Carta ao PCC relata morte de policial

Entre papéis achados em casa de traficante há também queixa sobre novos integrantes

William Cardoso - O Estado de S. Paulo,

29 Novembro 2012 | 02h03

Relato do assassinato de um policial, contabilidade do tráfico de drogas, diretrizes para entrada no Primeiro Comando da Capital (PCC), datas de "batismo" de integrantes, nomes de padrinhos. Esses são alguns dos detalhes presentes em manuscritos encontrados anteontem na casa de Cícero Junior Machado Lopes, de 26 anos, líder da facção em Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo. Lopes foi preso na operação.

Em carta datada de 9 de julho, um criminoso relata como matou um policial militar após se desentender com ele durante abordagem em um baile funk. A Polícia Civil ainda não sabe se o próprio líder do PCC foi o autor do crime ou se o documento foi escrito por outro bandido. Trata-se de uma espécie de esclarecimento ao "tribunal do crime". O registro do assassinato pode render ascensão rápida no PCC.

"A carta seria para mostrar prestígio, porque o assassinato de um policial representa uma progressão no 'partido'", explicou Paulo César Gasparoto, responsável pela prisão de Lopes e delegado-assistente da 4.ª Delegacia de Repressão a Fraudes da Divisão de Investigações sobre Furto e Roubo de Veículos e Cargas (Divecar). Lopes se recusou a passar por exame grafotécnico para comprovar se é dele a letra na carta.

A polícia encontrou também um documento manuscrito com a data de "batismo" de várias pessoas na facção, incluindo a do traficante em 6 de fevereiro de 2009, no Centro de Detenção Provisória de Suzano, na Grande São Paulo. Um de seus padrinhos é o sequestrador Wanderson Nilton de Paula Lima, o Andinho - que chegou a ser acusado de matar o prefeito de Campinas Toninho do PT (em 2009, a denúncia contra ele foi rejeitada).

A polícia investiga se o crime descrito na carta é o assassinato do cabo Joaquim Cabral de Carvalho, de 45 anos, executado em 23 de junho em Ferraz de Vasconcelos. Lopes fugiu da penitenciária de Valparaíso em maio. Ele havia sido condenado anteriormente por roubo e tráfico.

Currículo. Entre os documentos apreendidos na casa do traficante está também um "salve geral" (comunicado) de 8 de março, que cobra uma melhor avaliação das pessoas que pretendem entrar no PCC e determina punição até mesmo de padrinhos, caso os apadrinhados não cumpram o estatuto da facção.

O texto destaca a falta de "preparo e orientação" e de "compromisso" de alguns integrantes no dia a dia. Também é feita uma advertência para padrinhos que pretendam colocar "na caminhada pessoas desqualificadas", propositadamente, como desculpa para serem excluídos da facção.

Entre os documentos, a polícia encontrou a contabilidade do tráfico na região, chamada de "Progresso no Alto Tietê", que traz detalhes da distribuição de drogas feita por Lopes em pelo menos cinco cidades - Itaquaquecetuba, Poá, Suzano, Ferraz de Vasconcelos e Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo.

São documentos datados a partir de 28 de dezembro de 2011, que mostram carregamentos de cocaína avaliados de R$ 10 mil a R$ 62 mil - de 2 a 8 quilos -, recebidos a cada 15 dias, aproximadamente. A droga era repassada a varejistas em pequenos lotes, com os valores que deveriam retornar ao fornecedor. Entre os papéis estava também uma cópia do "salve" emitido em 8 de agosto, semelhante ao encontrado pela PM em outubro na Favela de Paraisópolis, determinando o assassinato de policiais.

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