WERTHER SANTANA/ESTADÃO
Muitas cartas foram escritas nas trincheiras pelos soldados paulistas que, em minoria e quase sem treinamento, enfrentavam as bem armadas tropas federais WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Cartas de 1932 revelam histórias de amor e coragem durante a Revolução Constitucionalista

Muitas correspondências foram escritas nas trincheiras pelos soldados paulistas que, em minoria e quase sem treinamento, enfrentavam as tropas federais. Pesquisadores preparam livros sobre a revolta paulista

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2021 | 05h00

Correspondências resgatadas ao longo dos últimos dez anos revelam histórias de amor, coragem e patriotismo durante a Revolução de 1932. Muitas cartas foram escritas nas trincheiras pelos soldados paulistas que, em minoria e quase sem treinamento, enfrentavam as bem armadas tropas federais. Cerca de 300 documentos, entre cartas, cartões-postais, relatórios e decretos do período em que funcionou no Estado de São Paulo um serviço postal exclusivo para a revolução foram “garimpados” pelo pesquisador Reinaldo Macedo. Ele e outro pesquisador da revolução, Eric Apolinário, preparam um livro que será lançado em 9 de julho de 2022, quando a revolta paulista completa 90 anos.

As correspondências mostram que o serviço postal constituiu uma arma estratégica para a guerra. Os comandos militares incentivaram o envio de cartas para as frentes de batalha não apenas para manter a moral dos soldados elevada, mas também para avivar neles a chama do patriotismo, incentivando os atos de heroísmo. Além da franquia no envio dessas cartas, expedidas sem cobrança de tarifa, eram distribuídos cartões-postais com frases de incentivo, como: “Paes, mães, irmãos, amigos, escrevei aos vossos soldados queridos despertando-lhes o enthusiasmo”.

Os escritos revelam até possíveis amores não correspondidos, como este trecho da carta do soldado Orlando para Lila. “Saudades. Estou bem e sem novidades. Já te escrevi duas cartas e dois telegramas, mas não recebi resposta. Talvez não tiveste tempo para me responder. Escrevo-te da minha trincheira, na estrada Vargem Grande. Estou perto de C. Branca, onde caso queira poderá escrever-me duas linhas. Lembranças à madrinha.”

Outras cartas mostram que o patriotismo dos soldados muitas vezes prevalecia sobre o temor dos pais pela vida deles na linha de frente dos combates. “Antoninho. São 2 horas da madrugada. Estou de sentinela em Cascavel, na estação. Estão instando a sair daqui... Recebi hoje uma carta da Jacyra... Você fez bem em mandar a sua separada da de Jacyra. Papai ainda está muito nervoso por nossa causa? Diga a ele que vaso ruim não quebra. Já está mais do que provado. Ainda não morri. Dá lembranças a todos e você aceite um abraço do cunhado e amigo.”

De acordo com Macedo, de 9 de julho, quando a luta armada começou, até 2 de outubro, quando as hostilidades cessaram, o Estado de São Paulo teve dois correios ao mesmo tempo. Iniciada a revolução, o serviço de correios e telégrafos da federação foi incorporado à administração pública do Estado. Em seguida foram criados o correio civil paulista e o correio militar para servir à causa constitucionalista. “O Brasil talvez seja o único país que teve três correios oficiais operando simultaneamente, dois correios em São Paulo, o civil e o militar, e um correio na federação”, afirma.

Numa época em que não havia internet nem telefone celular, o serviço postal revolucionário chegou a movimentar de 3 mil a 4 mil cartas por dia, segundo ele. “No momento em que São Paulo foi sitiado, nenhuma correspondência entrava ou saía do Estado. Durante quase três meses, as cartas para endereços paulistas ficaram paradas na origem e as cartas que voaram pelo Zeppelin ficaram retidas no Recife (PE) até o fim da revolução. Os correios foram criados para resolver internamente a necessidade de comunicação, mas apenas o Correio Militar era franqueado, sem necessidade de selo.”

