Casa Bandeirista é restaurada no Itaim. Agora, só falta abrir

Encravado em megaempreendimento comercial na Faria Lima, imóvel histórico do século 18 continua fechado para o público

ADRIANA FERRAZ, O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2012 | 03h06

Totalmente restaurada, a Casa Bandeirista do Itaim-Bibi, na zona sul, permanece de portas fechadas. A obra que devolveu os aspectos originais à construção do século 18 terminou em janeiro, mas segue sem uso definido. Tombado pelos órgãos do patrimônio, o imóvel faz parte de um conjunto único da capital: é um dos 12 pertencentes ao estilo sertanista que resistiu ao desenvolvimento de São Paulo. Pelo valor histórico, é alta a expectativa por sua abertura ao público.

Encravada em um dos terrenos mais caros de São Paulo, entre a Avenida Brigadeiro Faria Lima e a Rua Joaquim Floriano, a construção chama a atenção de quem passa pelo endereço. Seu reflexo está estampado nos vidros de um megaempreendimento comercial erguido no terreno. O contraste entre o moderno e o antigo dá charme extra ao projeto de restauro dos arquitetos Alberto de Arruda e Helena Saia.

A dupla iniciou o trabalho em 2007, após um longo processo de pesquisa. Foi ele que permitiu, por exemplo, a recuperação do telhado, com a mesma estrutura de madeira feita na época e as telhas originais, em tamanho maior que o padrão atual.

O restauro foi definido ainda durante o processo de tombamento do imóvel, em 1982. Por determinação do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado (Condephaat), quem comprasse o terreno teria de se responsabilizar pelo serviço. Desse modo, coube à Brookfield Incorporações e ao Grupo Victor Malzoni, dono do empreendimento, a realização do projeto. A legislação, porém, não deixa claro qual uso deve ser dado à casa após sua reforma.

Para a arquiteta e urbanista Pérola Felipette Brocaneli, essa brecha precisa ser corrigida. "Não há como obrigar que um bem particular tombado pelos órgãos públicos seja aberto ao público em geral. A legislação carece de diretrizes nesse sentido e também de incentivos que proporcionem essa possibilidade", afirma.

O Grupo Victor Malzoni não informou que utilização dará ao espaço, mas urbanistas acreditam que o anúncio é apenas questão de tempo. Para o arquiteto Ruy Ohtake, o próprio vão de 45 metros de largura por 30 de altura do Edifício Pateo Bandeiras já revela a futura abertura. "A construção foi feita com esse objetivo. Basta definir agora o que funcionará ali", diz o arquiteto, que tem experiência em propostas que unem o novo e o antigo.

Ohtake usou a mesma solução durante a restauração do Palacete Conde de Sarzedas, na Liberdade, na região central. O imóvel foi reformado a partir da construção de um novo edifício do Tribunal de Justiça de São Paulo. Para cumprir a proposta, o arquiteto usou uma fachada de vidro com formas curvas. A Casa das Rosas, na Avenida Paulista, também na região central, é mais um exemplo. Ganhou reparo depois de uma torre ser erguida no terreno.

Integração. Mas, para assegurar o uso comum dos espaços, urbanistas fazem uma ressalva: ao permitir a construção de empreendimentos modernos ao lado de bens tombados, os responsáveis devem projetar qual deve ser o uso futuro do imóvel com antecedência.

"A restauração é importante, mas os bens tombados não podem adquirir caráter privado. O interesse público deve ser priorizado", afirma Pérola, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie.

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