WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Fortes chuvas causam mortes na Grande SP e rodízio é suspenso na capital paulista

Pelo menos 12 pessoas morreram, quatro delas em Ribeirão Pires; rodízio está suspenso na capital

Redação, O Estado de S. Paulo

11 de março de 2019 | 01h54
Atualizado 12 de março de 2019 | 00h27

SÃO PAULO - As fortes chuvas que atingiram a cidade de São Paulo e o Grande ABC na noite de domingo e na madrugada desta segunda-feira, 11, causaram diversos transtornos. Na tarde desta segunda, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) confirmou 12 mortes em decorrência do temporal. Além dos mortos, há ainda cinco feridos.

Somente em Ribeirão Pires, na região metropolitana de São Paulo, foram registrados quatro mortes e dois feridos no desabamento de uma casa após deslizamento de terra. As outras mortes foram registradas em São Caetano (3), Santo André (2), Embu das Artes (1), São Bernardo (1) e São Paulo (1). 

Na Avenida do Estado, na divisa entre São Paulo e São Caetano do Sul, quatro pessoas foram arrastadas pela enxurrada, de acordo com a Defesa Civil. Outras 12 pessoas foram resgatadas na capital paulista pelo Corpo de Bombeiros, sendo quatro mulheres e 8 crianças.

Com o transbordamento do Rio Tamanduateí, a situação na região do Ipiranga, na zona sul, era a mais crítica. A área estava em estado de alerta desde as 20h40 deste domingo. Ao meio-dia desta segunda, o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) informou o fim do estado de atenção no Ipiranga. As Marginais do Pinheiros e do Tietê ficaram travadas em diversos pontos e os motoristas saíram dos veículos enquanto aguardavam o trânsito melhorar.

Em São Bernardo do Campo, um motociclista morreu afogado. Foram registrados na cidade alagamentos e quedas de árvore. Um deslizamento em Embu das Artes teve três vítimas socorridas - sendo uma delas uma criança que morreu no hospital. Santo André teve uma vítima de afogamento e muitos alagamentos. São Caetano do Sul também sofreu com muitos pontos de alagamento. 

Ipiranga

Além da região metropolitana, na capital a situação mais crítica se deu no Ipiranga, bairro da zona sul. O bairro ficou em estado de alerta entre as 20 horas deste domingo e o meio-dia de segunda. O Córrego do Ipiranga, o Ribeirão dos Meninos e o Rio Tamanduateí transbordaram.

Em São Paulo, no Parque São Rafael, divisa com o ABC paulista, um deslizamento de terra deixou uma mãe e duas crianças feridas. Uma das menores estava em estado grave e recebia atendimento em um pronto-socorro em Sapopemba, de acordo com o Corpo de Bombeiros.

Somente na capital, entre meia-noite e 19h40 desta segunda, os bombeiros receberam 129 acionamentos de quedas de árvore, 173 chamados sobre desmoronamentos e desabamentos e 863 ocorrências de enchentes e alagamentos.  Segundo o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), foram registrados ao longo do dia 58 pontos de alagamento na cidade. 

A Prefeitura de São Paulo convocou às pressas uma coletiva de imprensa sem a participação do prefeito Bruno Covas (PSDB), que estava de licença por motivos pessoais. No lugar dele, como prefeito em exercício, está o vereador e presidente da Câmara Municipal Eduardo Tuma.

Com o transbordamento do Rio Tamanduateí, pelo menos dois muros desabaram na Avenida do Estado, que acumula também lixo e lama. Moradores chegaram a pescar um peixe no local. 

Moradores da Rua Manifesto, no Ipiranga, que é paralela à Avenida do Estado, não conseguiam contabilizar os prejuízos na manhã desta segunda. A rua ficou inundada e moradores precisaram ser resgatados com um bote pelos bombeiros. Durante esta manhã, eles tiravam a lama de dentro de casa e jogavam os móveis que ficaram destruídos.