O Correio Militar MMDC – a sigla se refere a Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo, os jovens mortos em 23 de maio pelos partidários da ditadura – começa em 10 de julho, mas de forma não oficial. No dia 14, foi expedida a primeira mala postal para a região norte do Estado, levando 33 cartas para as cidades de São José do Rio Pardo e Igarapava. O próprio Prudente de Moraes Netto, chefe da comissão central do correio, se incumbiu de fazer a entrega, auxiliado por Nery da Siqueira e Silva, que colocou seu automóvel à disposição do serviço.

O pesquisador conta que, no início, a entrega das cartas era feita de toda a forma possível e imaginável – a pé, a cavalo, de trem ou outro tipo de transporte, incluindo os carros particulares da época. “Os cidadãos usavam seus veículos particulares para levar a correspondência às frentes de batalha. A logística era de que a carta saísse de São Paulo, fosse levada para os fronts de Ribeirão Preto ou Itapeva e ali se iniciava a procura pelo soldado. Logo se criaram grupos de estafetas para completar o serviço de entrega”, disse.

Como havia uma mobilidade muito grande entre os soldados, muitas vezes a carta passava por várias cidades, onde eram carimbadas. Assim, há envelopes com até oito carimbos de localidades. As cartas, em sua maioria, levavam notícias de casa para o soldado – a bênção da mãe, o conselho do pai, o abraço dos irmãos, o carinho da namorada – e do front para a família, com mensagens de saudade, determinação e patriotismo. Macedo lembra que elas serviam também como veículo de propaganda da revolução. “O Enthusiasmo das Tropas apressa a Victoria”, era a frase impressa nos envelopes e cartões-postais.

Os soldados e as famílias usavam o serviço postal até para relatos banais, como a carta escrita em 12 de agosto por um jovem soldado entrincheirado no Vale do Paraíba, tentando evitar a invasão de São Paulo pelas tropas federais vindas do Rio. “Querido Papai. Estive dois dias de serviço nas trincheiras da linha de frente. Graças a Deus voltei bom e sem novidade. Recebi as galochas e uma lata de bolacha, também dois pares de meia e charutos. Muito obrigado.”

O pesquisador conta que toda correspondência civil passava por rigorosa censura e não seguia adiante se contivesse informações sobre as operações militares, palavras fora de contexto, ou mesmo notícias alarmantes ou derrotistas. O censor era “pessoa de reconhecida idoneidade”, muitas vezes a autoridade política ou policial da cidade. As cartas tinham de ser postadas abertas e os envelopes recebiam um carimbo e o visto do censor.

Eram rapidamente liberadas as cartas com demonstrações de afeto como a que jovem esposa Cilira escreveu ao marido combatente em 8 de setembro, falando sobre as celebrações de Nossa Senhora Aparecida. “Houve grande missa campal na Praça da Sé, à qual tive vontade de assistir, mas... como você sabe, sou muito espertinha e... perdi a hora; fiquei muito aborrecida e vou ver se assisto a outra missa qualquer. Tem recebido minhas cartas? Estou com vontade de ir a Itapetininga fazer-lhe uma visita. Que acha da ideia? Receba com grandes saudades da família o mais carinhoso beijo e votos felizes da sua mulherzinha amiga Cilira.”

Normalistas e crianças escreviam a soldados sem família

De acordo com o pesquisador Eric Apolinário, autor de O Inverno Escarlate – 1932 Vida e Morte nas Trincheiras do Front Leste e parceiro de Macedo na elaboração do livro, a correspondência tinha como objetivo principal elevar a moral dos soldados, em sua maioria jovens, com estrutura psicológica em formação. Por isso, a troca de correspondência era incentivada. “Para aqueles soldados que não recebiam cartas porque não tinham famílias ou estavam fora de São Paulo, foram criadas frentes de mulheres voluntárias que exerciam essa função.”

