Cartas de Gil Rugai serão lidas no júri

Correspondências com avó vão ser usadas por defesa de acusado de matar pai e madrasta

Adriana Ferraz e Bruno Paes Manso - O Estado de S.Paulo,

16 de fevereiro de 2013 | 16h15

Cartas escritas por Gil Rugai e por sua avó paterna Odette Corona Rugai, já morta, virão a público como parte da estratégia da defesa para o julgamento do estudante acusado de matar o pai e a madrasta há quase nove anos. O crime aconteceu na mansão onde o casal morava, em Perdizes, na zona oeste de São Paulo. Segundo o Ministério Público, nenhuma tentativa vai convencer os jurados da inocência.

Parte do material foi cedido ao Estado pelos advogados Thiago Gomes Anastácio e Marcelo Feller, responsáveis pela defesa de Gil. O júri está previsto para começar amanhã. As cartas revelariam a dor da família e as saudades de Luiz Carlos Rugai, de 40 anos, morto a tiros ao lado da mulher Alessandra de Fátima Troitino, de 33, em 28 de março de 2004. Ambos foram atingidos pelas costas.

Segundo a denúncia, o estudante de Teologia que sonhava em ser padre matou o casal por dinheiro. A acusação sustenta que o motivo do crime foi a descoberta por Luiz Carlos de um desfalque de R$ 150 mil na produtora de vídeo da família. Gil seria o responsável e, com medo da represália, premeditou o duplo homicídio de forma “fria e calculista”.

Perfil que uma das cartas, escrita pelo próprio acusado, tenta desmontar. Quando ficou preso no Centro de Detenção Provisória (CDP) do Belém, na zona leste, dias após o crime, Gil relata a dor em saber que nunca mais poderá ver o pai, o homem que mais amava e a quem chama na correspondência de “guia”. Ele deixou o presídio em 18 de abril de 2006.

Religiosa, Odette procura confortar o neto com citações bíblicas e palavras de carinho. E pede perdão por não ter forças para visitá-lo na cadeia, citando a saudade que sente do filho. Nas três correspondências obtidas pela reportagem, a avó não fala sobre o crime, apenas diz que ama o neto e reza por ele.

A defesa do acusado não informou as datas exatas das correspondências, mas pelo conteúdo estima-se que elas tenham sido escritas entre abril de 2004 e abril de 2005.

Pacato. Aos 29 anos, Gil Rugai leva uma vida pacata, ao lado da avó materna, que sofre de Mal de Alzheimer, em uma casa no bairro de Perdizes. Não trabalha nem estuda formalmente. Todas as tentativas de cursar uma faculdade foram frustradas. Em 2008, mudou-se para a cidade gaúcha de Santa Maria para prestar vestibular - a decisão lhe rendeu nova prisão, já que não a Justiça não foi consultada.

Atualmente, o estudante cumpre apenas compromissos religiosos. Vai à missa quase todos os dias e mantém contato só com familiares. A mãe, Maristela Greco, acompanha de perto os últimos dias do filho antes do julgamento e aposta na participação do caçula, Leonardo, para ajudar a convencer os jurados da inocência de Gil.

Para a Promotoria e a Polícia Civil não há possibilidade de o acusado sair do banco dos réus absolvido. A acusação afirma que as provas colhidas durante o processo colocam o estudante na cena do crime. Na denúncia, Gil Rugai matou o pai e a madrasta com sua própria arma após premeditar o crime.

AS CARTAS

Trecho de correspondência escrita por Gil Rugai

“Hoje minha cota de esperança na providência atingiu o limite do nada. Foi hoje que percebi que o homem que mais amava nesta vida não poderá vir me ver aqui neste antro de desumanidade. Ele não poderá vir hoje nem amanhã nem depois nem nunca. É agora que percebo quanta falta faz aquele que pareceu sempre junto, às vezes chegava quase que a fazer parte intrínseca a mim.

E esta parte que me amparava e acolhia, não agora, mas há dias me foi rudemente arrancada, dilacerada deste ser que agora é só parte de um todo. Começo a pensar que junto daquelas coroas floridas também fui sepultado. Creio que o Gil, o garoto que de todas as formas e maneiras se esforçou e lutou para agradar e seguir um grande homem, acho que ele está a enforcar-se neste misto de dor e revolta.

Temo por um instante que talvez não metade, mas a melhor parte de mim esteja a se apagar junto com a luz daquele que me era guia. Desde pequeno, papai sempre me ensinou a ser forte e não demonstrar fraqueza, mas também a saber pedir ajuda.”

Ainda com esperança e fé, Gil Rugai.

Parte de cartas enviadas pela avó de Gil

“Parabéns pelo seu aniversário. O meu presente foi mandar celebrar uma missa pedindo a Deus que você continue com muita fé e coragem.”

“Hoje mandei celebrar missa pela alma do meu querido filho e Alessandra, e também em sua intenção e libertação. Continue firme. Um beijo e aquele abraço bem apertado. Deus te ama e eu também!”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.