"Moro aqui desde 2006 e nunca passei por nada nesse nível. Perdi rack, poltrona, cadeira, cama. A geladeira e a máquina de lavar estão tombadas e nem sei se estão funcionando", diz a dona de casa Daniela Simões dos Reis, de 38 anos.

Ela chora ao se lembrar de como foi o resgate. "Meu marido saiu do trabalho e não conseguia chegar em casa. Estava com a minha mãe, que é cadeirante, meu filho de 9 anos e a cachorra. Fiquei desesperada, gritando. Quando saímos, a água já estava no pescoço."

Em um condomínio na mesma rua, carros que estavam em dois andares de garagem foram cobertos pela água. Moradores estimam que havia cerca de 150 veículos no local. Condôminos tentavam drenar a água.

"Meu carro está embaixo d'água. Não consegui levar minha filha na escola nem ir para o trabalho", diz a fisioterapeuta Fernanda Cristófaro, de 40 anos.

Moradora do condomínio, a professora Paula Aurelice Ramos de Oliveira, de 30 anos, disse que a água invadiu os andares de garagem pelas escadas e pela rampa de um prédio anexo onde outros veículos ficam estacionados. O prédio onde ela mora, de 21 andares com quatro apartamentos em cada um, foi evacuado no início da tarde. Uma mangueira foi colocada na rampa da garagem na tentativa de drenar a água. 

Segundo Paula, bombeiros identificaram o vazamento de uma substância. Moradores devem ficar fora de seus apartamentos por pelo menos dois dias. "A orientação foi que as pessoas procurassem casas de parentes ou amigos", conta Paula, que se abrigou na casa da mãe, a poucas quadras do prédio onde mora. 

"Muita gente ficou em casa e não foi trabalhar. Todo mundo está preocupado com os veículos. Em um andar, a água invadiu e inundou completamente. Em outro, só dá para ver o rack, o suporte no teto do carro", conta. "Vários alarmes dispararam a noite inteira. Ninguém sabe se vai ser o caso de acionar o seguro ou não. O pior é que o documento do meu carro ficou lá dentro. Menos mal que não tinha mais coisa."

Galhos e lama invadiram o jardim do prédio, além da portaria. Paula acordou às 4h30 com gritos de socorro dos vizinhos da casa de baixo, que pediam ajuda para sair. Ela viu quando os bombeiros chegaram em um bote e resgataram quatro pessoas. "Nunca vi nada que fosse tão assustador. A rua e o rio viraram uma coisa só. Conforme a água foi baixando durante a manhã, foram surgindo carros que haviam ficado completamente submersos", diz.

Rodízio e zona azul suspensos

A Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) suspendeu o rodízio e a zona azul em toda a capital nesta segunda em razão do temporal. Durante a manhã, a cidade chegou a ter 180 km de congestionamento, segundo pior índice do ano, desde de 2 de fevereiro, quando foram registrados 202 km. Mas, no fim da tarde desta segunda, os índices de lentidão ficaram abaixo da média para a cidade. 

O analista de TI André Fernandes, de 32 anos, o analista de Telecom Maurício Cardoso, de 35, e o analista de projetos em TI, Rafael Nunes, de 28, estavam em um veículo fretado e se deslocavam para o trabalho em Alphaville, em Barueri, na região metropolitana. Eles saíram de casa às 6 horas e até as 10 horas só haviam conseguido chegar até a Ponte do Tatuapé, na zona leste, onde ficaram travados em função do engarrafamento na Marginal do Tietê. Eles desceram do fretado e voltaram a pé para casa. 

A professora Naara Santiago, de 37 anos, demorou três horas para fazer o trajeto no Tatuapé ao bairro do Belém, ambos na zona leste da capital. Parada no trânsito na Marginal do Tietê, ela resolveu desligar o motor e ter paciência. "Ficou um caos, porque tinha ambulância e motoqueiros querendo passar. Moro aqui há dez anos e nunca passei por uma situação como essa." Ela chegou na escola onde dá aula por volta das 9h30.