Uma das equipes de carteiras mais famosas foi a do Grupo de Normalistas de Mogi Mirim. A cidade era considerada ponto estratégico para a defesa contra as tropas getulistas vindas de Minas Gerais e cedeu prédios para abrigar os soldados paulistas, como os grupos escolares Cel. Venâncio e Rodrigues Alves, além do asilo e da Santa Casa. No total, 19 batalhões se aquartelaram em Mogi Mirim e a sociedade local se mobilizou para dar suporte aos combatentes. O grupo de escritoras de cartas para o front chegou a reunir 40 senhoras e senhoritas.

Uma das cartas, escrita por uma menina de 10 anos, dirigida ao “valoroso soldado paulista”, fala em vitória de São Paulo para a paz no Brasil. “Nós aqui em S. Paulo estamos trabalhando para que a victoria seja nossa. E para que S.Paulo vença porque queremos paz em todo Brasil. Eu rezo todas as noites para Deus me atender, que deixe S. Paulo vencer. Nós temos que entrar no Rio com grandes bandas de música. É uma menina paulista que tem apenas 10 anos.”

A voluntária de 32 Zuleika Sucupira Kenworthy, falecida em dezembro de 2017, participou de um grupo de senhoritas paulistanas que escreviam cartas para os soldados. Em entrevista ao Estadão, em 2016, ela disse que havia se apresentado como voluntária e foi destacada para montar as caixas de primeiros socorros para os combatentes, com outras jovens. Nas horas vagas, elas escreviam cartas de incentivo aos combatentes no front. “Não sabíamos quem ia receber as cartas, por isso usávamos termos genéricos, elogiando o patriotismo deles e recomendando que se cuidassem”, disse, na ocasião.

As correspondências dos oficiais seguiam em envelopes timbrados e eram registradas em folhas de controle. O serviço de telégrafo também era mais utilizado pelos oficiais, mas, no fim da revolução, a população passou a recorrer ao serviço principalmente para obter informações sobre familiares em combate. Como um telegrama enviado por meio da Estrada de Ferro Central do Brasil e dirigido ao comandante do Estado Maior Setor de Vila Queimada. “Peço dar notícias meu filho 2.º Tenente Lauro Sodré – Rua Freire da Silva, 92, São Paulo. Virginia Sodré”.

Os pesquisadores reuniram também exemplares dos 11 selos lançados para o correio civil, com valores de 100 réis a 10.000 réis, além de três selos de depósito. Na época, a Sociedade Philatélica Paulista abriu um concurso para a escolha das estampas. Quando a revolução acabou, em 2 de outubro, o governo federal autorizou o uso desses selos até o dia 30 daquele mês.

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Mogi Mirim planeja memorial com único avião que sobrou dos ‘Gaviões de Penacho', da Revolução de 32

Trata-se do único avião que sobrou da esquadrilha que travou combates com a força aérea federal durante a revolução. O plano é montar o memorial no antigo Aeroclube de Mogi

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2021 | 05h00

A prefeitura de Mogi Mirim está negociando com a Fundação Santos Dumont a criação de um memorial para expor uma relíquia da Revolução de 32. Trata-se do único avião que sobrou da esquadrilha dos “Gaviões de Penacho”, como eram conhecidos os aviões paulistas que travaram combates com a força aérea federal durante a revolução. 

O Waco CSO “verdinho” foi cedido pela fundação ao Museu da TAM, que está fechado ao público desde 2016. O acervo, incluindo o avião constitucionalista, está guardado em um galpão da empresa em São Carlos.

