu um manifesto, publicado no Correio da Manhã, que é considerado o primeiro manifesto brasileiro sobre a arquitetura modernista. Em um dos trechos, ele diz que "a nossa arquitetura deve ser apenas racional, deve basear-se apenas na lógica e esta lógica devemos opô-la aos que estão procurando por força imitar na construção algum estilo".

 

Sócio do escritório Piratininga, responsável pela coprodução do evento, o arquiteto José Armênio Cruz ressalta o alinhamento de Warchavchik ao pensamento modernista de 1922. "Ele pensava na sociedade daquela época e em um modelo de casa urbana que poderia ser reproduzido. A casa resgata o caráter transformador e crítico da arquitetura modernista. Nesses 80 anos, aprendemos que os recursos são finitos. É essa discussão que a casa coloca".

 

PARA MORAR. Em vez de restaurar, a ideia inicial do curador era fazer apenas uma manutenção estrutural no imóvel, que ficou alugado por 25 anos. "Comecei a estudar a casa para entender como era antes, ver as modificações que haviam sido feitas. Pensei até em me mudar, mas acabei decidindo restaurar a parte estética e esperar a data dos 80 anos para inaugurar", relata Carlos. "Quis abrir a casa para que as pessoas tenham a chance de conhecê-la e para mostrar como a arquitetura tem a ver com os móveis. Depois da mostra vamos alugá-la de novo."

 

A designer Dulce Horta, que viveu no imóvel por 25 anos, sabia da importância histórica do local antes de se mudar. "É uma casa deliciosa, em que se usa cada pedaço. Ela tem um despojamento e ao mesmo tempo um aconchego, foi muito interessante e gostoso morar ali."

 

Reprodução de fotos da Casa modernista. Foto: José Luis da Conceição/AE

 

Partindo da ideia da exposição, a organização elaborou uma enquete para discutir os caminhos da arquitetura. Existe na arquitetura e no urbanismo de hoje o mesmo potencial de transformação como houve há 80 anos? As respostas a essa pergunta, feita a 27 artistas, professores, historiadores e arquitetos, serão exibidas em vídeos transmitidos na Casa Modernista e no blog.

 

Para o arquiteto Arthur Casas, há hoje um potencial transformador na arquitetura, mas não mais de um movimento único, como naquela época. "A elite cultural do mundo não fala mais a mesma língua. Há várias pessoas talentosas trabalhando em coisas completamente diferentes", avalia Casas, que considera a casa da rua Itápolis uma referência. "Vários arquitetos se inspiraram nas primeiras casas projetadas por Warchavchik. A arquitetura no Brasil passou a ter uma cara mais moderna a partir desse grupo."

 

MOSTRA PARALELA. A obra de Gregory Warchavchik também está em exposição no Museu da Casa Brasileira (MCB). Com curadoria da arquiteta Ilda Castelo Branco, a exposição reúne fotografias, artigos de jornal, catálogo original da exposição de 1930 na rua Itápolis e duas maquetes cedidas pela Pinacoteca do Estado. Uma retrata a primeira casa construída pelo arquiteto, na rua Santa Cruz, bairro Vila Mariana,na zona sul. A outra retrata a sala de estar da casa da rua Itápolis, com móveis e obras da época da inauguração.

 

Para Ilda, a casa foi a pioneira da arquitetura moderna no País e também ápice da carreira do arquiteto. "Warchavchik defendia que o homem tem de acompanhar a arte do seu tempo. A casa é uma síntese de tudo o que ele aprendeu das várias tendências internacionais. Foi o mais importante acontecimento cultural, social e artístico da época depois da Semana de 1922", afirma a arquiteta, que estuda a obra de Warchavchik desde 1984.

 

Além da exposição, o museu vai organizar aos sábados e domingos visitas guiadas à Casa Modernista da rua Itápolis. As visitas fazem parte do projeto Roteiros de Arquitetura. Os visitantes conhecerão a mostra do museu e seguirão de van até a casa, acompanhados por monitores.

 

SERVIÇO

 

Casa Modernista

R. Itápolis, 961, Pacaembu, tel. 3661-5066.

Exposição: de 26/3 a 21/4. Qua. a sex.: 13h às 18h. Sáb. dom. e fer.: 10h às 18h. Grátis.

 

Museu da Casa Brasileira

Av. Faria Lima, 2.705, Jardim Paulistano, tel. 3032- 5066.

Exposição: 23/3 a 18/4. Ter. a dom.: 10h às 18h. Ingr. R$ 4.(Dom. e fer.: grátis). Visitas monitoradas à Casa Modernista podem ser agendadas no tel. 3032-2564. Sáb.: 10h, 11h, 14h e 15h. Dom.: 14h e 15h. Grátis.

 

OUTRAS CASAS MODERNISTAS

 

A casa da rua Itápolis é tombada pelos órgão do patrimônio histórico municipal, estadual e federal. Outros dois projetos de Gregori Warchavchik em São Paulo são reconhecidos pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional como patrimônio:

 

Casa Rua Santa Cruz

Construída em 1927, na Vila Mariana, a casa é reconhecida como primeira obra de arquitetura moderna do país

R. Santa Cruz, 325, Vila Mariana, tel. 5083-3232. Ter. a dom.: 9h às 17h.

 

Casa Rua Bahia

Projetado em 1930, o imóvel abriga hoje um escritório de design

R. Bahia, 1.126, Pacaembu, tel. 3663-4975. Visitas podem ser agendadas.

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