O motorista Weillington Batista, de 36 anos, estacionou os carro que usa para passeio e a van que utiliza para trabalhar na rua onde mora, no Cambuci, região central, na noite deste domingo, 10. Nesta manhã, deparou-se com os dois veículos atingidos pela inundação. "Ontem, quando olhei pela janela, vi que a água estava muito alta, mas não consegui tirar os carros. Esperei a água baixar, mas não teve o que fazer." Os carros não têm seguro e, segundo ele, entrou água no motor da van, que teve a parte elétrica afetada.

A SPTrans informou que a operação dos ônibus ficou prejudicada em razão das fortes chuvas. O Expresso Tiradentes teve sua operação paralisada. Os ônibus de oito linhas não estavam circulando pela Marginal Tietê, abaixo da Ponte das Bandeiras, e faziam desvios pela ruas Voluntários da Pátria, Santa Eulália e pela Avenida Santos Dummont. 

Outro ponto intransitável foi o trecho entre as avenidas Paes de Barros e Luiz Ignacio de Anhaia Mello, por onde passam coletivos de 13 linhas. Alguns ônibus ficaram ilhados na Avenida do Estado e na região de Vila Prudente. A Avenida Sumaré ficou interditada no sentido Turiassu por causa de queda de árvore.

A Linha 10-Turquesa da CPTM ficou paralisada em razão de alagamentos. Na noite desta segunda-feira, a operação estava sendo retomada e, segundo a CPTM, os trens circulavam com velocidade reduzida. 

A Prefeitura informou, na noite desta segunda, que Secretaria de Mobilidade e Transportes avaliaria a necessidade de manter a suspensão do rodízio na primeira hora da manhã de terça-feira, 12. A decisão deverá ser anunciada, a partir das 5 horas desta terça, nas redes sociais da Prefeitura. 

'Não havia ação preventiva que pudesse corrigir o que aconteceu em SP'

Prefeito em exercício de São Paulo, Eduardo Tuma, disse nesta segunda que não havia nada que pudesse ter sido feito antes para evitar a tragédia. "Não havia ação preventiva que pudesse corrigir o que aconteceu. O volume de chuva foi muito maior do que o esperado." Tuma assumiu o comando a cidade nesta segunda-feira, após o prefeito Bruno Covas (PSDB) se licenciar por 15 dias por motivo pessoais.

A prefeitura não informou onde Covas está, mas Tuma destacou diversas vezes que o prefeito "está presente" mesmo licenciado e, de longe, coordena as ações. Questionado se o prefeito pretendia retornar da licença antes do previsto, Tuma não respondeu. Em nota, a Prefeitura informou que Covas reassumirá a Prefeitura nesta terça-feira, 12. 

O coronel José Roberto, secretário de Segurança Urbana, disse que a situação excepcional ocorreu porque o esperado de chuva para todo o mês seria 170 mm, mas o acumulado dos últimos 11 dias já ultrapassa 160mm. "Desde 2006 não tínhamos um volume tão grande de chuva na cidade. E em alguns pontos da cidade, como na Vila Prudente e Ipiranga, o volume foi ainda maior", disse.

Tuma e os secretários insistiram que a prefeitura adotou todas as ações que eram necessárias. Alexandre Modonezi, secretário das subprefeituras, disse que a limpeza de bocas de lobo e galerias estava sendo feita, mas não suportou o volume de água que veio dos rios que transbordaram. "Não era água da rua, mas dos rios", disse. 

Volume de chuva na capital paulista

O Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) registrou volume de 70,9 mm de água nas últimas 24 horas, o que corresponde a 33% do volume esperado para todo mês de março, que é de 177,4mm. O acumulado desde 1º de março até segunda-feira, 11, corresponde a 160,80mm, ou 90% do previsto para o mês. Os índices pluviométricos registrados em regiões específicas superam a média das últimas 24 horas em toda a cidade, com 109,5mm no Jabaquara, na zona sul, 103mm na Vila Prudente, na zona leste, ou 94,6mm³ na Vila Mariana. 