O plano é montar o memorial no antigo Aeroclube de Mogi, onde se deu um dos episódios marcantes da revolução – o bombardeio do campo de aviação inimigo, com a destruição de cinco “vermelhinhos”, os aviões federais. Isso aconteceu após Mogi Mirim ser tomada pelas tropas legalistas que invadiram São Paulo pelo front leste. Em represália, a esquadrilha federal bombardeou Campinas. Da aviação federal da época também restou um único exemplar, um Waco exposto no Museu da Aeronáutica do Rio de Janeiro.

De acordo com o diretor do Conselho Municipal de Turismo de Mogi, Sebastião Zoli Junior, a ideia é aproveitar um hangar do antigo Aero Clube para instalar o memorial com a aeronave de combate. “Como é um local com estrutura para receber visitantes, o plano é expor o avião ao lado do acervo que já temos sobre a revolução de 32, como peças de artilharia, bombas, uniformes e algumas armas”, disse. O hangar está ocupado pelo Corpo de Bombeiros, que deve ser transferido para um novo prédio.

O memorial passará integrar o circuito turístico da Revolução de 32 que inclui, ainda, a estação ferroviária da Mogiana, onde passava o trem blindado dos paulistas. O prédio foi inaugurado em 1875 por D. Pedro II. Também fazem parte do circuito a Escola Estadual Cel. Venâncio, que serviu de quartel para as tropas revolucionárias, e o ‘bunker’ de 32, um abrigo subterrâneo usado como refúgio e depósito de munição. O abrigo e o bosque do entorno, com 32 jabuticabeiras, passam por reformas.

Foi o turismólogo da prefeitura de Mogi, Ed Alípio, quem encontrou o paradeiro do último dos “Gaviões de Penacho”. No início do ano, ele esteve com o responsável pelo Museu da TAM, João Amaro, para fazer o reconhecimento da aeronave. Conforme Alípio, o avião é do mesmo modelo daqueles que participaram do ataque à frota inimiga em 20 de setembro, em Mogi Mirim. Ele está pintado na cor que tornou conhecidos os ‘verdinhos’ paulistas. O Waco CSO era equipado com metralhadora e porta-bombas.

No início dos combates, a força aérea revolucionária se resumia a quatro aviões - dois Wacos e dois Potez. Os federais iniciaram os ataques com 58 aeronaves. “As duas frotas aumentaram durante o conflito, mas a superioridade da aviação legalista era incontestável”, conta Eric Apolinário, pesquisador da revolução.

Por isso, o ataque ao campo de aviação de Mogi-Mirim é considerado um feito memorável, segundo ele. No início de setembro, os “vermelhinhos” tinham bombardeado Mogi Mirim e ajudado as tropas legalistas a se apossarem da cidade. O campo de aviação passou a ser usado como base aérea pelos federais.

Na manhã de 22 de setembro, quatro aviões paulistas, entre eles dois Waco CSO, decolaram de Viracopos e, depois de uma manobra de despiste, mergulharam sobre o campo de pouso de Mogi Mirim onde estavam estacionados sete aeronaves inimigas. Os aviões pilotados pelos capitães José Ângelo Ribeiro e Arthur da Motta Lima despejaram suas bombas sobre os “vermelhinhos” federais enfileirados. Houve ainda tempo para um segundo ataque, deixando cinco aviões totalmente destruídos e outros dois avariados. O aeroporto ficou em chamas.

Os jornais da época noticiaram a incursão como a maior vitória da aviação constitucionalista durante a revolução. Os federais revidaram lançando bombardeios sobre Campinas, Pedreira e outras cidades do interior. Quatro dias depois, entusiasmado com o sucesso em Mogi Mirim, o comando dos “Gaviões de Penacho” decidiu lançar um ataque contra os navios de guerra federais que faziam o bloqueio do Porto de Santos.

Dois Falcon e um Waco foram designados para a missão e, apesar de terem causado danos a alguns navios, o Falcon pilotado pelo 1.o Tenente Gomes Ribeiro, que tinha Mario Machado Bittencourt como observador, foi abatido pelo fogo antiaéreo, matando os dois tripulantes.

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