Casa histórica é demolida na cracolândia

Imóvel derrubado pela Prefeitura estava em processo de tombamento pelo Conpresp e não poderia ser destruído sem autorização

WILLIAM CARDOSO, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2012 | 03h00

A Prefeitura de São Paulo demoliu, na semana passada, parte de um casarão que estava em processo de tombamento na cracolândia, na região central. Restou apenas a fachada do imóvel no número 118 da Alameda Dino Bueno, que servia de abrigo para traficantes e usuários de crack até o início da Operação Centro Legal.

Segundo a Prefeitura, o Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) autorizou a demolição parcial, mas não foi apresentado um registro do aval. Também nada consta nas atas das reuniões do órgão. A reportagem ainda pediu para a Assessoria de Imprensa da Prefeitura enviar alguma comprovação da autorização do Conpresp, mas não havia documentação alguma até a noite de ontem.

O casarão da Dino Bueno estava em processo de tombamento desde 1992 - isso significa que o endereço estava "congelado", protegido pela legislação do patrimônio histórico municipal. Na edição de quarta do Diário Oficial da Cidade, despacho do prefeito Gilberto Kassab (PSD) determinou que fossem "adotadas providências para o escoramento de sua fachada, de modo a evitar desmoronamento e preservação do que dele resta". Segundo a Secretaria de Coordenação de Subprefeituras, o prédio já estava em situação bastante precária e oferecia riscos à saúde e à segurança da população. Os operários gastaram oito horas para fazer a demolição, deixando livre apenas a fachada.

A Prefeitura disse que as paredes estavam cheias de buracos e eram escoradas por entulho. Foram removidas 128 toneladas de lixo do imóvel, logo após a ocupação policial na região.

O relatório técnico da Subprefeitura da Sé, de 16 de janeiro, indicou que o imóvel estava "totalmente destelhado" e o que sobrou de paredes estava "desmoronando, com riscos à vizinhança". Também apontou que o local "já foi alvo de incêndio e demolições irregulares";

Segundo vizinhos, o casarão serviu durante muitos anos como o Hotel Rio Jordão. Com 62 quartos, era considerado um dos melhores no entorno da antiga Rodoviária da capital. Há cerca de dois anos, foi ocupado por usuários de droga e entrou em processo de decadência.

O entulho acumulado no interior do prédio durante esse período foi o resultado da "garimpagem" feita pelos dependentes em toda a sucata que encontravam pelas ruas da capital. Eles descartavam dentro do próprio imóvel o que não tinha valor. Na última sexta-feira, caminhões e máquinas da Prefeitura ainda eram usados na remoção.

Outros 15 imóveis do entorno também estão em processo de tombamento. Segundo a Coordenação das Subprefeituras, não estão previstas novas demolições por enquanto.

Lendas. O terreno do casarão também foi alvo de lendas urbanas, que chegaram a mobilizar inclusive a Polícia Civil. Ainda no fim de dezembro, depois de receberem denúncias da população, investigadores foram até o local para checar se, de fato, havia um cemitério clandestino por lá.

Corpos de usuários que morriam consumindo pedras de crack no local supostamente eram jogados em meio ao lixo, para não despertar a atenção das autoridades. Depois de entrar no casarão, policiais encontraram muito entulho e um osso, possivelmente de algum animal - foi enviado para a perícia.

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