A previsão do tempo para os próximos dias é de pancadas de chuva com possibilidade de momentos de forte intensidade na capital paulista. Segundo o CGE, nesta terça-feira, 12, as pancadas de chuva devem ocorrer principalmente no fim da tarde com a elevação das temperaturas a partir desta terça. O sol virá entre nuvens pela manhã com sensação de tempo abafado, com previsão de mínima de 18ºC e máxima de 27ºC. 

Um temporal deve atingir o litoral norte do Estado. Walter Nyakas, secretário-chefe da Casa Militar e Coordenador da Casa Civil, alertou as cidades da região para chuvas tão intensas quanto a que atingiu São Paulo. "A chuva intensa persiste e segue em direção ao litoral norte, que ontem já teve forte tempestades, com chuvas que atingiram 200mm em alguns municípios", disse.

Grande ABC

No bairro Estância das Rosas, em Ribeirão Pires, na região metropolitana. Seis pessoas estavam em uma casa quando houve o soterramento, por volta da meia-noite.

Duas delas sobreviveram e foram levadas ao hospital (uma mulher de 52 anos e uma menina de 9). Outras quatro (três homens, de 22, 32 e 33 anos, e uma mulher, de 35) morreram no local. Não há identificação oficial dos mortos, que comemoravam um aniversário. Segundo a prefeitura, o imóvel era irregular. 

Em São Bernardo do Campo, a prefeitura decretou estado de calamidade e comunicou a adoção de 14 medidas de emergência, entre as quais a isenção de Imposto Predial Territorial Urbano (IPTU) para imóveis atingidos e vale-refeição e vale-transporte gratuito por 15 dias a moradores afetados pelo temporal. 

O governador de São Paulo João Doria (PSDB) sobrevoou pontos críticos do Estado que foram atingidos pelas chuvas nesta manhã, acompanhado do chefe da Defesa Civil, Coronel Nyakas. 

Rodovias

A pista central sul da Rodovia Anchieta, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, ficou interditada no sentido da Baixada Santista por causa do acúmulo de água. O trecho foi liberado no fim da tarde desta segunda. A Rodovia dos Tamoios (SP-99), principal ligação com o litoral norte de São Paulo, também foi interditada na madrugada desta segunda, 11, por causa do risco de quedas de barreiras.

Conforme a concessionária, por volta de 1h30, foram registrados dois pontos de deslizamentos de encostas no quilômetros 73 e 79 da Tamoios, em consequência das chuvas. As equipes realizavam a limpeza dos locais e o monitoramento das encostas, mas, até as 22 horas, o trecho de serra permanecia interditado. Enquanto o trecho estiver interditado, os usuários terão como opção as rodovias Paulo Rolim Loureiro – a Mogi-Bertioga (SP-125), e a rodovia Oswaldo Cruz (SP-088), que liga Taubaté a Ubatuba.

A rodovia Dr. Manoel Hyppolito Rego, a Rio-Santos (SP55) tinha três pontos de interdição na manhã desta segunda-feira por causa de alagamentos. Na tarde desta segunda, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) liberou o tráfego de veículos, nos dois sentidos, na altura do km 115,8, em São Sebastião. A passagem de veículos está sendo realizada pelo acostamento e por uma faixa de rolamento. Por causa da queda de barreiras, há estreitamento de pista nos quilômetros 94,4, 95, 96,2, 97,8 e 118,4. / FELIPE RAU, ISABELA PALHARES, GILBERTO AMENDOLA, JESSICA OTOBONI, JOSÉ MARIA TOMAZELA, JÚLIA MARQUES, JULIANA DIÓGENES, PAULA FELIX e VIVIANE BITTENCOURT

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